Reprogramar valores
Sociedade, poder e democracia na era das redes
Nas últimas semanas comecei a percorrer uma jornada de aprendizagem sobre as chamadas novas ciências das redes. Esse percurso está sendo animado por Augusto de Franco e por outras pessoas que se propuseram a coordenar esse processo coletivo de estudo, que reúne autores de diferentes tradições — teoria das redes, sociologia, filosofia política e estudos organizacionais — para pensar a sociedade contemporânea sob a perspectiva das interações. Como parte dessa jornada existe uma ferramenta chamada REXOS, uma inteligência artificial alimentada com cerca de 187 obras que orbitam esse campo. A experiência de usar essa ferramenta é particularmente interessante porque permite fazer perguntas atravessando esses autores, explorando relações que normalmente aparecem separadas.
Comecei assim a exploração do REXOS por um interesse relativamente pragmático. Eu queria entender melhor como as teorias de redes poderiam iluminar algo que faz parte do meu cotidiano profissional: ecossistemas de inovação, startups, venture capital e a dinâmica de criação de novas organizações.
Mas rapidamente as perguntas começaram a se deslocar. Descrevo abaixo o percurso reflexivo resultante dessa interação.
Uma das ideias centrais que permeia esse campo de aprendizagem (nova ciência das redes) é relativamente simples, mas profundamente transformadora: fenômenos coletivos não podem ser explicados apenas pelas características individuais das partes que compõem um sistema, mas pelo padrão de interação entre elas. Marc Buchanan sintetiza essa intuição com uma imagem poderosa: diamantes não brilham por causa dos átomos que os compõem, mas pela forma como esses átomos estão organizados em um determinado padrão [1].
Algo semelhante ocorre nas sociedades humanas.
Quando observamos redes sociais (redes de pessoas e não mídias sociais), percebemos que certos fenômenos emergem da própria estrutura das interações: agrupamentos espontâneos, movimentos coletivos, padrões de imitação e ciclos de propagação de ideias. Esses fenômenos não dependem necessariamente de planejamento central ou de indivíduos extraordinários. Eles surgem da própria arquitetura relacional do sistema.
Essa perspectiva muda profundamente a forma como podemos olhar para organizações.
Se redes são o fluxo natural das interações humanas, então empresas, instituições e estruturas formais podem ser entendidas como momentos de estabilização desses fluxos. Organizações surgem quando interações sociais se consolidam, criam rotinas e passam a operar segundo estruturas relativamente duráveis. Elas não deixam de ser parte da rede, mas passam a funcionar como zonas de maior estabilidade dentro de fluxos sociais mais amplos.
Essa forma de olhar ajuda a explicar algo que observamos com frequência nos ambientes de inovação.
Ecossistemas de startups, por exemplo, não funcionam apenas como conjuntos de empresas independentes. Eles operam como redes densas de interação entre universidades, empreendedores, investidores, engenheiros e comunidades técnicas. Pessoas transitam entre projetos, ideias circulam rapidamente e novas combinações tornam-se possíveis.
Esse tipo de ambiente parece operar sob uma lógica de abundância de conexões.
Quanto maior a densidade dessas interações, maiores são as chances de recombinação criativa.
Mas a própria ciência das redes também nos lembra que sistemas complexos possuem certas tendências estruturais. Uma delas é a formação de agrupamentos ou clusters. Interações densas tendem a se concentrar em determinados pontos da rede, produzindo aglomerações de atividade econômica, tecnológica ou cultural.
Nos ecossistemas de inovação isso aparece de várias maneiras.
Empreendedores se concentram em determinados territórios ou comunidades. Empresas bem-sucedidas geram novas gerações de empreendedores. Processos de fusões e aquisições frequentemente reabsorvem startups dentro de estruturas maiores. E o próprio universo do venture capital também passa por dinâmicas de concentração (de poder e capital) ao longo do tempo.
Embora existam ciclos de renovação e movimentos de borda — novos fundos surgem, novos investidores aparecem — a própria lógica de funcionamento desse mercado tende a concentrar capital em um número relativamente pequeno de grandes gestores. Fundos bem-sucedidos captam novos recursos, atraem mais investidores institucionais e passam a operar com volumes cada vez maiores de capital.
Em outras palavras, o mesmo ecossistema que parece produzir descentralização e inovação também tende, ao longo do tempo, a gerar novas formas de concentração.
Esse movimento ambíguo talvez seja uma das características mais interessantes — e menos discutidas — dos ecossistemas de inovação contemporâneos.
A inovação emerge da rede.
Mas a acumulação de poder tende a se aglutinar.
Foi nesse ponto da reflexão da conversa com o REXOS que comecei a me perguntar até que ponto os ecossistemas de inovação realmente conseguem descentralizar o poder econômico ou político.
A resposta que chegamos não é simples.
Existe de fato um processo real de polinização de conhecimento, capital e experiência. Mas as próprias leis estruturais das redes sugerem que sistemas complexos raramente convergem espontaneamente para distribuições equilibradas. Eles tendem a produzir novos centros de gravidade.
Talvez o problema não esteja apenas na estrutura do sistema econômico.
Talvez esteja na forma como pensamos os sistemas que compõem a vida coletiva. E aqui temos o ponto de partida para esse artigo. Precisamos talvez dar um passo para trás, investigar os sistemas que compõem e operam nossa vida moderna para conseguir entender o que poderia ser feito para desconcentrar poder, ou seja, democratizar os diferentes espaços que atuamos. Se ecossistemas de inovação não são suficientes para isso na esfera do sistema de mercado, qual inspiração estes podem nos trazer para as esferas do Estado e da Sociedade?
I. Três sistemas que convivem na realidade
Grande parte do debate contemporâneo sobre política e economia opera dentro de um dualismo relativamente simples. Explicamos a sociedade a partir da tensão entre duas esferas: Mercado e Estado. Como se a única pergunta relevante fosse qual dessas duas estruturas deveria prevalecer ou qual delas deveria limitar a outra.
Mas a realidade é mais complexa.
Mercado, Estado e Sociedade são três sistemas que convivem simultaneamente na vida das pessoas. Cada um possui formas próprias de operação, lógicas distintas e modos diferentes de organizar comportamento coletivo.
O Mercado organiza trocas, incentivos e coordenação econômica.
O Estado organiza poder, autoridade e regulação institucional.
A Sociedade organiza relações, cultura, valores e significados compartilhados.
Esses três sistemas coexistem e se influenciam mutuamente.
Nenhum deles pode ser simplesmente eliminado.
O problema parece surgir quando passamos a operar nossas escolhas individuais e coletivas exclusivamente segundo a lógica de um desses sistemas — especialmente quando a lógica do Mercado ou do Estado passa a ser tratada como a única forma legítima de organizar decisões e valores.
Quando isso acontece, certas dimensões da vida coletiva começam a desaparecer do campo de visão.
A esfera da Sociedade — entendida como o espaço onde relações, valores, cultura e confiança são construídos — passa a ser tratada como algo secundário. Nas teorias políticas ela frequentemente aparece apenas como pano de fundo. Na política cotidiana sua influência parece menor que a força das instituições estatais ou das dinâmicas de mercado.
Mas essa percepção pode ser enganosa.
Manuel Castells observa que as transformações contemporâneas não podem ser compreendidas apenas a partir das instituições formais. A chamada sociedade em rede emerge precisamente da interação entre tecnologia, economia e cultura, e grande parte dessas dinâmicas ocorre fora das estruturas institucionais clássicas [2].
Robert Putnam, por sua vez, mostrou que sociedades com altos níveis de capital social — redes de confiança, reciprocidade e cooperação — apresentam instituições políticas e econômicas mais estáveis e eficazes [3].
Já Humberto Maturana sugere algo ainda mais radical: relações sociais genuínas surgem quando reconhecemos o outro como um legítimo outro na convivência, e é dessa base relacional que emergem instituições e formas de coordenação coletiva [4].
