Organização terrorista e crime organizado
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Não vamos complicar o que é simples. Uma organização terrorista pode ser uma organização do crime transnacional (como o Hezbollah, que faz tráfico de armas, drogas, cigarros, carros usados etc.). Mas nem toda organização criminosa transnacional (como o PCC) será terrorista.
Adotar métodos do terrorismo não transforma uma organização criminosa em terrorista. Para tanto ela deve estar estruturada em torno de uma causa política, não apenas, nem principalmente, visando o lucro.
Se toda organização criminosa transnacional (que controla territórios e se infiltra na política) passa a ser organização terrorista, então 'Ndrangheta, Cosa Nostra, Camorra, Sacra Corona Unita, Bratva, Yakuza, Tríades (14K, Sun Yee On, Wo Shing Wo), Sinaloa, CJNG, Cartel do Golfo, PCC, Mara Salvatrucha, Tren de Aragua, Barrio 18 etc. serão organizações terroristas. Isso não fortalece, mas enfraquece e confunde o combate às verdadeiras organizações terroristas (estruturadas em torno de uma causa política) como o Daesh (ISIS), RDC, ISWAP (Boko Haram), Al Qaeda, JNIM, TTP, Al-Shabaab, Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis, Talibã e, entre dezenas de outras no Iraque, na Síria e em vários países do Oriente Médio, a principal da atualidade, chamada IRGC - Corpo de Guardas da Revolução Islâmica.
O Irã (o Estado e o regime político, não a sociedade) é hoje o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica. O IRGC - uma espécie de SS (Schutzstaffel) - é uma organização terrorista. Coordena cerca de 20 grupos do jihadismo ofensivo islâmico (Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria: Asa'ib Ahl al-Haq, Kata'ib al-Imam Ali, Kata'ib Sayyid al-Shuhada, Harakat Hezbollah al-Nujaba, Saraya al-Salam, Saraya al-Khorasani, Liwa Ali al-Akbar, Saraya al-Ataba al-Abbasiya, Kata'ib Jund al-Imam, Saraya Ashura e Saraya al-Jihad, Liwa Fatemiyoun, Liwa Zaynabiyoun, Liwa Abu al-Fadl al-Abbas (LAFA), Imam al-Baqer Brigade e Liwa al-Quds etc.).
Não haverá paz no Oriente Médio (e no mundo) enquanto o IRGC não desistir de fazer guerra suja usando esses grupos. É impossível deixar de ver que isso é outro fenômeno, muito diferente da perda de soberania interna de Estados-nações infestados e acossados pelo crime organizado.
As duas coisas têm de ser combatidas pelo Estado democrático de direito, mas com métodos diferentes. O fato de haver relações entre o crime organizado (como o do PCC) e grupos terroristas (como o Hezbollah), não transforma o primeiro no segundo. Claro que, excepcionalmente, pode haver uma transição do primeiro para o segundo (talvez seja o caso, em curso, do cartel mexicano Jalisco Nova Geração (CJNG), mas ainda não se sabe). O que não haverá é uma transição do segundo para o primeiro; por exemplo, a Irmandade Muçulmana na Palestina (Hamas) nunca virará um Comando Vermelho (CV).
As consequências do terrorismo (estruturado em torno de uma causa política autocrática) para a democracia são muitos diferentes daquelas do crime organizado (com fins de lucro), embora ambas piorem a qualidade da democracia e, no limite, pelo menos no que tange ao terrorismo, possam acabar com ela.



