Paciência, eleitor
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (07/05/2026)
O leitor terá paciência comigo porque eu reconheço que muitas das situações que temos vivido na política fogem à minha compreensão, mas vou tentar exercitar o raciocínio para entender pelo menos o grau das minhas dúvidas. Espero contar com a compreensão e a empatia de quem vai me acompanhar nessa pequena jornada.
Quem leu o noticiário político nos últimos dias deve ter ficado chocado como eu sobre a pretensão do presidente Lula de se apresentar como candidato antissistema. Pergunto: como um presidente que está no poder direta ou indiretamente por cerca de 20 anos pode se apresentar como antissistema?
Uma pista óbvia é ver o reflexo no espelho que é o adversário mais forte nas pesquisas, o representante dos Bolsonaros. É fato que boa parte do apelo de Jair naquela eleição de 2018 veio desse caráter propagado de ser o candidato antissistema. Muita gente comprou a versão mesmo que os fatos e a história pregressa do ex-deputado e ex-militar correspondessem mais a uma imagem de outsider que sempre se beneficiou do sistema.
Mas a versão antissistema do adversário ainda atrai e boa parte da justificativa comprada pelo eleitor dele se constrói na perspectiva de uma mudança radical ao que está aí representado pelo lulopetismo e seus braços no judiciário e na imprensa. O que Lula faz diante disso? Traz a disputa para o campo da narrativa construída a partir da pergunta: quem de fato é o candidato antissistema? Ele quer que essa discussão fique em evidência.
Nem quero entrar no mérito sobre o que seria mais conveniente abordar do ponto de vista do eleitor, questão da segurança pública, reforma política e do judiciário, etc. Não, a questão é identificar a estratégia por trás do movimento do principal ator, o incumbente Lula, e o que ele entende como fator de convencimento do eleitor. E esse fator passa pela lógica do que é o sistema e o seu oposto, o antissistema.
A lógica simples talvez identificasse naquele que está no poder há já algum tempo uma adaptação ao dito sistema, o que, obviamente beneficiaria o discurso do principal adversário, que não mede esforços para apontar o dedo ao outro lado como responsável pelas mazelas do mundo. Mas a lógica simples talvez escape ou seja insuficiente para o estrategista do planalto.
Quem sou eu para dizer qual maneira de pensar deve prevalecer na decisão de um presidente, vencedor de vários pleitos, na sua próxima tentativa de se eleger? Como adiantei lá em cima, foge ao meu alcance entender a lógica sofisticada que alimenta a ideia brilhante do estrategista que habita a cabeça do presidente.
Eleger a todo custo faz sentido em quem não se interessa como vai ser para governar no futuro. O pobre eleitor, eu, quem sabe você aí, não alcança. É difícil de entender como governar sem abertura para o diálogo, só acusando quem não está ao lado de estar contra. Mas talvez a confusão gerada por mais um mandato de um governante inoperante produza aquele ambiente propício para se colocar como antissistema.
As eleições parecem estar no campo da mágica. Digo isso para não parecer burro. Ninguém quer parecer burro. Acho que toda essa digressão aí em cima foi para me enganar quanto a minha capacidade de pensar logicamente.



