Realismo político e democracia
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (09/04/2026)
Na chamada ciência política a teoria do realismo político é bem disseminada. Autores como Maquiavel, Hobbes e, mais recentemente, Mearsheimer, entre outros, são lidos como textos técnicos importantes, muitas vezes usados como referência de autoridade na análise dos fatos.
Jornalistas e a classe política muitas vezes se servem desse cabedal de autoridade para justificar condutas tidas como necessárias dentro da lógica da sobrevivência embutida na teoria realista. Para Mearsheimer, por exemplo, a sobrevivência é o objetivo número um de qualquer país.
Nesse tipo de pensamento, a agressão da Rússia contra a Ucrânia se justificava porque a expansão da OTAN aos antigos países soviéticos representou uma ameaça clara à grande potência dominada por Putin. Putin, obviamente, não precisou esperar uma análise tão adequada aos seus intentos para agir. Antes de qualquer reflexão a respeito de qualquer teoria e antes mesmo de seu principal aliado na Ucrânia, Yanukovych, ser oficialmente deposto por motivo de fuga, já tinha infiltrado seu exército na região da Crimeia, em 2014.
A ameaça representada pela Ucrânia, na lógica do realismo político, foi não se submeter a um governo subordinado a Moscou. A revolta popular, mesmo que pacífica, não faz parte de uma variável válida da análise realista. O que se chama de povo é só um instrumento de manipulação das nações ocidentais.
Aqui cabe uma pergunta, o quanto a chamada esquerda no Brasil, a começar pelo seu maior líder, o presidente Lula, muitas vezes, se vale da análise realista. Para o atual governante e seus conselheiros diplomáticos, a soberania só interessa se um aliado estiver em perigo. Assim, Trump invadir a Venezuela e prender Maduro é uma agressão, a Ucrânia ser agredida pela Rússia é só mais um conflito que merece uma mediação, ‘uma conversa no boteco’.
Um país que se junta em um enorme movimento de rua para manifestar sua intenção de viver em um ambiente de liberdade e democracia, na abordagem realista, não pode fazer isso se for vizinho de uma ditadura poderosa. O pequeno deve sempre se sujeitar ao grande, independente desse dito grande ser uma nação imperialista.
Para Mearsheimer, a culpa da suposta autonomia desejada pelo povo ucraniano foi do ocidente que estimulou a criação de um modo de vida não compatível com um vizinho poderoso. Caberia ao povo, nessa lógica, simplesmente se submeter aos desígnios daquela nação que tem armas nucleares e enorme arsenal militar.
A questão da segurança que garante a sobrevivência do Estado submete qualquer outra variável que não esteja vinculada a ela. Instituições liberais, pluralismo e livre comércio são irrelevantes porque o que deve prevalecer é a força, a máxima segurança relativa.
O fato dessa teoria ser adotada por tiranos ou projetos de autocratas como Trump, que já afirmou em público que o que impede a paz na Ucrânia é Zelensky revela, ao meu ver, o risco que a ciência política corre ao adotar referenciais ditos científicos que na verdade escondem objetivos bastante sintonizados com autocracias pelo mundo. A democracia não pode prescindir da análise política, mas os democratas podem e devem denunciar o interesse embutido em muita análise que se mostra desinteressada por aí.



