Um candidato para uma reforma essencial, por favor
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (28/05/2026)
Os gregos antigos desconfiavam do uso do sorteio para escolha de funções vitais como a de comandar guerras ou para construção da cidade. O sorteio era usado apenas para funções administrativas.
Há outro dado importante da democracia grega, os membros sorteados para funções de governança eram indicados dentro dos distritos também conhecidos como demos. Esses distritos foram redistribuídos na reforma de Clístenes para reduzir o poder das oligarquias. O sorteio acompanhou essa lógica.
Podemos transportar a lógica para os tempos atuais e pensar o quanto uma redistribuição de distritos teria impacto na conformação da representação política. Vamos esquecer por enquanto o sorteio porque a discussão a respeito envolve muito mal entendido. É conversa que não acaba.
Há um tempo atrás rolou discussão dentro do Congresso Nacional a respeito de uma reforma distrital denominada Distritão. Era uma tática dos grupos oligárquicos, comandados por Artur Lira, então presidente da Câmara, para eliminar o risco de uma reforma que diminuísse a chance dos clãs familiares, inclusive o de Lira, de se perpetuar no poder. No final a proposta foi rejeitada, mas nada de consistente foi alterado no nosso sistema eleitoral, que continua ruim e onde os oligarcas continuam dominando.
Uma proposta de reforma do voto a partir de distritos menores onde o eleitor tenha mais proximidade com seu representante é bastante compreensível. Não justifica imaginarmos que isso seja complicado, e que o eleitor supostamente não vai entender. O sentido da democracia é que as decisões façam sentido para quem é o destinatário final e que deve controlar a qualidade dessa decisão.
A eleição para presidente da república é um evento privilegiado para tratarmos de reformas substanciais. Essas não virão dentro da lógica da polarização que ao fim e ao cabo elimina o outro da interlocução.
Os candidatos não polarizados têm a chance de tratar desse tema mesmo que a responsabilidade final por decidir uma mudança legislativa seja de deputados e senadores. É um assunto que diz respeito à eficiência das políticas públicas.
Pode não servir para ajudar a eleger. Bem entendido que não sou marqueteiro para dizer o que é fundamental para a eleição de alguém. Só sei que vai trazer a público um tema essencial.
Repito, esse assunto não virá dentro da dinâmica dos candidatos da polarização, que se consideram insubstituíveis. Um candidato não polarizado, ao contrário, pode deixar claro esse elemento de dispensabilidade, de colocar o tema acima da sua própria capacidade.
Pode ser contra-intuitivo para o profissional de marketing que quer vender o candidato como alguém que seja único. Em vez disso, substituir a capacidade individual pelo tema fundamental. O surpreendente aí pode ser a coragem de colocar a reforma necessária acima de sua qualidade distintiva. Além do mais, a possibilidade de ficar em evidência mesmo se não for vitorioso, com chance de ser recompensado no futuro.



