Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (03/09/2026)
Augusto Cury é um outsider. Muito mais do que Renan Santos, que, mesmo sendo um neófito na política profissional, está em evidência pela atuação do MBL desde o impeachment de Dilma.
O fenômeno de candidatos outsiders ganhando força já é conhecido. O próprio Bolsonaro, apesar de ser um político profissional de longa data, conseguiu vender-se como um outsider e vencer a eleição.
O eleitor parece cansado da política tradicional e não consegue enxergar nela uma saída institucional que dê conta de tantos problemas. Um outsider simboliza a ideia de que a mudança só pode vir de fora.
Alguém se lembrou do líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que, antes de se tornar presidente, era comediante. Boa parte dos populistas fez troça disso. Trump constrangeu-o em público no Salão Oval, entre outras coisas, recriminando-o por não usar terno. O próprio Lula o ironizou em uma entrevista em 2022: “Você fica estimulando o cara e ele fica se achando o máximo. Ele fica se achando o rei da cocada, quando, na verdade, deveriam ter tido uma conversa mais séria com ele: ‘Ô, cara, você é um bom artista, você é um bom comediante, mas não vamos fazer uma guerra para você aparecer’”. O fato é que o líder ucraniano se tornou uma das maiores lideranças do mundo democrático por sua atuação à frente de um povo que resistiu e resiste a um dos ditadores mais infames e sanguinários da história contemporânea.
A política no Brasil pode ser diferente da ucraniana, mas existe um anseio legítimo por renovação. É a partir disso que podemos compreender o crescimento de Cury. Longe de sugerir que a sua candidatura represente alguma garantia de mudança, é necessário reconhecer que o seu crescimento abriu um flanco na polarização existente.
A questão fundamental, a meu ver, é saber qual é o compromisso que os outsiders — ou não — têm com a democracia. Cury já se declarou democrata. Se ele for o candidato com chances de romper a polarização e ir ao segundo turno, por que não apoiá-lo?



