Qual é o nosso problema?
O déficit de agentes democráticos
Quando falo de democracia parece que estou falando grego. As pessoas não entendem porque acham que essa não é uma questão. Para elas o assunto está resolvido: democracia é eleição e pronto. É troca de governo sem derramamento de sangue (de acordo com as leis). Discutir mais o quê?
Aliás, Clístenes, Efialtes, Péricles, Aspásia e Protágoras - os principais agentes da primeira democracia, que não era baseada em eleição - falavam grego de verdade. E também não foram assim tão bem-entendidos pelos que de fato entendiam o idioma. Embora a primeira democracia tenha durado quase 200 anos, os democratas sempre foram minoria em Atenas.
E, dois milênios depois, os democratas continuaram sendo minoria quando a democracia fez acenos de que ia renascer:
no parlamento inglês dos Bill of Rights do século 17,
na revolução americana do século 18,
na revolução francesa também do século 18 (onde parece que o único democrata identificável era um americano em missão diplomática: Thomas Jefferson).
Até que a democracia renasceu de fato com a primeira democracia liberal que surgiu na mundo, na Suíça do século 19 (em 1849). E depois, na condição de democracia liberal ou apenas eleitoral: na Austrália (em 1858), na França (em 1874), na Nova Zelândia (em 1887), na Dinamarca (em 1902), na Islândia (em 1904), na Noruega (em 1906), na Holanda, na Finlândia e na Argentina (em 1918), na Inglaterra e na Alemanha (em 1919), no Uruguai (em 1920), nos Estados Unidos e no Canadá (em 1921). Durante toda essa primeira onda de democratização, os democratas foram minoria.
Bem... depois vieram mais duas ondas de democratização: a segunda (1945-1961) e a terceira e última (1989-1999). E os democratas continuaram sendo minoria.
Mas como isso é possível? Como podem ter surgido todas essas democracias, estando sempre em minoria os agentes democráticos?
Pois é, eram minoria, mas em número suficiente para fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática (sim, os agentes democráticos são o fermento, não a massa). Eis que temos agora um problema (no Brasil e em outros países): não conseguimos alcançar esse número mínimo.
Como não há democracia sem democratas (como já dizia o velho Ralf Dahrendorf) esse é o principal problema que temos pela frente.
Quem acha que basta ter um bom candidato democrata que vai mudar tudo por um golpe de sorte eleitoral, não entendeu da missa a metade. Claro que ajuda ter bons candidatos democratas disputando eleições. Mas mesmo para que isso seja possível, em quantidade suficiente, temos que ter uma massa crítica de agentes democráticos na sociedade. Se não tivermos, como ocorre neste exato momento no Brasil, isso é um sinal de que não alcançamos essa massa crítica.
Então, para dar continuidade a esta conversa, o leitor pode tentar responder àquela célebre pergunta de Vladimir Ilyich Ulianov (que não gostava de democracia): o que fazer?