Esses autores apontam para algo que frequentemente passa despercebido.
Valores e percepções coletivas não nascem dentro do Mercado nem dentro do Estado.
Eles emergem na Sociedade.
É na Sociedade que se formam percepções sobre o que é legítimo ou ilegítimo, aceitável ou inaceitável, desejável ou condenável.
É ali que se constrói a cultura que sustenta ou limita o funcionamento das outras duas esferas.
II. Onde a descentralização realmente começa
Partindo dessa interpretação talvez seja necessário olhar para a descentralização sob uma perspectiva mais ampla.
Descentralizar poder econômico ou político é importante. É o campo que define as possibilidades de interações possíveis. Redes altamente centralizadas geram escassez de fluxo. Quanto mais a rede for distribuída, mais possibilidades teremos de novas configurações. Esse movimento de descentralização para redes mais distribuídas pode também ser chamado de processo de democratização.
No caso da esfera de Mercado, os ecossistemas de inovação carregam a possibilidade de destruição criativa e até de transferência de riqueza gerando um espaço vibrante de criação de novos projetos e tecnologias..
Mas isso não é suficiente.
Se os valores que orientam a sociedade não sustentarem esse processo de descentralização, o efeito automático dos sistemas tende a reconstituir concentrações de poder.
Esse foi o maior insight que surgiu na minha conversa com o REXOS!
No mercado, isso aparece como oligopólios ou concentração de capital.
No Estado, como centralização de autoridade.
Essa talvez seja uma das razões pelas quais processos de descentralização institucional frequentemente produzem resultados limitados. Reformas institucionais podem alterar regras formais, mas não necessariamente transformam os valores que orientam escolhas individuais e coletivas.
E sem esses valores, os sistemas tendem a retornar às suas trajetórias estruturais.
Transformações profundas raramente começam no centro dos sistemas. Elas começam nas bordas, em novas formas de interação, em redes sociais emergentes que produzem outros valores e outras formas de convivência.
Com o tempo, esses valores podem influenciar escolhas individuais, decisões políticas e comportamentos econômicos.
Além do ponto de partida estar em outro lugar. A sustentação dessa transformação se encontra fora dos sistemas de Mercado e do Estado. É preciso que, junto desses movimentos de borda, os próprios valores na esfera da Sociedade sejam polinizados e metabolizados. Caso contrário, o movimento de centralização tende a se impor de novo.
III. Quando as bordas reorganizam sistemas
Parte dessa reflexão surge a partir da ideia de que um ecossistema de inovação, enquanto movimento de borda, seria indutor de transformação do campo, posicionando posições e até sendo um potencial ator de descentralização.
O interessante é perceber que esse tipo de dinâmica não é necessariamente exclusivo da esfera Mercado.
Se observarmos atentamente o funcionamento das instituições políticas contemporâneas, veremos que algo semelhante começa a ocorrer também no interior do Estado.
Nas últimas duas décadas surgiram diversos experimentos institucionais que funcionam como movimentos de borda dentro do sistema político.
Um exemplo interessante são os chamados sandboxes regulatórios. Nesse modelo, governos criam ambientes institucionais controlados onde novas tecnologias — como fintechs, inteligência artificial ou blockchain — podem ser testadas sem que precisem obedecer imediatamente a todo o arcabouço regulatório existente. Esses espaços funcionam como verdadeiros laboratórios institucionais, permitindo que regras sejam experimentadas antes de serem incorporadas ao sistema formal.
Outro fenômeno relevante é a emergência de novas formas de organização política que operam parcialmente fora das estruturas partidárias tradicionais.
Em vários países surgiram experiências que tentam renovar a política a partir de plataformas digitais, movimentos cívicos ou formas híbridas de organização partidária. Alguns exemplos incluem iniciativas de democracia deliberativa, plataformas digitais de participação cidadã e movimentos que tentam formar novas lideranças políticas fora das máquinas partidárias tradicionais.
