Onde estão as comunidades de democratas?
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (16/04/2026)
Há um texto muito importante publicado aqui (na Revista Inteligência Democrática) pelo Augusto: O agente político sem comunidade política. Nele se retrata o político profissional que mesmo sendo um democrata carece de lastro em comunidades democráticas, age como um ‘íon vagando num meio gelatinoso’.
Na Hungria, neste domingo, houve uma grande mudança de rumos com um governo de viés democrata ganhando a eleição e, mais, uma maioria de dois terços que permite vislumbrar alterações fundamentais no sentido contrário ao que estava sendo produzindo pelo governo anterior com sentido claramente autoritário. Ao que se sabe, o candidato vencedor, Péter Magyar, visitou boa parte do interior da Hungria, onde conseguiu criar um clima de sintonia na sociedade húngara fundamental para sua eleição.
O que esse evento na Hungria pode nos mostrar como proposta de criação de um movimento de viés democrático no país é que o lastro na comunidade é essencial para se produzir mudança política. Mesmo com toda uma engenharia criada pelo autocrata Orbán para impedir o sucesso dos partidos de oposição, a inteligência da sociedade prevaleceu quando apostaram num candidato praticamente único da oposição.
Mas, focando no título desse artigo, onde estão as comunidades de democratas aqui no Brasil?
Antes de mais nada é preciso dizer que essa revista é um esforço de construção dessa comunidade. Não podemos simplesmente ignorar que iniciativas existem, mesmo que pequenas.
Não ouso dizer o que existe por aí de iniciativas nesse sentido. Muitas comunidades de afinidades vicejam pelo país. Nelas pode-se observar que o ambiente de conversação é elemento essencial de construção de amizades e de propósito comum.
Acredito que o desafio maior de identificar comunidades democráticas é o de perceber o quanto o ambiente de conversação é importante no que dá liga a essas experiências coletivas. Muitas vezes se observa o resultado produzido por essas experiências, se virou uma ONG, uma organização formal ou outro tipo de associação institucionalizada. Se não tem resultado para apresentar nesse sentido, passa batido aos nossos olhos.
Mas o que os democratas precisam entender - e aí é importante que os políticos profissionais desçam do pedestal da fama e da glória e passem a andar no rés do chão com as pessoas comuns - é que o caminho se constrói com o ambiente de conversação. Não é participar de partido político que vai dar essa sensação de comunidade. E nem muito menos mídia social no formato broadcasting.
Claro que a falta de um nome que agregue um sentimento de mudança por mais democracia afeta os nossos anseios por um país mais democrático, mas o tempo não pára, e o dia de hoje é sempre o melhor para a gente experimentar a liberdade. A comunidade é esse lugar.
Seria interessante que cada leitor se esforçasse para observar se convive num ambiente de conversação recorrente como esse. Consegue identificar na sua vida um espaço em que isso acontece ou onde ele esteja se criando?



