Atacar a democracia não é só dar (ou tentar dar) golpe de Estado (à moda antiga: golpe militar com tanques nas ruas). A democracia também pode ser atacada por um processo continuado de erosão, quando uma força política ocupa e captura as instituições visando conquistar hegemonia para se prorrogar no governo, perpetrando o equivalente a um golpe em doses homeopáticas. É tão simples!
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
A esquerda que ameaça a democracia não é a extrema-esquerda, minoritária, coitada. É a esquerda populista, majoritária, que abandonou a ruptura revolucionária e adotou a via eleitoral, que não é golpista, nem extremista. Ela não quer dar golpe de Estado e sim conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para alterar, “por dentro”, o genoma da democracia, trocando-a por cidadania ofertada para o povo pelo líder populista. Essa esquerda tem, entretanto, raízes marxistas e foi ela que implantou o "nós x eles" inaugurando a polarização (um nome atual para a fórmule inverse de Clausewitz-Lenin: a política como continuação da guerra por outros meios).
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
As forças políticas que chegaram (ou voltaram) ao poder via eleições na Venezuela (o MVR, depois PSUV, em 1999) e na Nicarágua (a FSLN, em 2007) não eram de extrema-direita e sim de esquerda e transformaram seus regimes em ditaduras sem dar golpe de Estado.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Os ditos progressista propagam que precisamos nos proteger do perigo do crescimento da extrema-direita, em especial do fascismo, que seria o maior inimigo da democracia. Mas não basta ser antifascista para ser democrata. Maduro é antifascista. Canel é antifascista. Ortega é antifascista. O Hamas e o Hezbollah se dizem antifascistas. Xi Jinping é antifascista. Kim é antifascista. O nome do muro de Berlim era Antifaschistischer Schutzwall (Muro de Proteção Antifascista). Putin invadiu a Ucrânia para livrá-la do... fascismo! Curiosamente, toda essa conversa lulopetista sobre o perigo da extrema-direita esconde o fato de que o PT, que é de esquerda, também apoia Putin, não defende a Ucrânia, não é favorável à União Europeia (encarada como neocolonialista) e é contra o imperalismo yankee, mas transige com o imperialismo neoeurasiano russo.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Fala-se de extrema-esquerda para estabelecer uma simetria com a extrema-direita. Não há. A extrema-direita engoliu, digeriu e dejetou a direita. Os efluentes fragmentados continuaram existindo independentemente do bolsonarismo. Mas com a esquerda deu-se o contrário. A esquerda (populista), ao se tornar hegemônica, anexou a extrema-esquerda (classista ou identitarista). PSOL, PC do B, PV, Rede e PSB estão coligados (e subordinados) ao PT. PCB, PSTU, PCO e UP concorrem só para manter seus grupelhos, mas na verdade, estão na campanha Lula. Aliás, todos aqueles fascistas linchadores da UFRJ, disfarçados de antifascistas, também estão na campanha Lula ou vão votar em Lula.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Quando os dirigentes do PT - os egressos de organizações da esquerda marxista-revolucionária, os sindicalistas "autênticos" e os fiéis (ou disfarçados de fiéis) da base da Igreja da libertação - optaram pela via eleitoral, não o fizeram porque consideraram que a alternância de governo por eleições fazia parte do metabolismo normal da democracia e contribuia para a estabilidade do regime e a obtenção de seus bons efeitos. Não! Fizeram isso porque avaliaram que, nas condições do Brasil dos anos 80 - derrotada a luta armada nas suas versões rupturistas de insurreição, guerra popular prolongada ou foco revolucionário - a via eleitoral era o meio mais eficaz de chegar ao governo e se manter no governo durante tempo suficiente para empalmar o poder.
Essa é a estratégia hegemonista do populismo de esquerda, que foi adotada por Chávez e depois Maduro na Venezuela, Daniel Ortega e Rosário Murilo na Nicarágua, Evo Morales e depois Luis Arce na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Cristina Kirchner e depois Alberto Fernandez na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai, Maurício Funes e depois Salvador Cerén em El Salvador, Manuel Zelaya e depois Xiomara Castro em Honduras, López Obrador e depois Cláudia Sheinbaum no México, Gustavo Petro na Colômbia, Lula e depois Dilma Rousseff e depois Lula de novo no Brasil. Todos esses foram ou são populistas de esquerda, aliados preferenciais do PT.
