Os clãs políticos e as eleições
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (21/05/2026)
Quantos de nós já ouvimos que o Brasil é dominado por oligarquias regionais? A nossa memória escolar pode não render muita lembrança de conteúdos tão significativos em história, mas a menção às capitanias hereditárias quase certamente vem à mente de quem se lembra das aulas da disciplina escolar.
Mais do que o registro de um conteúdo de conhecimento, tendo a considerar que essa memória da divisão do país em glebas para controle de famílias fica gravada pelo que vivenciamos no presente e que irremediavelmente remete à imagem da divisão do território brasileiro pelos portugueses. Essa relação do que presenciamos na cena política de Brasília onde os diversos clãs regionais lutam por seu naco de poder e dinheiro com nosso passado colonial gravam em nós algo que soa imutável na história política.
Dentro desse quadro histórico de longa permanência, cabe questionar o papel que as eleições exercem na manutenção do controle político de oligarquias regionais. Essa questão já vem sendo suscitada por pensadores do sistema representativo que atribuem aos governos eleitos um princípio de distinção que destoa da igualdade proposta pela democracia. Igualdade entendida aqui não como igualdade econômica, mas como igualdade de oportunidades.
Alguns autores enfatizam o caráter aristocrático das eleições. Não é à toa que o ganhador se chama eleito, alguém que se distingue dos demais. Mas antes de serem eleitos, os traços valorizados que vão definir aqueles que serão escolhidos já são por si só distintivos tais como a riqueza, o carisma ou a proeminência.
Destaque-se aí que as campanhas eleitorais exigem fortunas para que o candidato tenha alguma chance e o acesso a recursos públicos significa a garantia do acesso a essa distinção e consequentemente a chances maiores de alcance do poder. No caso dos diversos clãs que dominam os estados no Brasil significa a manutenção do poder e a interdição da renovação política (1).
Do ponto de vista do eleitor pouca alternativa resta, ainda mais se ele vive no interior mais profundo onde o acesso a serviços que deveriam ser públicos muitas vezes são controlados por chefes desses clãs. Talvez sobre a festa que acontece no dia das eleições, geralmente regada por dinheiro não contabilizado.
Pode ser que ainda não estejamos preparados para discutir o sorteio como forma de escolha em níveis mais amplos da política nacional, mas como diria Amartya Sen, a democracia se faz experimentando, a liberdade está no presente. A lógica de recusa em sequer tratar do tema da mudança das formas de escolha não se sustenta se o objetivo propagado for o de tratar a política como espaço de conversação sobre os assuntos que interessam à comunidade.
Entendo que não é do interesse de oligarquias que mandam nesse país por séculos nem muito menos de populistas que se consideram ungidos pelo povo falar a respeito de novas formas de escolha. Que os comentadores de grandes redes não façam com mais frequência revela o comprometimento destas com os grupos dominantes. Que mais pensadores ou jornalistas não o façam talvez seja mais um indicador do déficit de democratas no país.



