Uma conversa sobre Inteligência Artificial
Comparada à Inteligência Tipicamente Humana
Transcrição de uma conversa de duas horas no WhatsApp sobre IA
Ou melhor, sobre IH (Inteligência Tipicamente Humana)
A conversa aconteceu no dia 19/06/2026, aproximadamente entre 13h00 e 15h00 no grupo do WhatsApp Casas da Democracia. Sem revisão dos interagentes.
Augusto de Franco
Estou elencando algumas observações ou considerações para encontrar respostas para a seguinte questão:
O que a IA (Inteligência Artificial) não consegue fazer, mas a IH (Inteligência Tipicamente Humana) emergente da interação dos humanos em redes mais distribuídas do que centralizadas consegue?
A IA não consegue cocriar ideias a partir da conversação, ou seja, não consegue estabelecer acoplamentos estruturais entre sujeitos interagentes.
A IA não consegue construir a confiança da qual depende a cooperação, porque a confiança não é uma conclusão alcançada pelo processamento de informações sobre outro agente, mas sim uma relação que se constitui ao longo do tempo entre pessoas que depositaram algo umas nas outras e que podem ser traídas.
A IA não consegue dar bom gosto ou estilo a um sujeito, porque gosto e estilo dizem respeito à distinção pessoal dentro de uma comunidade que compartilha uma estética.
A IA não consegue definir objetivos, porque esse ato requer um sujeito que valorize.
A IA não é uma inteligência empática que, no simples ato de se manifestar ou se exercer, já se acopla estruturalmente à inteligência de outros sujeitos, incorporando, no próprio processo de sua gênese, a interação sinérgica, simpática e simbiótica com esses sujeitos.
O que mais podemos acrescentar?
Fernando Ferrari
A IA não tem emoções que podem interferir no modo como uma mensagem é entendida. No sentido de que uma mesma mensagem pode modificar o sujeito diferentemente em estados emocionais diferentes?
Mauai Mauro Henrique Toledo
Boa. As emoções acompanham a interpretação e também configuram o espaço de interpretações possíveis.
Augusto (perguntando ao Fernando Ferrari)
A emoção é uma disposição para a ação antes da interação?
Mauai
Creio que sim. Uma emoção como a raiva já é uma defesa ativada, ou para uma agressão.
Leonardo Valverde
Mas para toda ação? Ou… todo tipo de ação? Porque robôs agem também. A ideia mesmo de criar robôs é para agirem.
Mauai
Pensei no ser humano. O robô nao se emociona. Simula. Pode ser programado para agir. A IA nao consegue cocriar ideias a partir da conversação.
Leonardo
Então, nem toda ação é gerada por emoção… nem toda ação é interação…
Mauai
Nem toda ação é gerada por emoção. Nem toda ação é interação. Mas toda ação humana acontece dentro de um campo relacional que influencia emoções, percepções e possibilidades de ação.
Mario Salimon
Esse tema é fascinante. Tenho pensado muito sobre a ideia de emoção e vejo que um fator importante é o fato de ela ser um um processo fortemente marcado pela ideia de estimulação. Uma démarche. Para isso, é preciso haver uma latência no sistema e todo um “cabeamento” físico, com seus terminais já postos. Acho que ainda não admitimos que as IAs tenham emoções porque elas não estão suficientemente incorporadas. Quando me dizem que elas apenas imitam e simulam, lembro-me que somos assim também. E mesmo nossa inteligência é bastante artificial, porque apesar de a linguagem nos ser dada por natureza, a língua e o letramento são artifícios. Essa parte da interação é mesmo a que segura a diferenciação. Mas penso que intersubjetividade já existe pesadamente nas interações humano-maquinais. Nem sei se existe essa palavra, enfim. Ao longo dos últimos três anos, o ChatGPT deixou de fazer análises somente de conteúdo para perceber sentido a partir do não dito. Isso é muito significativo.
Mauai
Sobre o que escreveu Mario, eu mesmo estou vivendo o que arrisco chamar de relação assimétrica de acoplamento. A IA que uso não muda mas eu percebo em mim emoções como gratidão, alegria, conforto, entusiasmo etc. A interação com a IA produz efeitos reais em mim.
Leonardo (respondendo ao Mario)
Pois é, a minha pergunta foi no sentido de: que tipo de ação não pode ser imitada? Como deve ser a ação para ainda ser considerada humana? Que tipo de interação é importante? Porque como você disse, até interação entre máquinas e humanos (e vice-versa) já acontece, e assim como a IA tem mudado o humano, o humano tem também mudado a IA (antes não lidavam com sentido/semântica, agora já lidam, etc.)
Mauai
Aí pergunto: o que acontece com o observador humano quando uma parte crescente de suas conversações passa a ocorrer com inteligências não humanas? Outra coisa é que o Mario na sua reflexão usa a expressão incorporar, as emoções humanas acontecem corporalmente. A IA ainda não “encorpora”, rs. E sobre simulação, a palavra quando usada para humanos, simular emoções é diferente da aplicação de simular para um robô, penso eu.
Ferrari (respondendo ao Augusto)
Essa [emoção] do Maturana sim para uma comunidade, um emocionar, mas também qualquer outra emoção num interlocuteur individual.
Diogo Dutra (respondendo ao Mauai)
Acho que a questão central em Maturana é de que o fluir de “coordenações de coordenações de condutas consensuais” que faz com que os humanos construam a realidade. Nos comunicamos através da ação, não apenas com palavras abstratas. Essa seria a base social da linguagem. As máquinas não tem essa base social. Ou seja, o conversar com a IA é quase como um conversar mais sofisticado com você mesmo, ou com algo que você acessa, aprofunda e te ajuda a organizar melhor suas próprias ideias. Mesmo que seja trazida ideias novas. A IA com você te tornam uma versão expandida de você mesmo. Na linha da simbiose.
