Mauai M. H. Toledo, Inteligência Democrática (08/11/2026)
Há uma expressão recorrente nos embates políticos: “Estamos do lado certo da história”.
Quem a pronuncia não está apenas defendendo uma posição. Está sugerindo que a própria história já decidiu quem tem razão.
Mas como alguém pode saber antecipadamente de que lado a história estará?
A questão não é a legitimidade de defender ideias, valores ou projetos políticos. É o momento em que uma interpretação do mundo passa a reivindicar autoridade sobre o futuro das outras pessoas.
Quando isso acontece, a política corre o risco de deixar de ser um espaço de participação para transformar-se na execução de um roteiro.
E quem acredita conhecer o final da história pode começar a tratar aqueles que discordam não como participantes legítimos, mas como obstáculos ao caminho considerado inevitável.
Quando uma interpretação se transforma em destino
Ao longo dos séculos, diferentes tradições filosóficas procuraram identificar uma ordem, uma direção ou uma finalidade para a existência humana.
Hegel desenvolveu uma interpretação filosófica da história vinculada à realização da liberdade. Marx investigou as transformações históricas a partir das condições materiais da existência, das relações de produção e dos conflitos sociais.
São perspectivas diferentes, que não podem ser reduzidas a uma única doutrina determinista.
O próprio Marx, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, reconhece que os seres humanos fazem sua história, embora não em circunstâncias escolhidas livremente.
Essa observação impede uma simplificação: não é necessário transformar o marxismo, ou qualquer outra tradição filosófica, num inimigo para investigar os riscos do determinismo histórico.
O problema surge quando uma teoria deixa de funcionar como instrumento de interpretação e passa a operar como verdade imune à investigação.
Uma explicação da realidade pode então adquirir características dogmáticas: oferece respostas definitivas, identifica os legítimos representantes da verdade e transforma a discordância em desvio.
Não é a convicção que produz necessariamente o autoritarismo. É a pretensão de utilizá-la para retirar dos outros o direito de participar da construção da vida coletiva.
O autoritarismo não precisa escolher um lado
Esquerda e direita possuem histórias, diferenças e conteúdos políticos que não devem ser apagados.
Entretanto, nenhuma dessas classificações oferece, por si só, garantia de compromisso democrático.
Projetos autoritários podem surgir em diferentes posições do espectro político. Suas justificativas variam: a realização de uma revolução, a restauração de uma ordem, a proteção da nação, a defesa de uma identidade ou a promessa de um futuro superior.
Esses projetos não são necessariamente equivalentes em seus objetivos, métodos ou consequências. Mas podem compartilhar uma pretensão: concentrar em determinadas pessoas ou organizações o direito de decidir o destino coletivo sem admitir contestação efetiva.
Convém distinguir autoritarismo de totalitarismo. O primeiro restringe a competição política, a participação e os limites ao poder. O segundo, na análise clássica de Hannah Arendt, envolve formas mais abrangentes de dominação, mobilização ideológica e destruição da pluralidade humana.
Nem toda prática autoritária configura totalitarismo. Tampouco toda crença numa direção histórica conduz necessariamente a um regime autoritário.
O ponto decisivo é outro: quando uma convicção política se converte em justificativa para suprimir a autonomia e a legitimidade dos demais.
Uma pessoa pode desejar profundamente transformar a sociedade, combater injustiças e defender projetos ambiciosos.
Nada disso é incompatível com a democracia.
A dificuldade aparece quando a convicção deixa de admitir que outras pessoas também são sujeitos políticos, capazes de interpretar a realidade, participar das decisões e modificar os caminhos propostos.
A pergunta democrática deixa de ser apenas “Qual sociedade queremos construir?” e passa a incluir outra:
Quem participa da construção dessa sociedade?
Hannah Arendt e a possibilidade de começar
Em A condição humana, Hannah Arendt relaciona a ação política à pluralidade: o fato de vivermos entre pessoas diferentes, que compartilham um mundo sem possuir perspectivas idênticas sobre ele.
