Para além do triunfalismo
Um convite ao resgate de O Fim da História
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (13/06/2026)
A reabilitação filosófica de Francis Fukuyama diante das fraturas do liberalismo e do abismo do Último Homem
A recepção crítica da obra de Francis Fukuyama, em especial do seu ensaio seminal de 1989 e do subsequente livro O Fim da História e o Último Homem (1992), constitui um dos episódios mais sintomáticos de miopia hermenêutica na teoria política contemporânea. No calor do colapso soviético, uma intelectualidade apressada reduziu a tese de Fukuyama a um panfleto ufanista, interpretando-a como uma profecia empírica sobre a cessação dos conflitos globais ou a instauração de uma paz perpétua kantiana. Contudo, para resgatar a densidade e a defensabilidade de seu argumento, é imperativo deslocar a análise da crônica das relações internacionais para o terreno da filosofia da história e da antropologia filosófica. Fukuyama não operava no registro da futurologia geopolítica, mas sim na tradição do idealismo alemão, resgatando indagações profundas sobre o sentido, a direção e a finalidade da marcha humana através dos séculos. Sua tese postula que o “fim da história” não é a paralisia do tempo, a ausência de tragédias ou o silenciamento das armas, mas o esgotamento do devir ideológico. Trata-se da constatação normativa de que, após a derrocada dos grandes totalitarismos do século XX — o fascismo e o comunismo —, a humanidade não possui mais nenhuma alternativa sistêmica universalizável que seja superior à combinação entre a democracia liberal representativa e a economia de mercado.
Para fundamentar essa escatologia laica, Fukuyama apropria-se da arquitetura conceitual de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, especificamente de sua Fenomenologia do Espírito (1807), lida através das lentes do filósofo franco-russo Alexandre Kojève em sua Introdução à Leitura de Hegel (1947). Nessa tradição, a História com inicial maiúscula é compreendida como um processo teleológico e dialético, movido não primariamente pela luta de classes em torno dos meios de produção, como queria Karl Marx, mas pela luta antropológica por reconhecimento. A dialética do senhor e do escravo é o motor do desenvolvimento humano. Durante milênios, as sociedades estruturaram-se sobre o reconhecimento desigual, gerando contradições insuperáveis que impulsionavam o movimento histórico através de revoluções, guerras e rupturas paradigmáticas. O fim da História, na acepção hegeliano-kojèviana adotada por Fukuyama, e brilhantemente analisada por Perry Anderson em O Fim da História: De Hegel a Fukuyama, ocorre quando surge uma forma de Estado que resolve essa contradição fundamental. A democracia liberal triunfa porque é o Estado universal e homogêneo que institucionaliza o reconhecimento recíproco. Ela não elimina a injustiça empírica, a desigualdade econômica ou a dor cotidiana, mas esgota as contradições no plano dos princípios: não há um modelo normativo além da soberania popular e dos direitos humanos universais que possa reivindicar maior legitimidade moral.
A robustez da defesa fukuyamiana reside, portanto, em sua sofisticada antropologia filosófica, que resgata o conceito platônico de thymos — a parte da alma humana que anseia por dignidade, respeito e valor. Fukuyama argumenta que o fracasso dos regimes totalitários não se deu apenas por ineficiência econômica, mas por uma falha antropológica abissal: eles mutilavam o thymos. Enquanto as aristocracias e os fascismos operavam sob a égide da megalothymia (o desejo de ser reconhecido como superior aos demais), a democracia liberal ancora-se na isothymia (o desejo de ser reconhecido como igual). O Estado de Direito, as liberdades civis e o sufrágio universal são as traduções institucionais dessa igualdade de reconhecimento. Ao aliar o livre mercado — que sacia a dimensão desejante e racional do homem por meio da inovação, da produtividade e da abundância material — à democracia representativa — que sacia o thymos por meio da cidadania plena —, o modelo liberal ocidental atinge um equilíbrio antropológico que nenhuma outra ideologia conseguiu emular. É nesse sentido estrito e filosófico que a história das ideias políticas atinge o seu ponto terminal, consolidando um arranjo que responde de modo superior às necessidades humanas, tanto materiais quanto espirituais.