Mas não há democracia liberal ou plena sem rotatividade ou alternância democrática por via eleitoral. Veja-se os casos do Uruguai e do Chile, as únicas democracias liberais da América do Sul neste século. Não é o caso do Brasil, que está sob o governo do PT durante quase todo o século. Mas é o caso do Uruguai. Sanguinetti é substituído por Lacalle, que é substituído por Sanguinetti novamente, que é substituído por Batlle, que é substituído por Vázquez, que é substituído por Mujica, que é substituído novamente por Vazquez, que é substituído por Lacalle Pou (dito ‘de direita’), que foi substituído por Orsi (dito ‘de esquerda’). E o mundo não acabou. O Uruguai continuou sendo uma democracia liberal - coisa que nunca fomos no Brasil. E é também o caso do Chile. Aylwin é substituído por Frei, que é substituído por Lagos, que é substituído por Bachelet, que é substituída por Piñera, que é substituído novamente por Bachelet, que é substituída novamente por Piñera, que é substituído por Boric (dito ‘de esquerda’), que foi substituído por Kast (dito ‘de direita’). E o mundo não acabou.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Para o PT as eleições, desde os anos 80 e até hoje, foram e são encaradas instrumentalmente, como um meio de travar uma guerra sem armas contra os inimigos da transformação social e da classe trabalhadora. É por isso que o PT foi constituido a partir da noção de que o sentido da política é a ordem e que, portanto, se trata de fazer uma luta para implantar uma ordem (supostamente mais justa). Foi isso que gerou a concepção do "nós contra eles", do lado certo (dos explorados, oprimidos, dominados e discriminados) contra o lado errado (dos exploradores, opressores, dominadores e discriminadores). Ou seja, para o PT o sentido da política não é a liberdade (como é próprio de uma democracia liberal), pois essa só se estabelecerá plenamente na nova ordem que será implantada (o tal reino da liberdade e da abundância vindouro).
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Para o PT, antes de tudo vem a luta, sempre a luta, justificada moralmente para os combatentes porque imbuídos da ideia de que sabem para onde a história vai e de que estão a favor dela. É como se nos dissessem a todo momento: "eu tenho uma ordem melhor para colocar no lugar da sua". Essa concepção é, obviamente, antipluralista (valoriza as minorias sociais, mas não aceita bem as minorias políticas e as oposições políticas), alérgica à rotatividade ou à alternância democrática (pois como se pode dar o poder aos inimigos de classe?) e, portanto, iliberal.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Democratas não devem mesmo votar em candidatos nacional-populistas, dito de extrema-direita (do tipo de Trump, Farage, Le Pen, Salvini ou Alice Weidel da AfD). Igualmente, não devem apoiar alguém da famiglia Bolsonaro. Mas isso não significa que devam apoiar uma força maligna que parasita a nossa democracia desde o início do século. Não existe, neste momento no Brasil, outra força política cujo impacto deletério seja equivalente nos curto e longo prazos. Não é porque o PT é corrupto e sim porque usa a corrupção com objetivos estratégicos de poder. Não é porque o PT é de esquerda e sim porque é da esquerda populista que se alinha às maiores ditaduras do planeta (Rússia, China, Irã e outras autocracias que compõem 80% do BRICS) contra as democracias liberais.
Por que muitos que se dizem liberais não querem entender isso?
Corta para o Brasil em 2026. Alguns ditos liberais evidenciam diariamente o perigo de Flávio Bolsonaro chegar à presidência (pelo fato de sua família ser golpista) e não falam uma palavra sobre o perigo do PT continuar no governo (fechando os olhos para sua estratégia hegemonista).
Por que muitos que se dizem liberais estão fazendo isso?
Porque estão em plena campanha de nicho, dirigida àqueles 10% de moderados que podem decidir a eleição a favor de Lula.



