O último refúgio dos canalhas
Sobre bandeiras, almas sequestradas e a mais lucrativa das máscaras
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (01/08/2026)
A frase e seu tempo
Segundo o relato de James Boswell, que fixou a cena para a posteridade em A Vida de Samuel Johnson, a sentença foi pronunciada em 7 de abril de 1775, num jantar em Londres, e sobreviveu ao seu autor como poucas frases na história do pensamento ocidental. “Patriotism is the last refuge of a scoundrel” — o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Samuel Johnson, o lexicógrafo que definiu a língua inglesa no exato momento em que a Inglaterra se consolidava como a grande potência imperial do mundo, não estava fazendo filosofia de gabinete. Estava, como de costume, cortando a carne do mundo com a faca seca do bom senso. O canalha, na sua tipologia moral — que Boswell registrou para a posteridade —, não é o inimigo público: é o homem privado que descobriu no amor à pátria a mais lucrativa das máscaras.
Há na frase uma geometria precisa: o patriotismo não é o primeiro refúgio, não é o melhor, não é o mais nobre. É o último. O canalha já tentou todos os outros disfarces — a filantropia, a fé, a defesa da família, a retórica do trabalho honesto — e, quando todos falham, resta-lhe a pátria. Onde a consciência já não pesa, a bandeira ainda cobre.
Johnson não era um cínico. Era um conservador anglicano que acreditava na monarquia, na ordem e nos afetos concretos — a taverna, o amigo, o livro, a conversa. Seu patriotismo era o amor ao que se conhece, não ao que se proclama. Por isso foi capaz de identificar, com dois séculos de antecedência, um mecanismo central entre os muitos que alimentam a demagogia: a transferência da lealdade doméstica para a abstração armada.
O Canalha como Tipo Moral
Dois séculos e meio depois, a frase tornou-se um lugar-comum — e, como todo lugar-comum, perdeu o fio. É repetida em redes sociais, citada em discursos de oposição, estampada em camisetas de universitários, e já não corta nada. Mas sua força original não está na denúncia do patriotismo em si — está na denúncia da oportunidade que o patriotismo oferece. Na leitura que proponho, o canalha de Johnson não é o estrangeiro, o herege, o revolucionário. É o homem de negócios, o político de carreira, o clérigo de ocasião. É aquele que descobre, num momento de aperto, que a nação pode ser invocada como um deus pagão — e que, diante desse deus, ninguém ousa pedir provas.
A grande ironia é que os próprios hipócritas aprenderam a usar a frase contra seus acusadores. Tornou-se possível que um político investigado por desvio de verbas públicas publique, nas suas redes sociais, a sentença de Samuel Johnson contra o “patriotismo de fachada” dos seus adversários — e que ninguém ache estranho. A máxima foi neutralizada pelo próprio sucesso. De bisturi, passou a ornamento retórico — e, como todo ornamento, enfeita sem cortar.
O verdadeiro trabalho, portanto, não é repeti-la — é restaurar sua precisão cirúrgica. É perguntar: quem está usando esta frase? E, mais importante ainda: o que está escondendo com ela?
Patriotismo Constitucional versus Nacionalismo Excludente
A história intelectual do patriotismo como problema filosófico é a história de uma tensão não resolvida entre o particular e o universal. Os estoicos já desconfiavam do apego excessivo à cidade natal. Sêneca, esse romano que morreu por ordem de um imperador que ele próprio ajudara a formar, escreveu no tratado De Otio (4.1) que patria mea totus hic mundus est: minha pátria é todo este mundo. A frase, citada há dois milênios, ainda hoje nos interpela.
Foi o Iluminismo que transformou essa desconfiança estoica em programa político. Immanuel Kant, em À Paz Perpétua, propôs o cosmopolitismo como horizonte moral da humanidade. Para Kant, o patriotismo legítimo era o patriotismo constitucional — o amor às leis que garantem a liberdade, não o amor ao solo, à língua ou ao sangue. O patriotismo que Johnson denunciava era precisamente o oposto: o amor sem lei, o amor que se declara acima da lei, o amor que invoca a nação para justificar a exceção.
No século XX, essa distinção ganhou carne e osso. George Orwell, que lutou na Guerra Civil Espanhola e viu de perto o nacionalismo devorar a esquerda e a direita com o mesmo apetite, escreveu em Notas sobre o Nacionalismo (1945) uma das mais lúcidas dissecções do fenômeno. Para Orwell, o nacionalismo não é o amor ao próprio país — é o desejo de poder disfarçado de amor. O nacionalista não quer que seu país seja melhor: quer que seu país domine. E, para isso, está disposto a mentir, a distorcer, a esquecer.
