Recrutadores de agruras
Antes da violência, os extremistas oferecem posição, função e prestígio. O Estado costuma perceber o jovem após a consolidação desse vínculo. Em 2024, a polícia austríaca prendeu uma adolescente suspeita de planejar um atentado com armas brancas em Graz. Inspirada pela ideologia jihadista, ela discutia o ataque com contatos radicalizados e pretendia atingir pessoas classificadas como “descrentes”. O relatório da Europol registra sua idade, sua intenção e suas conexões digitais: sua vida fora dessas conversas permanece desconhecida, assim como suas amizades, sua rotina e o instante exato em que matar desconhecidos passou a representar missão e reconhecimento.
Os relatórios de segurança identificam ameaças, mapeiam redes e impedem atentados. Os governos enxergam o estágio final com precisão, enquanto o percurso anterior recebe atenção menor. É nessa fase invisível que o recrutamento assume a aparência de conversa, humor, amizade ou acolhimento.
A Europol associa muitos desses percursos ao isolamento social. A radicalização envolve uma teia de humilhações, conflitos familiares e busca por vínculos. Os movimentos totalitários e extremistas são organizações de massa compostas por indivíduos isolados e atomizados. O terreno mais fértil para o terror é a solidão e o desenraizamento: a experiência desesperadora de permanecer apartado do mundo e de se sentir absolutamente supérfluo.
A ideologia extremista apresenta-se mais como um “resgate”. Ela define culpados, autoriza meios e oferece um projeto. O pertencimento abre a porta; a ideologia escolhe o alvo e transforma a agressão em dever. Uma vez imerso no grupo, o indivíduo é capturado por um cinturão de terror, que comprime homens isolados uns contra os outros em um mundo convertido em deserto. Grupos extremistas formam comunidades antes de cobrar lealdade violenta. Uma mensagem recebe resposta e uma indignação encontra acolhida. Uma pesquisa da RAND Corporation identificou os laços sociais (amizade e aceitação) como o principal fator de ingresso nesses grupos. Adesão ideológica e vínculo afetivo crescem juntos.
As redes de cooperação e reciprocidade podem ser direcionadas a propósitos malévolos e antissociais com a mesma força empregada na construção de sociedades saudáveis. As redes extremistas funcionam como uma forma de capital social sombrio, preenchendo o vazio com laços de lealdade justamente nos lugares onde as instituições construtivas desmoronaram e os jovens perderam oportunidades de conexão com a sociedade em geral.
Jihadistas e supremacistas operam hoje por meio da netwar, ou guerra em rede: um modo de conflito em que os protagonistas são pequenos grupos dispersos, capazes de se comunicar e se coordenar de maneira interligada, sem depender de uma liderança central rígida. O percurso começa com uma piada durante um encontro, migra para um canal cifrado e deságua em tarefas e provas de hostilidade. A organização reordena a moral do recém-chegado. Pessoas concretas tornam-se categorias inimigas, e a crueldade adquire aparência de disciplina.
Nesse estágio, o Estado surge com maior nitidez. A vigilância identifica as redes da netwar, e a polícia prende suspeitos. O erro fatal consiste em confundir a interrupção do estágio final com a compreensão integral do processo. O recrutador chega primeiro porque oferece respostas e vínculos. O Estado chega depois, lutando como uma hierarquia rígida contra uma rede ágil, armado apenas com protocolos, investigação e suspeita, além de operar por meio da abstração e da impessoalidade da lei.
O caso da adolescente austríaca permanece incompleto. Conhecem-se o plano e parte da rede digital. Permanece ignorado o instante exato em que aquelas mensagens se tornaram seu único lugar no universo.
O mundo requer a ação humanista de agentes democráticos empenhados em prevenir extremismos e de instituições que ofereçam reconhecimento legítimo, políticas juvenis que criem perspectivas e direitos civis que enfraqueçam a propaganda baseada na discriminação.
A democracia representa a própria ideia de vida comunitária e deve atuar como um modo de vida: em casa, na escola e na vizinhança, com todos os nossos possíveis laços.
Fontes
Brown, Ryan Andrew; Helmus, Todd C.; Ramchand, Rajeev; Palimaru, Alina I.; Weilant, Sarah; Rhoades, Ashley L.; Hiatt, Kyle. Violent Extremism in America: Interviews with Former Extremists and Their Families on Radicalization and Deradicalization. RAND Corporation, 2021.
EUROPOL. European Union Terrorism Situation and Trend Report 2025 (EU TE-SAT). Luxembourg: Publications Office of the European Union, 2025. DOI: 10.2813/5425593.
EUROPOL. Europol coordinates operation against terrorist content online targeting minors: Over 2 000 links were referred during the action day. The Hague: Europol, 3 June 2025.
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