Quanto menos indispensáveis formos, mais inteligentes podem ser as nossas redes
Netweaving, aprendizagem e a construção de mundos sociais mais capazes de mudar
No último sábado participei do SP2B, na OCA, no Ibirapuera, de um painel chamado Think Again! Seu Eu do Futuro Agradece. A provocação do painel era simples e, ao mesmo tempo, muito profunda: num mundo que muda tão rápido, como seguimos capazes de mudar com ele? Falamos de tecnologia, inteligência artificial, confiança, relações, revisão de certezas, diversidade cognitiva e aprendizagem. Em algum momento, fui provocado a explicar a ideia de netweaving. A conversa ressoou. Algumas pessoas me procuraram depois, outras escreveram, e o que me chamou atenção foi perceber que a identificação não vinha apenas do fato de existir uma palavra para algo que elas já faziam. O conceito ganhava força quando ficavam mais visíveis os efeitos dessa prática sobre o coletivo. Tecer redes não é simplesmente uma forma mais altruísta de se relacionar. Há ganhos concretos na maneira como informação circula, como relações se distribuem, como grupos aprendem e como novas possibilidades conseguem emergir.
Um primeiro jeito de ver o conceito é fazendo uma distinção muito simples entre networking e netweaving. No networking, a pergunta tende a partir de mim: quem eu deveria conhecer, quem pode me ajudar, quem pode abrir uma porta, quem pode me conectar a alguma coisa que me interessa. No netweaving, a pergunta se desloca: quem deveria conhecer quem? O foco deixa de estar na minha relação com cada pessoa e passa a estar nas relações que posso ajudar a criar entre outras pessoas. Essa mudança parece pequena, mas altera a arquitetura inteira da rede. Quando duas pessoas que dependiam de mim para se acessar passam a conversar diretamente, eu deixo de ocupar uma posição obrigatória entre elas. Um caminho novo surge. Minha centralidade diminui um pouco e a rede ganha autonomia.
1. Quando conectar pessoas significa distribuir a rede
O termo netweaving tem pelo menos dois desenvolvimentos que vale recuperar. Nos Estados Unidos, Bob Littell e Donna Fisher publicaram em 2001 Power Netweaving, propondo uma mudança em relação ao networking mais transacional. A ideia era construir relações a partir da criação de valor para os outros, aproximando pessoas que poderiam se beneficiar mutuamente, compartilhando recursos e ajudando antes de calcular algum retorno imediato. No Brasil, o conceito ganha outro desenvolvimento a partir do trabalho de Augusto de Franco e da Escola-de-Redes, conectado à investigação sobre redes humanas, topologias distribuídas, interação e à chamada nova ciência das redes. É esse desenvolvimento que acrescenta uma dimensão que me interessa especialmente: netweaving deixa de ser apenas uma maneira diferente de estabelecer relações e passa a ser também uma forma de interferir na própria configuração da rede.
Isso importa porque redes não são apenas conjuntos de pessoas. São pessoas e os padrões de interação que se estabelecem entre elas. Se conheço duas pessoas que não se conhecem e mantenho essas duas relações passando por mim, ocupo uma posição central naquela pequena estrutura. Sou uma ponte, mas também funciono como gatekeeper. Informações, oportunidades e acessos que poderiam circular diretamente continuam dependendo da minha mediação. Quando apresento essas pessoas e permito que a relação ganhe vida própria, algo aparentemente banal produz uma alteração estrutural: existe agora um caminho que não existia e esse caminho já não depende de mim. Um bom netweaver trabalha, nesse sentido, numa direção curiosa: parte do valor que produz está justamente em reduzir a necessidade da sua própria centralidade.
A distinção é importante porque centralização, descentralização e distribuição não descrevem apenas desenhos organizacionais diferentes. Elas condicionam aquilo que uma rede consegue fazer. Quanto mais fluxos precisam passar por poucos pontos, maior a dependência da capacidade desses pontos de perceber, interpretar, autorizar e responder. Quanto mais relações conseguem existir diretamente, maior o número de caminhos pelos quais informação, confiança, repertório e ação podem circular. Uma organização pode ter diminuído enormemente suas hierarquias formais e continuar funcionando por meio de poucos gatekeepers informais. Da mesma maneira, uma comunidade pode parecer extremamente conectada porque possui milhares de participantes e continuar organizada ao redor de meia dúzia de centralidades. O número de pessoas diz pouco sobre a distribuição da rede se não olharmos para quem consegue interagir com quem.