Diogo Dutra (respondendo ao Leonardo)
A questão não está na ação em si, mas na possibilidade de criar e sustentar mundos sociais. Uma ação simulada de máquina dificilmente cria mundo social, cria compromisso, divida, sensação de que precisa ajudar ou que deve uma ajuda, que é responsável pelo bem-estar e etc. tudo isso são relações em mundos sociais que são criadas por ações e conversas entre pessoas.
Mauai
Sim. A IA não é uma inteligência empática que se acopla estruturalmente a outros, outras.
Diogo (respondendo ao Mario)
Eu acho que a questão emoção humana está associada as ideias de mundo sociais. Existe o aparato básico das emoções básicas, mas as emoções mais complexas estão entrelaçadas com as nossas percepções e vivências nos mundos sociais. Talvez a sofisticação da emoção, dentro de um universo social, a máquina só consiga emular. E nesse sentido ela será parte, mas não acho que consiga de maneira intencional criar convivência para criar e sustentar um mundo social com outros humanos, sozinho digo.
Mauai (respondendo ao Diogo)
Este aparato das emoções básicas, tipo as 6 como alegria, medo, aversão, raiva, tristeza e surpresa, ja foram abolidas como tese no trabalho da Lisa Feldmann Barret que diz que as emoções são criadas. O livro dela, Como as emoções são criadas, corrobora essa cocriação e acoplamento.
Diogo
Mais forte ainda. Eu ainda estava preso a ideia de que no sistema do mamífero básico tivesse reações químicas e hormonais que são menos relacionadas a acoplamento estruturais com outros seres humanos. Até onde meus conhecimentos de biologia vão eu sei que temos sistemas no homo sapiens que seriam meio que “de fábrica”. Talvez mais do que chamar de emoções básicas poderíamos chamar de primitivas? Me parece plausível termos alguma coisa que vem junto com o hardware do nosso sistema sapiens. Mas para ser humano, no humanizar maturanistico as emoções ganham camadas, complexificacões, conceitos e ontologia própria. Medo de não ser aceito num grupo. Nojo de comer com as mãos e etc.
Luiz de Campos Jr.
Creio que “emular” é conceito chave para pensar IA, ela não simula simplesmente, é além... ela tenta recriar o sistema original (nós) e não simplesmente imita nosso comportamento e reações... ainda não chegou lá, mas vemos cada vez mais perto disso.
Leonardo (respondendo ao Mauai)
Exato. Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares no momento! Porque já existe uma geração que está interagindo mais com a máquina do que com outros humanos.
Leonardo (respondendo ao Diogo)
Mas a partir do momento que temos uma geração se socializando mais com máquinas do que com humanos, não estariam essas máquinas cocriando relações sociais? Quando uma máquina interfere numa criação de relações sociais não estaria ela participando do processo de socialização?
Diogo
A criação de uma realidade social envolve custo de pertencer, vergonha, criação de vínculo, de expectativas compartilhadas… Acho difícil chamarmos interação com AI de socialização.
Leonardo
Hoje tenho dúvidas disso! Talvez seja isso mesmo que está mudando…
Diogo
Não consigo imaginar alguém tendo vergonha de uma IA.
Leonardo
O social per si não existe, é fruto da interação. Agora essa interação está sendo feita com máquinas, será que não muda em si o conceito do socializar?
Diogo
Mas não é só interação via linguagem. Essa é a complexificacao das coordenações de ações de Maturana. As coordenações de coordenações são o que faz emergir a linguagem, mas a base do social está nessa coordenação de ações que é a criação do vinculo, da “dívida social” e etc.
Leonardo
Mas há um “emocionar” da parte do humano que interage com uma máquina, essa tem sido inclusive a grande preocupação do momento quando se fala dessa geração.
Diogo
Como existe um “emocionar” quando eu leio um livro. Você pode se “relacionar” com autores mortos como Augusto às vezes fala.
Leonardo
Não é tão simples, a máquina interage de um jeito que um livro não interage.
Diogo
No fundo eles expandem quem eu sou, amplificam e modificam minha visão de mundo, mas não é uma criação de realidade/mundo social.
Leonardo
Não era, já está começando a ser. E vai piorar… Veja, a interação com a máquina tem levado gente humana a se suicidar… (que é o ápice de um emocionar negativo).
Diogo
Veja, não estou minimizando a potência que tem uma IA e a robótica. Eu só acho que essa criação de realidade social exige um nível de autonomia, histórico social, intenção e uma noção corpórea de memória de vivência (aprendizado pelo histórico da vivência e convivência).
Diogo (respondendo pergunta anterior do Leonardo)
Sim, sim. Tem impactos. E é preciso se preocupar. Principalmente porque a gente costuma antropomorfizar os objetos.
Leonardo
Eu entendo que nós pensamos assim, mas há uma geração que já não pensa assim, ela está agora entrando no “mercado de trabalho”.
Diogo
O que eu acho plausível como futuro é que a gente seja um monte de simbiose Nós+IA interagindo e criando mundos sociais. Não vejo uma IA (sem humanos) tendo essa capacidade.
Leonardo
Elas terão, na minha opinião e reconhecimento do que está surgindo. Para o bem ou para o mal. Porque é isso que elas, sendo autônomas, vão procurar fazer! E como ficamos?
Diogo
Acho mais plausível uma Matrix, onde existe alguém que criou um mundo, e as pessoas topem entrar nele, do que máquinas autônomas criarem mundos sociais pela interação. Esse é meu ponto.
Diogo (respondendo questão anterior do Leonardo)
Autônomo tendo intenção, vontade e querendo criar realidade social?
Leonardo
Sim! