Por que o V-Dem não pode se dar ao luxo da seletividade
Uma análise crítica sobre como narrativas incompletas e silêncios estratégicos podem inadvertidamente fortalecer novas formas de autocracia.
Projeto Villa e Thiago Padovan (20/01/2026)
A responsabilidade da hegemonia
O V-Dem Institute estabeleceu-se, com mérito, como o “padrão-ouro” na mensuração da democracia global. Com inúmeros projetos e uma rede de 4.200 especialistas, o instituto já não é mais apenas um observador acadêmico, mas sim um validador de legitimidade.
Governos, jornalistas, empresários entre outros olham para seus relatórios para moldar suas visões e tomar decisões estratégicas.
Exatamente por ocupar essa posição de hegemonia intelectual, o V-Dem carrega o ônus de que suas definições e posicionamentos moldam a realidade.
Quando o V-Dem classifica um movimento político, ele cria uma narrativa. E é aqui que reside nossa profunda preocupação de que o rigoroso escrutínio aplicado a certas formas de autocracia não é aplicado, com a mesma intensidade e publicidade, a outras ameaças igualmente corrosivas à democracia liberal.
O silêncio ensurdecedor sobre o Irã e a “Cegueira de Flanco”
Nas últimas semanas, o mundo assistiu horrorizado à escalada de repressão e violência no Irã. No entanto, ao observarmos os canais de comunicação (Linkedin e Bluesky) do Diretor do V-Dem, Professor Staffan I. Lindberg, notamos um silêncio perturbador sobre este tema, em contraste com a (necessária) cobertura intensa sobre a autocratização principalmente nos EUA.
Quando uma instituição do porte do V-Dem foca seus canhões majoritariamente em um espectro do autoritarismo, ela cria um “ponto cego”.
Regimes teocráticos ou de esquerda iliberal aproveitam esse vácuo para posarem de vítimas do imperialismo ou, pior, para operarem nas sombras da crítica internacional. A repressão iraniana é tão destrutiva quanto qualquer autocracia populista atual, na maioria dos casos muito pior. O silêncio, neste caso, soa como uma hierarquização de tragédias democráticas.
O Caso Brasileiro: A narrativa perigosa do “U-Turn”
Há dois anos, temos alertando o V-Dem sobre a desconexão entre seus dados e a realidade no Brasil. A classificação do Brasil como um caso de “Democratic U-turn” (retorno democrático) é perigoso na prática política.
A falácia da “Frente Ampla”: O relatório sugeriu a existência de uma “frente ampla pela democracia” e uma atuação “decente” do judiciário. Como apontamos em nossas correspondências ao V-Dem, essa leitura ignora que parte do judiciário brasileiro, sob o pretexto de “defender a democracia”, tem adotado medidas de exceção, censura e extrapolação que seriam condenadas em qualquer democracia liberal madura, e que tem se agravado desde então.
A troca de regimes iliberais: A saída de um governo com tendências autocráticas (Bolsonaro) para a entrada de outro (Lula/PT) que flerta e se alinha com regimes ditatoriais e aparelha o estado não configura um “retorno à democracia”, mas sim uma mudança na estética do iliberalismo.
A resposta do V-Dem: Em trocas de e-mails, representantes do V-Dem argumentaram que a melhoria nos índices foi “modesta” e que o termo “U-turn” refere-se apenas à interrupção da queda, não à perfeição democrática.
Embora respeitemos a metodologia, o problema é de narrativa.
Quando o V-Dem estampa “U-Turn” em um relatório, mídias, governos e influenciadores usam isso como selo de aprovação para continuar erodindo instituições por outros meios. A nuance acadêmica se perde, e o que sobra é a propaganda política validada por Gotemburgo.
O colapso americano não é habeas corpus para outros autocratas
É claro que precisamos sempre dizer claramente que a guinada autoritária nos Estados Unidos é um acontecimento de grandes proporções.
Concordamos com a gravidade que o V-Dem atribui a este fenômeno. A escalada é visível e violenta:
Política externa cínica: A manutenção de relações com o regime autoritário da Venezuela demonstra que a bússola moral foi trocada por interesses opacos, longe de qualquer intenção de democratização ou legítima intenção de auxílio ao povo daquele país.
Imperialismo ressurgente: As ameaças territoriais principalmente sobre a Groenlândia, combinadas com a coerção econômica via tarifas contra aliados históricos da União Europeia, desenham um isolacionismo agressivo.
Alinhamento Pró-Rússia: A postura no conflito Ucrânia-Rússia transformou os EUA em um megafone de narrativas do Kremlin, enfraquecendo a OTAN e deixando a Europa em uma vulnerabilidade existencial.
Caos interno: A instrumentalização do ICE (Immigration and Customs Enforcement) para criar um estado de terror interno e desestabilização social é tática de manual autocrático.
Poderíamos continuar elencando diversas outras ações, no entanto, reconhecer a autocratização americana não pode servir de cortina de fumaça para ignorar o que acontece no na “Internacional Iliberal” como nomeou a revista Foreign Affairs recentemente.
O fato de os EUA estarem doentes não torna o Brasil saudável. Pelo contrário, o cenário global exige vigilância redobrada, pois os autocratas aprendem uns com os outros.
O Brasil na “Internacional Iliberal”: A diplomacia da cumplicidade
Se olharmos para além das fronteiras nacionais, vemos a consolidação do que analistas da Foreign Affairs chamaram de “A Iliberal internacional”, uma rede de cooperação onde autocracias se blindam economicamente e ideologicamente contra as democracias liberais.
E é na política externa que o governo Lula revela sua verdadeira face, muito distante da imagem de “salvador da democracia” que o V-Dem ajudou a pintar.
Existem elementos factuais que desmontam a tese de um governo genuinamente democrata no Brasil:
A “Doutrina do abraço ao ditador”: A política de alianças do atual governo não pode ser nomeada como pragmatismo, mas sim preferência deliberada. O alinhamento sistemático com ditaduras (Cuba, Nicarágua, Venezuela, Angola, China Rússia e Irã) e o empenho em reabilitar a imagem de tiranos no palco global são provas de uma afinidade ideológica profunda com o autoritarismo.
A falsa equivalência na Ucrânia: Ao relativizar o papel da Rússia (agressora e autocrática) e equalizar responsabilidades com a Ucrânia (agredida e democrática), o Brasil não defende a paz; defende a sobrevivência do modelo autocrático de Putin, validando a lei do mais forte. Curiosamente posicionamento próximo ao de Trump neste tema.
O silêncio sobre o Irã: A nota mais recente do governo brasileiro sobre a situação no Irã é um estudo de caso em omissão. Ao não mencionar quem promove o massacre, o governo brasileiro escolhe proteger o regime teocrático em detrimento dos direitos humanos, e principalmente das mulheres, muitas vezes objeto de “força”e indignação em outros lugares no mundo, as mulheres iranianas foram esquecidas pelo nosso governo. Falhando mais uma vez no teste mais básico de solidariedade democrática.
A “Lavagem de imagem” via BRICS: A atuação proativa do Brasil na expansão do BRICS não é por acaso ou apenas interesses econômicos e comerciais, é sim mais uma validação geopolítica. Ao abrir as portas a entrada de regimes como o do Irã no bloco, o governo brasileiro forneceu legitimidade internacional e acesso a novos canais diplomáticos para uma teocracia. Na prática, o Brasil ajudou a transformar o BRICS, de em um “clube de autocratas” onde ditaduras ganham fôlego financeiro e político para continuar oprimindo suas populações e minando as democracias globais sem o isolamento que mereceriam.
Alckmin ao lado de líderes terroristas: Não podemos nunca nos esquecer da fatídica foto do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, na cerimônia de posse do presidente do Irã, Masud Pezeshkian ao lado de líderes terroristas a mando do governo petista.
A estranha química populista: Ironicamente, observamos uma recente troca de elogios e uma “química” diplomática entre Lula e Trump. Se o V-Dem considera Trump uma ameaça existencial à democracia (e concordamos), como explicar que o suposto “campeão da democracia” no Brasil encontre tantos pontos de convergência com ele? A resposta é a seguinte: populistas iliberais, sejam de esquerda ou de direita, falam a mesma língua quando o assunto é desprezo por limites institucionais e pela ordem liberal global.
O V-Dem precisa decidir se vai continuar analisando o Brasil pelo que o governo diz em discursos para a ONU, ou pelo que o governo faz ao apertar as mãos dos maiores inimigos da liberdade no mundo.
“O vice-presidente Geraldo Alckmin (primeiro à esq.) próximo de autoridades iranianas e do líder do Hamas, Ismail Haniyeh (primeiro à dir.) - Reprodução/Press TV”
Metodologia vs. Realidade percebida
Nossa crítica não é um ataque aos dados, mas à interpretação que ignora a volatilidade do cenário. O V-Dem admite que indicadores de regimes políticos podem não refletir imediatamente os impactos de comportamentos governamentais, e que existe erro de medição. No entanto, a insistência em narrativas otimistas sobre o Brasil ou o silêncio sobre certas autocracias, sugere um viés de confirmação onde governos que “soam” progressistas recebem o benefício da dúvida que não é concedido a outros.
O V-Dem precisa prestar mais atenção a essas coisas que podem ser tão letais para a liberdade quanto o autoritarismo militar.
A entrevista à Carta Capital e a bolha dos analistas
A credibilidade de uma instituição global não se constrói apenas com dados, mas também com a curadoria de suas interações públicas. Recentemente, em uma de suas raríssimas aparições diretas na mídia brasileira, o Professor Lindberg concedeu uma entrevista exclusiva à revista Carta Capital, sob a manchete “Os EUA não se qualificam mais como uma democracia”.
A crítica aqui não reside no conteúdo da análise sobre os EUA, nem no direito da Carta Capital de exercer seu jornalismo — que possui uma linha editorial histórica e legítima, porém abertamente posicionada em um espectro ideológico específico. A crítica reside na escolha estratégica.
Ao escolher um veículo com um viés político tão marcado para ser seu porta-voz quase exclusivo no Brasil, o V-Dem envia um sinal desastroso de partidarismo. Em um país polarizado, onde a batalha de narrativas é feroz, um árbitro da democracia não pode se dar ao luxo de falar apenas para uma torcida. Isso sugere duas hipóteses preocupantes:
Desconexão estratégica: O V-Dem desconhece a paisagem midiática brasileira e não compreende que, ao se associar unicamente a veículos de nicho ideológico, aliena metade do país e o setor produtivo, que veem nessas escolhas a confirmação de um suposto viés esquerdista do instituto.
Cercamento ideológico: Mais grave ainda, isso indica que o V-Dem pode estar “mal cercado” localmente. Se os analistas e conselheiros que fazem a ponte entre Gotemburgo e o Brasil direcionam o diretor do instituto apenas para mídias que confirmam seus próprios vieses, então a própria coleta de dados sobre o país está comprometida.
Quem filtra a mídia para o diretor, filtra também a realidade para o relatório?
Para uma instituição que precisa ser ouvida por conservadores, liberais e progressistas para efetivamente proteger a democracia, falar para a “bolha” não é uma falha na missão de defender instituições plurais. O V-Dem precisa romper o cerco de seus interlocutores habituais.
Um convite à vigilância total
Fazemos este apelo não como adversário, mas como um aliado crítico que valoriza profundamente o trabalho do V-Dem.
Para manter sua relevância e não se tornar uma ferramenta de retórica para “democratas de fachada”, o V-Dem e o Professor Lindberg precisam:
Condenar inequivocamente todas as formas de autoritarismo, incluindo o teocrático (Irã) e o de esquerda radical, com a mesma veemência dedicada à extrema-direita.
Refinar a análise qualitativa sobre o Brasil e outros países, como África do Sul, ouvindo uma gama mais diversa de vozes locais que não estejam alinhadas a essas narrativas .
Evitar termos celebratórios (como “U-turn”) para situações onde a erosão democrática apenas mudou de tática, mas não cessou.
A democracia liberal é frágil e está passando por um dos seus maiores desafios.
Ela não pode se dar ao luxo de ter guardiões que escolhem quais ameaças merecem atenção.
Estamos à disposição para aprofundar este diálogo, na esperança de que o V-Dem continue sendo um farol de clareza, e não de confusão, nestes tempos turbulentos.






Parabéns pela
iniciativa e abordagem deste importante artigo!