A nação, recordaria Benedict Anderson, é uma comunidade imaginada: os que nela se reconhecem jamais conhecerão a maioria dos seus compatriotas — e ainda assim partilham com eles um horizonte comum de pertencimento. O nacionalista, porém, não se contenta em imaginá-la: exige que todos imaginem a mesma comunidade, com os mesmos heróis e os mesmos inimigos.
O “último refúgio” de Johnson encontra em Orwell seu correspondente moderno. O nacionalista é aquele que escolheu a pátria como instrumento de poder porque todos os outros instrumentos falharam. Ou, pior, porque a pátria é o único instrumento que não exige qualificação — basta ter nascido.
A Literatura dos Canalhas
Mas talvez o mais perturbador não seja o uso do patriotismo pelos canalhas. É o uso dos canalhas pelo patriotismo.
Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, mostrou como os movimentos de massa do século XX não precisavam de líderes virtuosos — precisavam de líderes plausíveis, homens cuja mediocridade mesma era a prova de sua autenticidade. O demagogo não é um acidente no sistema: é uma peça necessária. Sua falta de escrúpulos é precisamente o que o torna útil. Ele não hesitará em queimar o que deve ser queimado, em dizer o que deve ser dito, em esquecer o que deve ser esquecido.
Há nessa observação de Arendt uma lâmina que quase nunca é desembainhada por inteiro. O líder plausível não convence apesar da mediocridade — convence por causa dela. Um homem brilhante inspira desconfiança: o talento parece traição, parece distância, parece crítica. O homem mediano, não. Sua falta de distinção é lida como falta de artifício; sua incapacidade de formular é lida como sinceridade que dispensa fórmulas; sua ignorância das complexidades é lida como pureza que recusa as meias-tintas dos doutores. O eleitorado do nacionalismo não se entrega ao líder que o supera — entrega-se ao líder que o espelha. E o espelho, sabemos, nunca mente: mente apenas invertendo. A mediocridade do líder é a prova de que ele é “um de nós”; e é exatamente essa proximidade que o desobriga de provar qualquer outra coisa. Quando a nação é invocada por um homem que se parece com qualquer um, ninguém ousa pedir provas — porque pedir provas seria, de alguma forma, pedir provas de si mesmo.
A literatura do século XIX e XX está cheia desses tipos patrióticos. O Conselheiro Acácio, n’O Primo Basílio de Eça de Queirós, é um deles — sua devoção à pátria e aos bons costumes é diretamente proporcional à sua capacidade de trair ambas. O senador McCarthy é outro — seu anticomunismo tinha a sinceridade perigosa dos que confundiram convicção com carreira. E, no Brasil, a figura do “patriota de ocasião” atravessa nossa história como uma sombra que se recusa a desaparecer: do ufanismo verde-amarelo de Afonso Celso, em Por que me ufano de meu país, ao “Brasil, ame-o ou deixe-o” da ditadura militar, até o tríptico “Deus, Pátria e Família” que ressurgiu com força a partir da década de 2010 como uma espécie de zumbi ideológico.
Mas o Conselheiro Acácio merece mais do que uma menção — merece uma autópsia. Eça o desenhou como o homem que transformou a frase feita em órgão vital: fala da pátria, da família, da moral e da ordem com a solenidade de quem recita um credo, e cada uma dessas palavras lhe serve de escada, não de lei. Acácio não mente sobre os valores — seria incapaz de mentir sobre o que nunca examinou. Ele os repete; e a repetição, nele, tem a dupla função do casaco velho: aquece e esconde. Sua devoção à pátria é tão sincera quanto vazia — e é precisamente o vazio que a torna útil. Um homem de convicções verdadeiras pode ser contrariado, refutado, corrigido; o homem de frases feitas não pode ser alcançado por nenhum argumento, porque não habita onde os argumentos circulam. O acacianismo é a primeira língua materna do patriotismo de fachada: a solenidade sem conteúdo, a prudência sem pensamento, o “senso comum” erigido em ideologia. E, como toda língua, sobrevive aos seus falantes: hoje, o Conselheiro Acácio não ocupa mais as salas de Lisboa — ocupa as timelines, os comentários, os grupos de família, sempre com a mesma frase pronta sobre a pátria que os outros não amam o suficiente. Eça o teria reconhecido na hora. Teria apenas estranhado o uniforme.
O que há de novo no século XXI não é o fenômeno — é sua escala e sua velocidade. As redes sociais permitem que o oportunista encontre seu público sem a mediação de jornais, partidos ou universidades. O patriotismo tornou-se um algoritmo: quanto mais estridente, mais engajamento. Quanto mais exclusivo, mais viral. Quanto mais violento, mais leal. E, como todo algoritmo, é cego: não distingue entre a afeição genuína e sua contrafação, desde que ambas gerem o mesmo clique.
O Canalha Sincero
O hipócrita, ao menos, tem uma consciência — uma consciência que ele usa mal, mas que existe em algum lugar, e que pode ser alcançada pela vergonha. Desmascarar um hipócrita é uma operação possível: trata-se de mostrar que a máscara não corresponde ao rosto. Mas o que fazer quando não há rosto por baixo? Quando a máscara não cobre nada — porque virou pele?
O canalha sincero é aquele em quem a instrumentalização do afeto já não passa pela hipocrisia: passa pela convicção. Ele não usa o patriotismo como disfarce; ele o habita. Acredita de verdade que ama a pátria quando, na prática, odeia os inimigos dela. Acredita de verdade que defende a ordem quando, na prática, defende o privilégio. Acredita de verdade que fala pela nação quando, na prática, fala apenas por si — mas diz “nós” com tanta convicção que já não distingue a primeira pessoa do plural da primeira pessoa do singular. O autoengano é o seu luxo e a sua fortaleza: não há hipocrisia a desmontar, porque ele não está escondendo nada de ninguém — está escondendo tudo de si mesmo. O canalha sincero é a alma sequestrada que assina o próprio cativeiro.
Arendt, mais uma vez, é a chave. Se os movimentos de massa precisam de líderes plausíveis, precisam também de crentes sinceros: o escritório do poder não funciona apenas com diretores cínicos — precisa de funcionários que acreditem no expediente. O canalha sincero é o eleitorado ideal do demagogo, porque não exige provas e, pior, sente-se traído por quem ousa pedi-las. A pergunta “por qual pátria? para quê?” não o confunde — ofende. E a ofensa o confirma: perseguição, para ele, é a prova de que está no caminho certo. A crítica não o desarma; arma-o. Cada objeção é mais um selo de autenticidade, mais uma cicatriz de mártir, mais uma confirmação de que o mundo está contra a verdade que ele carrega.
Por isso o canalha sincero é mais perigoso que o hipócrita. O hipócrita pode ser exposto — e a exposição o enfraquece, porque ele dependia da reputação. O sincero é inexpugnável: a exposição o fortalece. Não há vergonha onde não há consciência da distância entre o dito e o feito; não há desmascaramento onde a máscara é o próprio rosto. O que torna um homem perigoso não é apenas a sua falta de escrúpulos: é também a quantidade de escrúpulos que ele está disposto a sacrificar em nome de uma causa maior. E o canalha sincero sacrifica todos — começando pela dúvida, que é o primeiro escrúpulo a morrer.
Como distingui-lo, então, do patriota genuíno? Não pela intenção — essa é inverificável, e o sincero acredita nela com toda a força de quem não pode verificar. O teste é outro: o comportamento. O que o amor à pátria autoriza esse homem a fazer? O patriota genuíno sente-se autorizado a servir; o canalha sincero sente-se autorizado a destruir. Um quer vê-la melhor; o outro quer vê-los destruídos — e chama a destruição de purificação. O primeiro aceita a crítica como forma de cuidado; o segundo a recebe como traição. A sentença de Johnson, restaurada, serve também para ele: não é preciso mentir para ser canalha. Basta acreditar sem examinar — e encontrar na pátria a permissão que a consciência se recusa a dar.
O Preço Espiritual do Slogan
A consequência mais perversa do uso contemporâneo da frase não é política — é espiritual. O patriotismo como refúgio do canalha não apenas corrompe a política: corrompe a própria ideia de pertencimento. Torna suspeito qualquer amor à terra, qualquer memória compartilhada, qualquer afeto coletivo. Quem ousa dizer “amo este país” depois de ver a frase ser usada por todos os vigaristas da história?