Contudo, a genialidade e a atualidade da obra de Fukuyama revelam-se na sua segunda metade, frequentemente ignorada por seus detratores, onde o otimismo hegeliano cede lugar a uma profunda melancolia nietzschiana. Ao introduzir a figura do “Último Homem”, extraída de Assim Falou Zaratustra (1883) de Friedrich Nietzsche, Fukuyama questiona a sustentabilidade psicológica do fim da História. Se o ser humano foi forjado na fornalha do conflito, do heroísmo e do risco, o que restará dele em um mundo pacificado, reduzido ao cálculo econômico, ao consumo e à preservação da saúde burguesa? Fukuyama alerta que o thymos humano não pode ser permanentemente domesticado pela isothymia igualitária. A ausência de grandes causas e a mediocridade espiritual do Último Homem geram um tédio existencial profundo. É dessa frustração que nasce a ameaça de que os homens se rebelem contra a paz e a razão democrática, buscando o conflito pelo simples desejo de afirmar sua identidade e superioridade, ressuscitando fantasmas de um passado belicoso apenas para escapar do vazio de uma vida desprovida de transcendência.
Essa tensão entre a pacificação liberal e a inquietação da alma humana serve de ponte para compreendermos as dimensões sociais e culturais que sustentam a prosperidade e a estabilidade democrática, temas que Fukuyama exploraria magistralmente em Confiança: As virtudes sociais e a criação da prosperidade (1985). Afastando-se de um reducionismo puramente econômico, o autor demonstra que o bem-estar de uma nação e sua capacidade de competir globalmente não dependem apenas de leis de mercado ou de arranjos institucionais formais, mas de uma característica cultural invisível e fundamental: o nível de confiança (trust) inerente à sociedade. A economia neoclássica, baseada no interesse próprio racional, explica apenas uma fração do comportamento humano. O restante é preenchido pela cultura, pelos hábitos sociais e pelo que Fukuyama denomina “capital social” — a capacidade dos indivíduos de trabalharem juntos em prol de propósitos comuns, formando organizações e associações que transcendem os laços de sangue.
A “sociabilidade espontânea”, conceito central em Confiança, é o verdadeiro motor das democracias liberais prósperas. Sociedades de alta confiança, como historicamente os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha, geram grandes organizações privadas de forma espontânea, permitindo o florescimento de uma sociedade civil robusta que atua como anteparo contra o poder excessivo do Estado e contra o isolamento do indivíduo. Em contraste, sociedades de baixa confiança, marcadas pelo “familismo” — onde a lealdade se restringe aos laços de parentesco e há profunda desconfiança em relação aos estranhos —, dependem excessivamente da intervenção estatal para alcançar escala industrial e sofrem com a fragilidade de suas instituições cívicas. A democracia liberal, portanto, não é um maquinário que funciona no vácuo; ela respira o ar da cultura e alimenta-se do capital social. Quando a confiança declina, quando a sociabilidade espontânea se fragmenta em litígios intermináveis e no isolamento urbano, o próprio tecido da democracia liberal começa a se esgarçar, preparando o terreno para as crises contemporâneas.
O esgarçamento do tecido social, magistralmente diagnosticado por Fukuyama em sua análise sobre a confiança e o capital social, conduz-nos, de maneira inexorável, ao epicentro da tempestade contemporânea, um cenário onde o triunfo outrora inquestionável do modelo ocidental passa a ser corroído por suas próprias contradições internas. É neste abismo de incertezas que a reflexão do autor se aprofunda, culminando na brilhante e melancólica dissecação operada em O Liberalismo e Seus Descontentes (2022). Nesta obra, Fukuyama abandona qualquer resquício do triunfalismo que lhe fora injustamente imputado na década de noventa para assumir a postura de um médico legista diante de um corpo político adoecido. Ele compreende que a ameaça à democracia liberal no século XXI não provém de uma ideologia totalitária externa, coerente e armada, como o foram o fascismo e o comunismo soviético, mas sim de uma hipertrofia de seus próprios princípios fundadores. O liberalismo, em sua essência clássica, foi concebido nas cinzas das sangrentas guerras de religião europeias dos séculos XVI e XVII. Pensadores como Thomas Hobbes e John Locke forjaram essa doutrina não como uma promessa de salvação espiritual ou como um projeto de perfeição moral, mas como um arranjo pragmático, um modus vivendi destinado a permitir que indivíduos com visões de mundo radicalmente distintas pudessem coexistir em paz, protegidos por direitos inalienáveis e governados pelo consentimento mútuo.
Contudo, a tragédia da modernidade tardia, segundo a leitura profunda de Fukuyama, reside no fato de que as virtudes cardeais desse liberalismo clássico foram esticadas até o ponto de ruptura, transformando-se em dogmas absolutistas que alienam o próprio indivíduo que visavam proteger. A primeira dessas distorções, operada no flanco direito do espectro político e econômico, foi a mutação do liberalismo em neoliberalismo. O princípio salutar da economia de mercado e da propriedade privada, que no fim da História fora reconhecido como o motor insubstituível da prosperidade material e da inovação tecnológica, foi elevado à condição de uma teologia inflexível. A crença desmedida na desregulamentação absoluta, na privatização de todas as esferas da vida e na hostilidade visceral contra qualquer forma de intervenção estatal gerou um mundo de extrema eficiência, mas também de profunda desolação social. A hubris do capital financeiro globalizado desmantelou as redes de proteção, precarizou o trabalho e atomizou as comunidades, destruindo exatamente aquele “capital social” e aquela “confiança” que Fukuyama, em Confiança, havia identificado como os alicerces invisíveis da prosperidade. O indivíduo, reduzido à condição de mero maximizador de utilidades, o Homo economicus, viu-se subitamente órfão de propósito, habitando um mercado global que lhe oferecia uma miríade de bens de consumo, mas lhe negava a segurança ontológica do pertencimento comunitário.
Simultaneamente, no flanco esquerdo do espectro ideológico, o liberalismo sofreu uma distorção de natureza cultural e ontológica, centrada na absolutização do conceito de autonomia individual. O liberalismo clássico defendia a autonomia no sentido de proteger o cidadão contra a coerção arbitrária do Estado e da Igreja. No entanto, a partir da segunda metade do século XX, essa premissa evoluiu para uma exigência de libertação de toda e qualquer restrição herdada, seja ela a tradição, a religião, a família ou até mesmo a biologia. O ápice dessa trajetória é o que Fukuyama identifica como a ascensão da política identitária, um fenômeno que ele dissecara com precisão cirúrgica em Identidade: A demanda por dignidade e a política do ressentimento (2018). A busca legítima por igualdade de direitos e pelo fim da discriminação contra grupos historicamente marginalizados — um imperativo da isothymia democrática — se metamorfoseou em uma celebração essencialista da diferença. Em vez de buscar a integração em uma narrativa cívica universal, onde o que importa é a humanidade compartilhada, a nova esquerda identitária passou a fragmentar a sociedade em tribos estanques, definidas por raça, gênero e orientação sexual, cada qual reivindicando um status de vítima e exigindo um reconhecimento exclusivo e reparatório.
A convergência dessas duas forças centrífugas — o extremismo econômico que atomiza a sociedade em indivíduos isolados e o extremismo cultural que a fragmenta em guetos identitários — esvaziou o centro do projeto liberal. O Estado, que deveria ser o árbitro neutro e o garantidor do bem comum, passou a ser visto com desconfiança e cinismo por todos os lados. É neste vácuo de sentido, nesta praça pública esvaziada de uma narrativa unificadora, que o “Último Homem” de Fukuyama desperta de seu torpor burguês, não com a serenidade de quem alcançou a paz, mas com a fúria de quem teve sua dignidade usurpada. O tédio do fim da História, que Nietzsche temia, transformou-se em uma ansiedade crônica. O cidadão contemporâneo, despojado de suas raízes comunitárias pela globalização econômica e repreendido por suas heranças culturais pelo progressismo identitário, experimenta uma profunda crise de reconhecimento. O thymos, aquela parte da alma que exige respeito e validação, encontra-se faminto e ferido.
É dessa ferida aberta que brota a política do ressentimento, o motor incandescente dos populismos autoritários que hoje assombram as democracias ocidentais. Líderes demagógicos, com sua retórica inflamada e suas promessas de restauração de uma grandeza mítica perdida, não oferecem soluções técnicas complexas para os dilemas da economia global; eles oferecem algo muito mais inebriante e perigoso: eles oferecem o resgate da megalothymia. Eles dizem às massas esquecidas, aos trabalhadores desindustrializados e aos cidadãos perplexos diante da rápida mudança de valores, que eles são, de fato, o verdadeiro povo, e que sua dignidade lhes será devolvida à custa das elites cosmopolitas e das minorias favorecidas. O nacionalismo febril, o protecionismo agressivo e o desprezo pelas instituições liberais — a imprensa livre, o judiciário independente, a burocracia técnica — não são anomalias passageiras, mas sintomas de um sistema que falhou em nutrir a alma de seus cidadãos. A democracia liberal, ao concentrar-se excessivamente nos procedimentos formais e no crescimento do Produto Interno Bruto, esqueceu-se de que o ser humano não habita apenas a economia, mas também a cultura, a memória e a nação.
A densidade intelectual de Fukuyama revela-se na sua recusa em ceder ao desespero niilista ou ao reacionarismo nostálgico. Ele não propõe o abandono do liberalismo, mas a sua moderação e o seu resgate. Em O Liberalismo e Seus Descontentes, o apelo é por um retorno à sobriedade clássica, uma aceitação dos limites da razão humana e da necessidade imperiosa de coesão social. Fukuyama argumenta que a resposta às falhas do neoliberalismo não é o socialismo de Estado, mas uma economia de mercado regulada que proteja os vulneráveis e invista no bem-estar coletivo, restaurando a confiança mútua. Da mesma forma, a resposta aos excessos da política identitária não é o retorno a um nacionalismo étnico excludente, mas a construção de uma identidade nacional cívica, baseada em ideais democráticos compartilhados, que seja suficientemente ampla para abrigar a diversidade, mas suficientemente forte para gerar solidariedade e sacrifício mútuo. A sobrevivência do fim da História exige a compreensão de que a liberdade individual não pode existir no vácuo; ela requer um arcabouço institucional forte, uma cultura de tolerância e um sentido de dever cívico que transcenda o mero interesse próprio.
Neste vasto panorama do pensamento fukuyamiano, percebe-se que a sua obra é um épico contínuo sobre a fragilidade da civilização. Desde a proclamação da vitória ideológica da democracia liberal até o diagnóstico de suas patologias contemporâneas, Fukuyama atua como um guardião da tradição iluminista, alertando-nos de que a razão e a liberdade são conquistas antinaturais, sempre ameaçadas pelas paixões atávicas da tribo e pelo desejo de dominação. O “Último Homem” não é um destino garantido, mas um abismo sobre o qual equilibramos a nossa frágil ordem política. A história, em seu sentido empírico, continuará a produzir crises, pandemias, inovações tecnológicas e conflitos geopolíticos; no entanto, o desafio central da humanidade permanece o mesmo delineado nas páginas de Hegel e Kojève: como construir uma morada comum onde o desejo de reconhecimento de cada indivíduo possa ser satisfeito sem destruir a dignidade do outro.
A persistência dessa frágil ordem política, contudo, depara-se no alvorecer do século XXI com provações que testam os limites da arquitetura institucional e moral do Ocidente. Se a ameaça interna advém da polarização identitária e da atomização neoliberal — patologias dissecadas em O Liberalismo e Seus Descontentes —, o cenário externo apresenta o ressurgimento de quimeras autocráticas que reivindicam para si o manto de alternativas civilizatórias. Regimes como os da China e da Rússia, amparados por um formidável aparato de coerção tecnológica e por narrativas de resgate imperial, buscam refutar a premissa fukuyamiana de que a democracia liberal é o destino incontornável da humanidade. Argumentam, com a arrogância típica dos despotismos, que o modelo ocidental é decadente, caótico e incapaz de prover a ordem e a eficiência necessárias para navegar na complexidade contemporânea. No entanto, a erudição de Fukuyama, expandida em sua monumental obra em dois volumes sobre o desenvolvimento político — As Origens da Ordem Política e seu magistral volume conclusivo, Ordem Política e Decadência Política (2014) —, demonstra que a aparente eficiência dos regimes despóticos oculta uma fragilidade estrutural e moral insuperável. Para que uma ordem política seja plenamente desenvolvida e resiliente, Fukuyama postula que ela deve equilibrar três pilares fundamentais: um Estado forte e capaz, o império da lei (que subordina os próprios governantes a regras universais) e a accountability democrática (a responsabilização do poder perante os cidadãos). As autocracias contemporâneas podem até ostentar a força coercitiva e administrativa do primeiro pilar, mas falham miseravelmente nos dois últimos. Sem o império da lei e sem a prestação de contas, esses regimes são incapazes de resolver o dilema atávico da sucessão pacífica e sofrem do que a ciência política chama de “problema do mau imperador”. Portanto, o desafio autocrático não representa uma superação do fim da história, mas uma regressão a estágios anteriores do desenvolvimento humano, onde a estabilidade depende da sorte de se ter um déspota esclarecido e onde a dignidade do cidadão é esmagada pela onipotência do Estado.