Para Arendt, agir não significa simplesmente executar um plano.
A ação humana possui a capacidade de iniciar algo novo, cujas consequências não podem ser inteiramente determinadas por quem tomou a iniciativa.
Essa capacidade está associada ao conceito de natalidade.
Cada pessoa que chega ao mundo representa a possibilidade de um novo começo. E essa possibilidade se manifesta quando alguém age, fala e participa da vida coletiva.
A política, nessa perspectiva, não é apenas uma atividade destinada a administrar a sociedade segundo um modelo previamente definido.
É também o espaço no qual seres humanos aparecem uns diante dos outros, revelam perspectivas e iniciam acontecimentos que nenhum deles poderia produzir isoladamente.
Há uma consequência importante nessa compreensão.
Se a ação acontece entre pessoas diferentes, ninguém possui controle absoluto sobre seus resultados.
Isso não elimina a responsabilidade política, a necessidade de instituições ou a importância de compromissos coletivos.
Ao contrário, torna ainda mais importante construir condições para que as diferenças possam coexistir sem que uma delas precise eliminar as demais.
A democracia não depende da ausência de conflitos. Depende da possibilidade de enfrentá-los sem destruir a legitimidade política de quem discorda dentro das regras democráticas.
A comunicação não acontece depois da política
Costumamos pensar na comunicação como um instrumento utilizado para transmitir ideias, defender posições e convencer pessoas.
Mas essa compreensão é insuficiente.
A comunicação não ocorre apenas depois que os sujeitos políticos já estão constituídos e suas decisões foram tomadas.
Ela participa da própria formação das relações, das interpretações e das possibilidades de ação.
Humberto Maturana, em suas investigações sobre linguagem e convivência, ajuda a compreender esse fenômeno ao tratar a linguagem como um processo de coordenação de ações entre seres humanos.
Conversar, nessa perspectiva, não é simplesmente transportar informações de uma mente para outra.
É participar de um processo relacional no qual nossas ações, interpretações e possibilidades podem transformar-se reciprocamente.
As investigações de Francisco Varela sobre cognição e experiência também contribuem para questionar a imagem de um observador inteiramente separado do mundo que procura conhecer.
Essas perspectivas não constituem, por si mesmas, uma teoria política da democracia. Mas permitem formular uma pergunta importante:
O que acontece com a convivência quando entramos numa conversa acreditando que já sabemos exatamente como ela deve terminar?
Imagine uma reunião em que alguém apresenta uma proposta.
Antes mesmo de ouvir os participantes, essa pessoa já decidiu qual será a conclusão aceitável.
As perguntas são recebidas como resistências. As divergências são interpretadas como incompreensão. As contribuições inesperadas tornam-se obstáculos.
Formalmente, todos tiveram oportunidade de falar.
Mas houve participação?
Ou a conversa foi organizada apenas para legitimar uma decisão anterior?
O mesmo fenômeno pode aparecer numa organização, numa família, numa escola ou num movimento político.
Palavras são pronunciadas, argumentos apresentados, respostas produzidas.
Entretanto, a possibilidade de construir algo com o outro foi drasticamente reduzida.
A conversa deixa de ser um acontecimento aberto à participação e passa a funcionar como um procedimento de confirmação.
O acontecimento não obedece ao roteiro
Existe uma diferença entre preparar uma ação e pretender controlar tudo o que acontecerá a partir dela.
Um ator pode estudar profundamente sua personagem, investigar o texto, compreender as circunstâncias da cena e ensaiar inúmeras possibilidades.
Mas, quando entra em cena, encontra outros atores, outras presenças, outros ritmos e acontecimentos que não dependem exclusivamente dele.
A cena se realiza nessa relação.
