Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (05/11/2026)
A importância da oposição numa democracia ficou clara nas eleições de midterms nos Estados Unidos. Com todo o poder arrebanhado por Trump, inclusive para alterar distritos que favorecessem o Partido Republicano, ainda assim a população encontrou meios de expressar seu descontentamento e deu a vitória ao partido oponente do presidente, tanto na Câmara quanto no Senado.
Eu tenho na memória a época da ditadura militar, quando o MDB começou a angariar apoio popular mesmo sendo uma força política não totalmente reconhecida pelo regime. A eleição de lideranças que peitavam o poder ilimitado da ARENA foi paulatinamente minando o sistema e permitiu a transição para uma Nova República.
A graça de uma eleição para o Legislativo no meio do mandato, para nós, brasileiros, é que daria protagonismo a um Poder que é normalmente desprezado. Aqui, o parlamentar é visto quase como um despachante para acessar recursos, e pouco ou nada diz ao eleitor sobre sua posição em relação ao Executivo — a não ser se está ou não conseguindo o dinheiro necessário para sua base.
Num exercício de vislumbrar uma possível inovação no sistema brasileiro, realizar eleições no meio do mandato aqui também talvez tivesse esse condão de colocar em pauta o controle do Poder Executivo. Agora, resta-nos entender o papel que a oposição pode e deve exercer entre nós.
No seu artigo de ontem, o Augusto já alertou sobre o risco de não termos oposição. O presidente Lula foi eleito com enorme rejeição. Ganhou por conseguir aumentar a rejeição de seu adversário. Mas, mesmo que fosse o rei da popularidade, as oposições seriam imprescindíveis.
O fato de boa parte da oposição real, no Parlamento, ser composta por membros não comprometidos com a democracia não pode obscurecer a necessidade da existência dela; afinal, não há quem tenha o poder de chancelar alguém como democrático ou não pelo simples fato de estar em posição de poder. Seria o mesmo que, na ditadura militar, dizer que o MDB não poderia ser oposição simplesmente por não ter o aval do regime.
Ao contrário do que propagam os militantes e intelectuais que defendem a eleição de Lula como marco da democracia aqui e no mundo, é a existência da oposição uma das variáveis fundamentais para definir se um regime ainda é democrático ou não. A realização de eleições por si só não garante isso — muito menos sob a justificativa de que se derrotou o demônio.



