Um dia triste
Para que o 30 de março de 2026 não se repita em 2030
Ontem, 30 de março de 2026, foi um dia triste para a democracia no Brasil. Mas 30 de março de 2030 também será um dia triste para a democracia no Brasil se, até lá - e a partir de agora - não construirmos um movimento capaz de sustentar uma alternativa democrático-liberal.
A mudança não cai do céu. A mudança não é um golpe de sorte na loteria do calculismo eleitoreiro. Eleições são importantes e os democratas participamos delas. Mas há construções necessárias fora do período eleitoral.
Nós, os democratas, queremos romper a polarização entre os populismos porque ela enfreia o processo de democratização. A democracia é o referencial. Rejeitamos os populismos, sejam ditos de esquerda ou de direita, porque os populismos, como antipluralismos, são iliberais.
Nesse sentido a polarização não se extingue se não surgir um centro de gravidade democrático em torno do qual a política possa orbitar. É o que acontece em todas as poucas dezenas de democracias liberais e plenas que restaram no mundo atual (que somadas, juntando-se as classificações do V-Dem e da The Economist Intelligence Unit, não chegam a quarenta regimes). Se nosso referencial é a democracia então temos que construir as condições para que isso aconteça no Brasil. E isso não se faz da noite para o dia. Requer um nome, mas um nome não basta. Requer um programa, mas um programa não basta. É preciso um movimento político nessa direção.
Cada qual deve votar como achar melhor. É assim que funciona nas democracias, inclusive nas não-liberais ou defeituosas, como a nossa. Mas os democratas liberais não têm alternativa boa na configuração atual de candidaturas. Quem quiser que faça campanha por esse ou aquele candidato que restou fora do eixo Lula-Bolsonaro (seja Caiado, Zema, Renan, Aldo ou outro qualquer que aparecer). Os democratas, entretanto, devem se engajar para valer num movimento de construção de uma alternativa de centro democrático.
Quem rompe a polarização não é simplesmente um nome (ou sobrenome) diferente de Lula e Bolsonaro. Se fosse assim poderíamos estimular a candidatura de um Pablo Marçal, por que não? Repetindo. A polarização entre populismos não se extingue se não surgir um centro de gravidade democrático em torno do qual a política possa orbitar. Eduardo Leite tinha um perfil de centro democrático liberal que ajudaria a consolidar um movimento pela construção dessa alternativa. Foi bypassado na fila original do PSD - que era 1) Tarcísio, 2) Ratinho e 3) Leite - pela entrada na última hora de Caiado (não como terceira via e sim como segunda via da chamada “direita”) para ser o candidato. Por isso ontem (30 de março de 2026) foi um dia triste.
Mas vem mais tempestade por aí.
Sabendo que o segundo será todos contra Lula, haverá um movimento para a eleição de Lula no primeiro turno: para afastar o perigo da chamada “extrema-direita” golpista. Vai ser tipo assim: ou elegemos Lula no primeiro turno ou seremos esmagados pelo fascismo. Ou tipo assim: ou elegemos Lula no primeiro turno ou ficaremos subordinados ao trumpismo. Como já propagam os velhos dirigentes ideológicos do PT, se não reelegermos Lula, Trump vai mandar no Brasil. A candidatura de Eduardo Leite desarmaria esse movimento. A de Caiado reforçará.
Isso não quer dizer que Lula terá muitas chances reais de vencer a eleição no primeiro turno. Mas fará parte da campanha eleitoral sórdida que assistiremos. Se um movimento desse tipo crescer, Lula poderá, sim, vencer a eleição no segundo turno com base no medo da coligação dos demônios que se formará (e todos os que não são Lula serão a extrema-direita, os golpistas, os fascistas, os trumpistas).
Mas o pior nem é isso.
O pior é que 30 de março de 2030 poderá ser um dia tão triste como foi ontem. Se os democratas não entenderem que não há democracia sem democratas, que o número de agentes e de comunidades políticas democráticas que temos hoje no Brasil é insuficiente para alcançar o nível crítico a partir do qual torna-se possível fermentar a formação de uma opinião pública democrática. E que nada disso acontecerá se não iniciarmos agora um movimento para a construção de um centro de gravidade democrático-liberal em torno do qual a política possa orbitar.