É aqui que o aforismo revela sua ambiguidade trágica. Ele é verdadeiro — e, por ser verdadeiro, torna-se arma nas mãos dos que querem pulverizar qualquer sentimento de comunidade. O cosmopolitismo que nunca sujou as mãos, o desprezo abstrato pela nação que nunca precisou defender um chão concreto — tudo isso também pode ser o refúgio de outros canalhas. O canalha não tem pátria, mas também não tem escrúpulos em usar a ausência de pátria como bandeira.
O paradoxo é este: a mesma frase que nos ajudou a desmascarar hipócritas pode ser usada para silenciar ingênuos. E entre o hipócrita e o ingênuo, quem decide?
O problema, portanto, não é o patriotismo. É a instrumentalização do afeto. E a instrumentalização do afeto é o que define o canalha em qualquer tempo, em qualquer cultura, em qualquer ideologia.
O Refúgio Tornado Escritório
Estas linhas são escritas em 2026, num ano em que a palavra “pátria” pesa mais do que deveria. Não por causa do que ela nomeia, mas por causa do que ela autoriza. Hoje, o mundo assiste a uma nova onda de nacionalismos — na Hungria, na Índia, nos Estados Unidos, no Brasil, na Rússia, na Turquia. Cada um com suas cores, seus hinos, seus heróis. Mas todos com a mesma estrutura: um líder que se apresenta como a encarnação da nação, uma oposição tratada como inimiga, uma imprensa acusada de traição, uma justiça desafiada em nome da soberania popular.
Não precisamos, porém, de abstrações para reconhecer o escritório — basta olhar para os episódios que já atravessamos. Na pandemia, o nacionalismo vacinal transformou a saúde pública em disputa de bandeiras: cada país trancou suas fronteiras, guardou seus imunizantes, e a humanidade descobriu que a pátria também podia ser uma dose a mais. Em 6 de janeiro de 2021, no Capitólio, a bandeira americana — o símbolo mais replicado do mundo — foi usada como arma de assalto contra a própria instituição que a representa: o patriotismo deixou de ser refúgio e tornou-se passe de entrada, uniforme de expediente, logística de invasão. E no Brasil, em 8 de janeiro de 2023, o verde-amarelo cobriu os corpos que quebravam vidraças dos Três Poderes: camisetas com a bandeira, hinos entoados entre destroços, “pátria” e “família” bordadas sobre o vandalismo. Em cada um desses casos, a mesma operação: o afeto foi convocado não para proteger a comunidade, mas para autorizar a exceção. A bandeira não era o símbolo daquilo que se amava — era a licença para aquilo que se odiava.
O canalha já não precisa esperar que todos os outros disfarces falhem: o disfarce patriótico é agora o mais rentável, o mais eficiente, o mais moderno. O patriotismo já não é o refúgio dos canalhas — é seu escritório, seu gabinete, seu palácio. E, como todo palácio, tem paredes sólidas e poucas janelas.
E, no entanto, a frase de Johnson continua a ser dita — por quem resiste, por quem desconfia, por quem ainda acredita que o amor ao país pode ser outra coisa. Talvez seja esse seu verdadeiro legado: não a denúncia do patriotismo, mas a exigência de um patriotismo que não precise de refúgio. Um patriotismo que não se esconda atrás de bandeiras, mas que se mostre na coragem de criticar, na honestidade de servir, na humildade de reconhecer que nenhuma pátria é perfeita — e que é precisamente por isso que vale a pena amá-la.
O canalha, no fim, não é o outro. É uma possibilidade em cada um de nós. A frase de Johnson não é um espelho para os adversários — é um exame de consciência. Em que momento o meu amor à pátria deixou de ser amor e passou a ser ódio disfarçado? Em que momento a defesa da nação se tornou ataque ao semelhante? Em que momento a bandeira deixou de ser um símbolo de união e passou a ser uma arma de exclusão?
O último refúgio dos canalhas é, talvez, a recusa de fazer essas perguntas. O primeiro passo para não ser canalha é fazê-las — e suportar o silêncio que se segue.
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BOSWELL, James. A Vida de Samuel Johnson. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017. — Entrada de 7 de abril de 1775.
CELSO, Afonso. Porque me ufano do meu paiz: um best-seller do Século XX. Rio de Janeiro: Minotauro, 2023.
KANT, Immanuel. À Paz Perpétua. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2019.
ORWELL, George. “Notas sobre o Nacionalismo” (1945). In: Dentro da Baleia e Outros Ensaios. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2020.
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Lisboa: Porto Editora, 2010.
SÊNECA, Lúcio Aneu. De Otio (Sobre o Ócio), 4.1. In: Diálogos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2023.