Mesmo no Brasil, depois de 2013, começaram a surgir experiências interessantes: escolas de formação de lideranças públicas, organizações que funcionam quase como aceleradoras de políticos, iniciativas que conectam tecnologia, dados e participação cidadã.
Essas experiências ainda são incipientes. Mas elas sugerem algo importante: assim como startups podem surgir nas bordas do mercado, novas formas de organização política podem emergir nas bordas do Estado.
A questão é que, da mesma forma que o campo da esfera de Mercado tende a centralizar poder, a esfera do Estado fez com que diversas dessas iniciativas fossem incorporadas, ou reformadas para operar dentro dos sistemas de poder já existentes. O que nos leva a pensar em como operar uma metabolização de valores na terceira esfera. Aparentemente sem isso, os movimentos de borda das outras esferas sempre serão efêmeros e cíclicos.
É na esfera da Sociedade que se formam valores culturais, padrões de cooperação e percepções sobre o que é legítimo ou ilegítimo. E é também nela que surgem experiências sociais que frequentemente passam despercebidas pelo debate político ou econômico.
Movimentos comunitários, coletivos culturais, iniciativas urbanas, associações de bairro, redes de aprendizagem informal e projetos de arte colaborativa são exemplos de organizações que operam nesse espaço.
Essas iniciativas muitas vezes começam pequenas, quase invisíveis. Mas elas criam algo fundamental: novos padrões de convivência e novos repertórios culturais.
Robert Putnam mostrou que redes associativas e comunitárias geram capital social — confiança, reciprocidade e cooperação — que posteriormente influencia o funcionamento das instituições políticas e econômicas [3].
Já Humberto Maturana argumenta que relações sociais genuínas surgem quando reconhecemos o outro como um legítimo outro na convivência [4]. Isso significa que valores democráticos não nascem simplesmente de constituições ou de sistemas eleitorais. Eles emergem de práticas cotidianas de convivência.
Talvez seja justamente nesse ponto que se encontra a dimensão mais profunda da transformação social.
Se ecossistemas de inovação conseguem produzir inovação econômica, e se experimentos institucionais podem produzir inovação política, a sociedade pode produzir inovação cultural e relacional.
E é dessa camada cultural que emergem os valores capazes de sustentar processos duradouros de descentralização.
IV. Conclusão: Reprogramar valores
Voltando à pergunta inicial que motivou minha conversa com o REXOS: ecossistemas de inovação conseguem realmente descentralizar poder?
Eles conseguem gerar movimentos temporários de descentralização. Conseguem criar mobilidade social. Conseguem produzir novas tecnologias e novos setores econômicos.
Mas, isoladamente, eles raramente conseguem alterar trajetórias estruturais de concentração.
Sistemas complexos possuem uma tendência natural a reorganizar centros de gravidade.
Por isso talvez seja necessário olhar para a descentralização de forma mais ampla.
Descentralizar poder econômico é importante.
Descentralizar poder político também é importante.
Mas esses movimentos dificilmente se sustentam se não forem acompanhados por uma transformação mais profunda — uma reprogramação de valores na esfera da sociedade.
Valores não são decretados por governos nem produzidos por mercados.
Eles emergem nas relações sociais.
Emergem nas redes de convivência.
Emergem nas práticas culturais.
Emergem nas formas como aprendemos a cooperar.
Se quisermos pensar em processos duradouros de democratização — entendida aqui não apenas como regime político, mas como modo de organização das redes sociais — talvez seja necessário prestar mais atenção justamente nesse espaço que muitas vezes parece invisível.
A esfera da sociedade.
É nela que novos valores podem ser experimentados, metabolizados e difundidos.
E talvez seja ali, nas bordas das redes sociais (redes de pessoas), que começam os processos mais silenciosos — e mais profundos — de transformação democrática.
Notas
Marc Buchanan — The Social Atom (2007).
Manuel Castells — The Rise of the Network Society (1996).
Robert Putnam — Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community (2000).
Humberto Maturana — The Biology of Cognition (1970) e trabalhos posteriores sobre sistemas sociais.




