Para que a democracia liberal não tarde ainda mais
No Brasil, a crise de confiança na democracia tem causas concretas: serviços públicos deficientes, privilégios, insegurança jurídica, baixa qualidade da representação política e governos incapazes de entregar resultados. O desgaste ultrapassa partidos, autoridades e instituições. Determinadas decisões judiciais e atuações investigativas têm alimentado o debate sobre os limites da intervenção institucional durante o processo eleitoral.
No liberalismo, toda pessoa possui igual valor moral e todo poder deve encontrar limites. Dessa premissa surgem eleições livres, tribunais independentes, imprensa crítica, direitos civis, pluralismo e proteção das minorias. A razão é elementar: quem exerce autoridade pode errar e exceder seus limites.
Defender a democracia liberal exige reconhecer suas falhas. A principal vantagem da democracia liberal está em sua capacidade de correção. Governos podem ser substituídos; leis, revistas; autoridades, investigadas; direitos, ampliados. Há mecanismos para conter abusos, rever decisões e afastar governantes incompetentes.
Essa capacidade depende de instituições que aceitem seus próprios limites. Aos tribunais cabe exercer sua função jurisdicional; aos governos, respeitar a imprensa; às maiorias, preservar direitos fundamentais; às corporações, responder pela influência que exercem.
O liberalismo oferece liberdade jurídica e política; propósito e pertencimento surgem nas famílias, nas comunidades, nas escolas, nas associações e na cultura. Cabe ao Estado proteger esse pluralismo, sem impor uma concepção oficial de vida digna nem transformar preferências políticas em obrigações morais.
Enfrentar desigualdades e melhorar os serviços públicos é diferente de transformar proteção social em tutela. A ação estatal deve ampliar capacidades e autonomia. Um Estado centralizador enfraquece a iniciativa local e alimenta o clientelismo; abandonar cidadãos à própria sorte produz desamparo em vez de liberdade.
Uma democracia robusta combina Estado competente e sociedade civil ativa. Políticas públicas devem criar condições para a autonomia e abrir espaço à participação. Associações, organizações comunitárias, cooperativas e iniciativas voluntárias constroem redes de confiança e permitem que divergências sejam enfrentadas sem submeter a vida pública a facções ou salvadores.
Discursos solenes e apelos à unidade são insuficientes para recuperar a confiança. Ela exige resultados, regras previsíveis e autoridades submetidas às mesmas leis que todos os cidadãos.
Segundo o V-Dem, as 31 democracias liberais constituem uma parcela minoritária dos regimes políticos do mundo. O Brasil se consolidará como democracia liberal (é uma democracia eleitoral) quando seus princípios produzirem efeitos concretos na vida das pessoas. Ninguém está acima da lei, e todo poder precisa de limites. Isso exige governos competentes, instituições responsáveis e cidadãos presentes na vida pública. Cada geração recebe uma democracia imperfeita. Seu dever é melhorá-la sem entregar a própria liberdade a salvadores.
A participação ativa da sociedade e a construção dessas redes de confiança esbarram na degeneração da praça pública em uma arena digital marcada por guerras de rede que distorcem o debate e estimulam a polarização extrema. Como a verdadeira democracia resulta de um exigente esforço civilizatório para impedir que diferenças se transformem em antagonismos, conter estruturas de manipulação e radicalização no ambiente digital e resgatar a civilidade tornou-se um imperativo. A ordem democrática existe para proteger a sociedade do domínio pelo medo, afastar a imposição de uma harmonia ilusória e preservar o milagre de nossa imprevisibilidade humana.
Apenas ela assegura que o poder permaneça como um “lugar vazio”, impossível de ser apropriado de forma definitiva por qualquer líder, garantindo a cada geração o direito de romper com o passado e iniciar algo inteiramente novo.
Um candidato democrata liberal rejeita a polarização do “nós contra eles” e a ilusão de ser um “salvador da pátria”. Ele atua como “fermento” da auto-organização social para limitar o Estado, tomando a liberdade como o sentido da política e preservando esse “lugar vazio”.
Nenhuma das candidaturas presidenciais de 2026 representa a tradição democrata liberal. Considerando a configuração atual, evitarei, no primeiro turno, votar em candidatos representantes dos extremos polarizados, assim como alternativas sem experiência pública relevante. Entre as demais opções, daria preferência a quem demonstrasse mais experiência executiva, compromisso democrático e respeito aos limites institucionais.




