Racismo estrutural
Sob o pretexto do anti-colonialismo tolera fundamentalismos religiosos e autoritarismos políticos
Roberto Freire, Inteligência Democrática (30/01/2026)
Esta pequena e talvez afoita reflexão de um político surgiu a partir da leitura, na Revista Piauí, de um debate entre intelectuais sobre o chamado pensamento decolonial. A discussão, apresentada como chave interpretativa central do nosso tempo, provocou-me a visitar criticamente sua emergencia histórica, suas pretensões analíticas e suas consequências de ação politica, especialmente à luz das profundas transformações do mundo digital e figital. A crítica à noção de racismo estrutural insere-se, nesse sentido, como parte integrante de uma contestação mais ampla ao próprio paradigma decolonial.
No mundo digital e figital, marcado por inovação, redes globais e diferenciação histórica acelerada, o pensamento decolonial revela-se, para mim, como reacionário e regressivo.
Ao insistir em categorias coloniais e raciais como estruturas permanentes, congela o passado e perde capacidade de explicar um presente profundamente transformado, no qual sociedades antes colonizadas seguiram trajetórias diversas e, em muitos casos, superaram antigas metrópoles em campos econômicos, científicos e culturais.
Nesse quadro, a ideia de racismo estrutural aparece como extensão problemática dessa abordagem: sustento que tal estrutura só existiu de forma plena em regimes legalmente segregacionistas, como o apartheid, já fraturados e desmantelados por lutas políticas e institucionais. Fora desses contextos, desigualdades persistentes se explicam melhor por fatores como classe, educação, território e dinâmica econômica do que por estruturas raciais fixas.
Mais grave, porém, é que o pensamento decolonial não se limita a uma narrativa moral retrospectiva: ao relativizar valores universais, acaba por legitimar práticas e culturas atrasadas que afrontam conquistas civilizatórias fundamentais, como a dignidade humana, a igualdade entre homens e mulheres, os direitos individuais e a liberdade de consciência. Sob o pretexto do anti-colonialismo, tolera — e por vezes justifica — fundamentalismos religiosos e autoritarismos políticos, convertendo-se não em instrumento crítico de emancipação, mas em obstáculo ao respeito efetivo dos direitos humanos e da democracia como um valor universal.




Muito necessária essa crítica.