O que estamos assistindo na eleição atual é uma luta de um partido populista de esquerda organizado, com Estado Maior, estratégia e hegemonia conquistada durante mais de três décadas nas principais instituições do Estado e da sociedade, contra uma turba de descontentes com o sistema político e com a continuidade do lulopetismo, que não aceita a rotatividade democrática e não sai do governo desde o início do século.
Essa turba tem suas raízes no descontentamento social difuso com o sistema político que emergiu nos grandes swarmings em 2013, foi politizado nas manifestações pelo impeachment de Dilma em 2014, 2015 e 2016 e aproveitado pela direita populista, a partir de 2017 e 2018, para lançar o bolsonarismo como alternativa ao lulopetismo.
Embora sejam ambas populistas essas duas forças políticas não são da mesma natureza. A primeira tem um projeto de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para se prorrogar no governo por tempo suficiente para alterar por dentro o DNA da democracia, trocando-a por cidadania para o povo ofertada pelo líder populista e seu partido.
A segunda, nascida como reação alérgica à política do “nós contra eles” praticada pela primeira, não tem propriamente um projeto: é reativa e sua mais profunda raiz antissistema ficou vulnerável a impulsos autoritários anacrônicos, como a intervenção militar como único caminho para remover a hegemonia petista nas instituições, avaliando que essa hegemonia não poderia ser desfeita por via exclusivamente eleitoral sob as regras atuais do sistema democrático apenas eleitoral (não-liberal) e defeituoso (não-pleno) que vige no país.
A maioria eleitoral que a direita populista conquistou nos governos e parlamentos em 2026 não é uma hegemonia estrategicamente construída, ou seja, uma capacidade de dar um sentido moral e ético-político à revolta que tenta representar ou na qual surfou. É uma constelação fortuita de muitos micromotivos de insatisfação, que se expressa mais como negação do status quo, herdeiro da repetição de passado, do que afirmação de uma nova linha temporal para o futuro.
Assim, o antipetismo que está ameçando a reeleição de Lula não é uma escolha positiva do eleitorado pelo adversário Flávio - encarado como inimigo, ou seja, como concorrente ilegítimo pelo petismo - e sim uma reação anti-hegemônica sem projeto e, portanto, incapaz de se explicar por si mesma.