Se estiver inteiramente comprometido com a reprodução mecânica de um resultado imaginado, poderá perder justamente aquilo que torna a experiência teatral viva: a capacidade de perceber e responder ao que acontece.
Essa analogia ajuda a compreender uma dimensão da comunicação política.
Podemos preparar argumentos sem preparar antecipadamente as respostas dos outros.
Podemos defender projetos sem exigir que todos compartilhem nossas interpretações.
Podemos organizar ações coletivas sem transformar a organização num mecanismo de submissão.
A preparação amplia nossas possibilidades de participação. Não nos concede o poder de determinar o acontecimento.
Há uma diferença entre conduzir uma ação e controlar pessoas.
Conduzir envolve intenção, responsabilidade, organização e capacidade de responder às circunstâncias.
Controlar pessoas, quando significa retirar delas a possibilidade de participar das decisões que afetam suas vidas, compromete a própria condição democrática.
A vida coletiva não é uma peça cujo final possa ser escrito por um único dramaturgo.
A democracia como construção permanente
Reconhecer que o futuro permanece aberto não significa afirmar que tudo é possível ou que todas as escolhas produzem consequências equivalentes.
Vivemos em condições históricas, materiais, culturais e institucionais que limitam e possibilitam nossas ações.
Há desigualdades reais de poder. Há direitos que precisam ser protegidos. Há formas de violência e dominação que não podem ser justificadas em nome da pluralidade.
A abertura ao acontecimento não deve ser confundida com relativismo moral ou ausência de compromisso.
A democracia necessita de princípios, instituições, garantias e limites ao exercício do poder.
Mas necessita também de algo que nenhuma arquitetura institucional consegue produzir sozinha: pessoas capazes de reconhecer que suas interpretações, por mais fundamentadas que sejam, não lhes concedem o direito de determinar unilateralmente a existência dos demais.
É nessa dimensão que a comunicação se torna uma questão democrática fundamental.
Não apenas porque precisamos falar livremente, mas porque precisamos preservar condições para que a fala do outro possa efetivamente participar da construção do mundo comum.
Escutar não significa concordar.
Discordar não significa eliminar.
Participar não significa abandonar convicções, mas aceitar que elas entram em relação com outras experiências, conhecimentos e perspectivas.
Uma democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que ninguém possa reivindicar para si, sem possibilidade de contestação, o direito exclusivo de decidir o destino coletivo.
Quem escreve o próximo acontecimento?
Talvez a expressão “estar do lado certo da história” revele uma tentação humana recorrente: encontrar segurança na ideia de que o futuro já confirmou nossas escolhas.
Essa segurança pode ser confortável. Reduz dúvidas, fortalece identidades e oferece a sensação de pertencer a uma causa inevitavelmente vitoriosa.
Mas também pode diminuir nossa disponibilidade para perceber aquilo que ainda não sabemos.
Quando acreditamos conhecer antecipadamente o final da história, podemos deixar de reconhecer as pessoas com quem a estamos construindo.
A democracia propõe uma tarefa mais exigente.
Não oferece a garantia de que nossas ideias prevalecerão. Oferece condições para que possamos defendê-las, questioná-las, modificá-las e submetê-las à convivência com outras pessoas.
O futuro não está vazio de condicionamentos, mas tampouco está inteiramente escrito.
Ele se desenvolve nas ações, nas relações, nos conflitos, nas decisões e nos acontecimentos que produzimos e encontramos.
Talvez, portanto, a pergunta democrática mais importante não seja quem está do lado certo da história.
Mas quem está disposto a participar de sua construção sem reivindicar o direito de escrevê-la sozinho.
Porque uma história que só admite um autor já começou a perder sua condição democrática.
Mauai — Mauro Henrique Araujo Toledo
Criador do Método 6 Personagens — Comunicação em Convivência.
Referências conceituais
ARENDT, Hannah. A condição humana.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.
MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento.
MATURANA, Humberto R. Emoções e linguagem na educação e na política.



