Ouvir os dois lados sempre?
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (05/03/2026)
Há uma crença no jornalismo que supõe como necessária a escuta de dois lados. Agressores e agredidos, por exemplo, devem ser colocados na mesma tribuna para que conheçamos a verdade. Esse procedimento é clonado de tribunais e disputas eleitorais. Versões conflitantes ajudam na aparição da verdade e na elaboração do juízo de quem julga ou avalia.
A percepção de que o debate é enriquecido com a confrontação de visões distintas é disseminada nas democracias. A tolerância aos pontos de vista distintos do nosso se fortalece com a apresentação cuidadosa das maneiras de encarar o mundo daqueles que vêem as coisas de outras maneiras.
Em tempos de polarização essa realidade do debate público muda em função das regras de engajamento que o algoritmo das mídias sociais incrementa. O absurdo da defesa de um ponto de vista desumanizante ganha adeptos pela facilitação na criação de nichos de identificação. O mesmo argumento quando encontra sintonia em adeptos cria fronteiras cada vez mais fechadas com quem não pensa da mesma forma.
O jornalismo, se submete a lógica da busca da verdade ao princípio da confrontação de visões descontextualizando a dinâmica presente nessas mídias, pode cair numa armadilha difícil de sair que é confundir a capacidade de financiamento com a necessidade de engajamento para manter públicos fiéis. Entra num terreno pantanoso que é estimular o conflito pelo conflito apenas e tão somente porque permite que aquele leitor fiel permaneça vinculado ao seu canal.
Cabe aqui recorrer ao paradoxo da tolerância para refletir o quanto uma posição aparentemente mercadológica de busca e fidelização de públicos pode incentivar a expansão de argumentações desumanizantes quando cria uma suposta equivalência de lados tal como ocorre numa eleição de segundo turno em que há de fato dois candidatos e portanto dois lados ou em um julgamento criminal quando acusador confronta com a defesa do acusado. Estimular os intolerantes a participarem do debate público quando esse foi dominado pela lógica tribal é uma boa medida editorial?
Lembremos que esse chamado nicho de mercado pode e deve estar sendo alimentado por mídias com propósito explícito de militância política, que por sua vez, no caso do Brasil, é fomentado e financiado também pelo governo. A lógica do mercado aí obviamente não é neutra, pois busca atingir um público já formatado ideologicamente e com propósito claro de manutenção e busca por mais poder.
O que nos faz voltar ao tópico inicial e questionar: será que ao fim e ao cabo a percepção de democracia como espaço de tolerância e de convivência pacífica desses meios de comunicação que submetem a busca da verdade ao princípio do conflito de versões sejam elas quais forem, mesmo as mais desumanizantes, não reproduz em última instância uma visão de que democracia é uma questão de lado e nela cabe ao leitor apenas escolher um dos lados? Deixa de ser público e passa a ser só plateia.



