Trump pulando fora do barco
O regime teocrático continua de pé
O problema da atual guerra com o Irã é que o Irã já estava em guerra há quase 50 anos. Guerra contra a “entidade sionista” (que é como chama Israel) para varrê-la da face da Terra. Guerra contra o “grande satã” (que é como chama os Estados Unidos, muito antes de Trump 2 - ainda sob os governos Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama, Trump 1 e Biden). Guerra contra os heréticos sunitas. Guerra contra as democracias liberais. Guerra contra os infiéis do mundo inteiro.
Mesmo assim, a teocracia iraniana foi aceita no BRICS, integra o chamado Sul Global e pertence ao eixo autocrático (juntamente com Rússia e Bielorrússia, China, Coreia do Norte, Vietnã, Laos, satélites russos centro-asiáticos, Angola e outras ditaduras africanas, Cuba, Nicarágua e Venezuela). Mesmo assim, países como o Brasil e outros regimes eleitorais parasitados por governos populistas, continuam apoiando o Irã (ou, pelo menos, lhe sendo simpáticos).
A guerra do Irã era para que acontecesse mais ou menos o que está acontecendo agora. Está incendiando (inclusive literalmente) o mundo (a começar pelo Oriente Médio, mas pode escalar com ações terroristas em todo lugar).
E o chamado “eixo da resistência” - composto por braços terroristas da teocracia iraniana - não foi eliminado: Hezbollah, Jihad Islâmica, Hamas, milícias xiitas no Iraque, na Síria e em vários países do Oriente Médio, continuam organizados e atuando.
O Hezbollah, como estamos vendo, tinha mais recursos do que Israel previa (não estava liquidado, como apressadamente se anunciava). O próprio Irã tinha mais recursos do que Israel e os EUA avaliaram. Recursos que podem ser usados independentemente das baixas, destruições de armas, equipamentos, prédios, devastação de cidades inteiras ou mortes de civis. Se o caminho da teocracia iraniana é o do martírio dos jihadistas - e de culto à morte, sobretudo da população civil inocente sacrificada no altar da Jihad -, então, de certa forma, quanto mais destruição houver, melhor - desde que restem recursos estratégicos (como parece que estão restando) para a grande vingança xiita prosseguir.
O problema é que, uma vez iniciado esse contra-ataque tradicional dos EUA e de Israel a uma guerra não-convencional do Irã, não há saída fácil. Se Israel fracassar quem vai cair não é somente o governo autoritário (e que abriga supremacistas judaicos) de Bibi. Se Bibi recuar agora, ele cai (a maioria da sociedade israelense está apoiando a ofensiva contra o Irã). Se Bibi avançar e não eliminar a ameaça iraniana, o próprio Estado de Israel ficará vulnerável a um ponto insuportável (coisa que o povo de Israel também não tolerará facilmente).
Trump entrou nesse conflito sem ter uma estratégia clara, como aquele valentão (bully) que intimida os colegas. Não deu certo. Já viu que não haverá negociação sob intimidação militar, como aconteceu na Venezuela. Não pode jogar bombas atômicas, não pode enviar tropas para o terreno (talvez só para a ilha de Kharg) e também não pode destruir o que restou (na superfície do país): as 500 usinas de energia, os 4 mil poços de petróleo e as 10 refinarias iranianas, por medo de uma crise humanitária de grandes proporções, famine num país de quase 100 milhões de habitantes, caos e desestabilização global.
Então Trump está tentando arrumar um jeito de pular fora do barco. Se ele não tinha estratégia para entrar, vai ter que arrumar uma para sair, nem que seja para bater em retirada sem fazer um papelão que o vulnerabilizará eleitoralmente. E ele já está cavando uma desculpa. Inicialmente o objetivo declarado dos EUA era terminar de destruir o programa nuclear iraniano. Em seguida passou a ser derrubar o regime. Agora é destruir os estoques de mísseis. Amanhã dirá que seus objetivos (não importa quais) foram alcançados e os Estados Unidos já podem se retirar.
Não adianta dizer que venceu porque matou o aitolá e provocou enorme destruição de mísseis, drones, aviões, navios e sistemas de defesa do inimigo, se o regime iraniano continua de pé atacando todos os países do Oriente Médio e, em breve, possivelmente, do mundo. E o regime iraniano continuará de pé enquanto não for dissolvido o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica.