A superioridade da democracia liberal, reafirmada por Fukuyama diante desse cenário, não reside na sua infalibilidade administrativa, mas na sua colossal capacidade de autocorreção. É o único sistema que possui os mecanismos institucionais para expurgar seus próprios erros sem a necessidade de derramamento de sangue. Contudo, essa resiliência institucional está sendo submetida a um teste de estresse sem precedentes com o advento da revolução digital e da inteligência artificial. A tecnologia, que no alvorecer da globalização prometia ser o vetor definitivo da democratização da informação, converteu-se em um acelerador das patologias dissecadas em Identidade e O Liberalismo e Seus Descontentes. Os algoritmos das redes sociais, desenhados para maximizar o engajamento através da indignação, operam como engenhos de fragmentação do capital social. Eles corroem a “confiança” — aquela virtude social indispensável que Fukuyama exaltou em Confiança —, substituindo a praça pública comum, onde o debate racional e a isothymia poderiam florescer, por câmaras de eco tribais onde a megalothymia e o ressentimento são alimentados ininterruptamente. A tecnologia não alterou a natureza humana, mas forneceu um megafone planetário para as angústias do Último Homem, exacerbando a sensação de desamparo ontológico e facilitando a ascensão de demagogos que prometem certezas absolutas em um mundo líquido.
Ainda assim, a resposta a essa vertigem tecnológica e à desintegração da confiança não pode ser o abandono do projeto liberal, mas a sua corajosa reinvenção. Fukuyama nos ensina que a democracia liberal não é uma máquina perpétua que funciona independentemente da virtude de seus cidadãos. Ela é um jardim frágil que exige cultivo diário. O liberalismo clássico, com sua ênfase na tolerância, na moderação, no respeito à verdade factual e na separação entre as esferas pública e privada, continua sendo o único antídoto viável contra o fanatismo. Para que o fim da história sobreviva às tempestades do século XXI, é necessário resgatar a dimensão moral da cidadania. O Estado deve recuperar sua capacidade de atuar em prol do bem comum, mitigando as desigualdades obscenas geradas pelo neoliberalismo desimpedido, enquanto a sociedade civil deve rejeitar a tentação do narcisismo identitário, reconstruindo laços de solidariedade que transcendam as fronteiras de raça, gênero e religião. A grandeza do pensamento de Fukuyama está em nos lembrar que a economia e a política são, em última instância, subordinadas à cultura e ao espírito.
Ao contemplarmos a totalidade da obra de Francis Fukuyama, desde a audácia filosófica de seu ensaio de 1989 até as advertências sombrias de seus escritos mais recentes, deparamo-nos não com um ideólogo do triunfalismo, mas com um dos mais profundos e trágicos pensadores da condição humana moderna. Ele nos ofereceu o espelho no qual o Ocidente pôde enxergar tanto a sua glória incomparável quanto a sua miséria latente. A tese do fim da história permanece irrefutada em seu núcleo normativo: não inventamos, nem vislumbramos, nenhuma forma de governo superior àquela que consagra a liberdade individual e a igualdade de reconhecimento. No entanto, a genialidade de Fukuyama foi atrelar essa constatação luminosa à sombra aterradora do Último Homem. Ele nos alertou que a paz burguesa, se desprovida de propósito, de confiança mútua e de um sentido de dever cívico, transforma-se em um terreno baldio onde germinam os monstros do ressentimento.
A defesa da democracia liberal, portanto, não é uma marcha inercial rumo a um paraíso garantido, mas uma vigília perpétua à beira do abismo. A história das ideias políticas pode ter encontrado o seu porto seguro, mas a alma humana, com sua sede indomável por transcendência, continuará a agitar as águas. Ler Fukuyama hoje é compreender que a liberdade não é um dom natural, mas uma conquista civilizatória precária, sustentada pela frágil teia da confiança social e pela moderação de nossos desejos mais obscuros. Que a sua obra permaneça como um farol erudito e melancólico, iluminando as ruínas de nossas certezas e convocando-nos à nobre e exaustiva tarefa de proteger o edifício democrático contra a barbárie que sempre espreita, não apenas além de nossas fronteiras, mas nas profundezas do nosso próprio tédio.
REFERÊNCIAS
ANDERSON, Perry. O fim da história: de Hegel a Fukuyama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
FUKUYAMA, Francis. As origens da ordem política: dos tempos pré-humanos até a Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
FUKUYAMA, Francis. Confiança: As virtudes sociais e a criação da prosperidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
FUKUYAMA, Francis. Identidade: a demanda por dignidade e a política do ressentimento. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
FUKUYAMA, Francis. O liberalismo e seus descontentes. Rio de Janeiro: Rocco, 2022.
FUKUYAMA, Francis. Ordem política e decadência política: da Revolução Industrial à globalização da democracia. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 2002.
KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