Há também um aspecto que às vezes desaparece quando apresentamos netweaving apenas como generosidade. O netweaver não necessariamente perde quando distribui suas relações. Na prática, frequentemente ocorre o contrário. Quando apresentamos duas pessoas e algo de valor acontece entre elas, recebemos agradecimento, aumentamos nosso capital social e construímos uma percepção sobre quem somos naquela rede. As pessoas passam a associar nossa credibilidade também à qualidade das pessoas que acessamos, às relações de confiança que conseguimos estabelecer e à nossa capacidade de produzir boas conexões. Existe, portanto, um ganho individual real. A diferença está em como esse ganho é produzido: em vez de aumentar meu capital social restringindo acesso e tornando-me indispensável, posso aumentá-lo distribuindo acesso e fazendo a rede funcionar melhor. O ganho pessoal e o ganho coletivo deixam de precisar ocupar lados opostos.
2. Redes que mudam conseguem continuar sendo
É aqui que netweaving começa a se encontrar com outra questão que atravessou o painel: aprendizagem. Tenho estudado há algum tempo a obra de Humberto Maturana e me interessa particularmente sua maneira de deslocar a aprendizagem de uma lógica de aquisição de informações para uma lógica de transformação na convivência. Aprender envolve uma mudança daquele que aprende em congruência com sua história de interações. Não recebemos simplesmente uma informação sobre o mundo e a armazenamos; somos continuamente alterados nas relações que estabelecemos com aquilo que nos cerca. Essa perspectiva produz uma tensão muito fértil entre conservação e transformação: todo sistema vivo precisa conservar algo para continuar existindo, mas precisa também conseguir se modificar para conservar sua congruência com um mundo que continua mudando.
O mesmo raciocínio ajuda a observar organizações e mundos sociais. Construímos formas de convivência, linguagens, identidades, procedimentos, critérios de decisão e relações que estabilizam um determinado modo de existir juntos. Essa estabilidade é necessária, mas carrega sempre o risco de transformar aquilo que conservamos naquilo que nos impede de mudar. Uma empresa pode continuar executando com enorme competência um modelo que pertence a um ambiente que já deixou de existir. Uma comunidade pode desenvolver tanta coerência interna que perde capacidade de perceber aquilo que acontece fora dela. Uma organização pode reunir pessoas extremamente inteligentes e, pela maneira como estão conectadas, produzir sempre as mesmas interpretações. A capacidade coletiva de aprender não depende apenas da inteligência disponível nos indivíduos; depende das relações pelas quais diferenças, perturbações e novos repertórios conseguem circular.
Netweaving ganha aqui uma consequência que considero muito mais interessante do que a simples ampliação de contatos. Ao reduzir gatekeepers e multiplicar caminhos, criamos mais pontos de contato entre diferenças e aumentamos as possibilidades de o sistema ser perturbado, interpretar essas perturbações e reorganizar suas respostas. Uma rede mais distribuída pode perceber o mundo por mais lugares. Pode experimentar respostas em diferentes pontos. Pode fazer circular aquilo que aprende sem depender de um único centro que primeiro compreenda, valide e autorize a mudança. Distribuição passa, então, a ter uma relação direta com adaptabilidade: ela aumenta a variedade de configurações disponíveis para que um coletivo consiga continuar mudando enquanto conserva aquilo que lhe permite continuar existindo.
Essa questão ganha outra escala com a inteligência artificial. Estamos entrando num período em que a velocidade de produção de conhecimento, de automação de tarefas e de transformação das formas de trabalho começa a tensionar não apenas nossos modelos de negócio, mas a velocidade com que construímos e reconstruímos identidade. Durante muito tempo conseguimos dizer “eu sou isso” apoiados em profissões, competências e posições que permaneciam relativamente estáveis durante décadas. Quando tecnologias passam a alterar em poucos anos aquilo que sabemos fazer, o valor de determinadas competências e até os limites entre atividades humanas e maquínicas, a pergunta sobre aprendizagem deixa de ser simplesmente “como adquirir uma nova habilidade?”. Passa a envolver algo mais difícil: quanto de nós conseguimos transformar sem perder a continuidade que nos permite continuar reconhecendo quem somos?
Isso vale para pessoas e vale para organizações. Diante de mudanças muito rápidas, a reação mais intuitiva pode ser aumentar a conservação: proteger identidades, reforçar certezas, centralizar decisões e tentar preservar aquilo que funcionou. Só que um ambiente acelerado exige justamente mais capacidade de interação com diferenças, mais abertura para sinais fracos e mais velocidade para permitir que novas configurações sejam experimentadas. Nesse contexto, redes distribuídas ganham uma importância que ultrapassa a eficiência dos fluxos. Elas se tornam uma infraestrutura possível para aprendizagem coletiva. Quanto mais a inteligência artificial aumenta nossa capacidade individual de acessar respostas, mais relevante se torna a arquitetura pela qual seres humanos conseguem formular novas perguntas, confrontar repertórios e modificar juntos os mundos sociais que habitam.
3. Tecer redes é criar ambientes onde futuros conseguem emergir
Essa relação entre distribuição e aprendizagem também ajuda a olhar para inovação por outro ângulo. O campo de startups já abandonou há muito tempo a ideia de que inovar significa seguir um processo perfeitamente linear: hipótese, experimentação, iteração, descoberta e convivência com incerteza fazem parte da prática cotidiana de quem tenta construir algo novo. Existe, porém, uma camada anterior ao próprio empreendimento que recebe menos atenção. Antes que uma startup teste uma hipótese, alguém precisa ter formulado aquela possibilidade. Pessoas, conhecimentos, recursos, tecnologias e problemas precisam ter se encontrado de alguma maneira. É aí que a arquitetura dos ecossistemas começa a importar.
Isso vale na escala de um país, de uma cidade, de um ecossistema empreendedor e também dentro de uma organização. Ambientes mais férteis para inovação são aqueles em que diferentes recursos conseguem se configurar e reconfigurar com baixo custo. Um pesquisador encontra um empreendedor. Uma empresa encontra uma tecnologia que estava sendo desenvolvida para outro uso. Um problema conhecido encontra um repertório vindo de outro campo. Capital encontra uma equipe. Uma pessoa que carrega determinada pergunta encontra alguém que possui uma peça da resposta. Quanto mais custoso é produzir essas aproximações, menor o espaço de possibilidades. Quanto mais caminhos existem para que esses pontos se conectem, mais configurações podem ser experimentadas antes mesmo de sabermos quais delas produzirão alguma coisa relevante.
É nesse sentido que netweaving pode ser compreendido também como uma prática de construção de ambientes para emergência. Cada nova relação reduz o custo de algumas configurações futuras. Cada gatekeeper que deixa de ser necessário abre um caminho adicional. Cada pessoa apresentada a outra aumenta o repertório potencial disponível para ambas e para as redes às quais elas estão conectadas. O efeito acumulado vai além da soma das apresentações: aumenta a quantidade de combinações que o ambiente consegue produzir. Inovação passa a ser vista também pela capacidade de um ecossistema de permitir que futuros sejam imaginados, testados e ganhem recursos antes que alguém consiga descrevê-los completamente.
É por isso que a reverberação daquela conversa no SP2B me pareceu tão interessante. Em um evento de negócios, tecnologia e transformação, muitas pessoas reconheceram imediatamente uma prática que já exerciam sem necessariamente enxergar seus efeitos mais amplos. Durante décadas, o mundo dos negócios nos ensinou a fazer networking. Construir uma boa rede significava conhecer as pessoas certas, ter acesso aos lugares certos e acumular relações que pudessem ser mobilizadas quando necessário. Essa lógica produziu enorme valor, mas carrega também uma tendência à restrição de fluxo: meu valor cresce porque tenho acesso a alguém que você não tem, porque consigo abrir uma porta que permanece fechada para outros, porque me torno o caminho necessário entre dois pontos.
Netweaving sugere uma lógica complementar. Em vez de acumular centralidade, distribuímos relações. Em vez de proteger caminhos, abrimos novos. E podemos fazer isso sem abrir mão do nosso próprio capital social; ao contrário, podemos construí-lo justamente pela capacidade de aumentar o capital social disponível ao redor. Algumas pessoas naturalmente exercem mais esse papel, enxergam conexões com facilidade e sentem prazer em articulá-las. Isso não transforma netweaving em uma identidade ou numa nova especialização que todos deveríamos assumir. Trata-se de uma prática que pode estar presente em diferentes intensidades na maneira como trabalhamos, lideramos, empreendemos e convivemos.
A importância de falar sobre isso naquele palco me parece estar justamente aí. O SP2B nasce como um espaço de negócios, mas escolheu criar também um palco chamado The Human Code, reconhecendo que os futuros que estamos construindo não serão definidos apenas pelas tecnologias disponíveis. Serão definidos pelos mundos sociais que conseguirmos construir com elas e ao redor delas. Se o horizonte que temos diante de nós exige mais adaptabilidade, mais aprendizagem coletiva e mais capacidade de produzir novas configurações diante do desconhecido, precisaremos olhar com muito mais atenção para a qualidade e para a topologia das nossas relações. Networking continuará tendo seu lugar. Mas um mundo em transformação acelerada parece exigir algo além de redes pessoais fortes: exige ambientes capazes de aprender.
Por isso acredito que vamos falar cada vez mais de netweaving. Não como substituto do networking, nem como um código moral para relações mais generosas, mas como uma prática consciente de construção de capital social para nós e para os ambientes dos quais participamos. Quanto mais conseguirmos conectar pessoas sem precisar permanecer entre elas, mais caminhos criamos para que informação, confiança, diferenças e recursos circulem. Mais possibilidades damos aos coletivos para se reorganizarem diante da mudança. Mais condições criamos para que coisas que ainda não existem encontrem os elementos necessários para começar a existir. Em um tempo no qual o futuro parece chegar cada vez mais rápido, tecer redes pode ser uma das formas mais humanas de ampliar nossa capacidade de construí-lo juntos.




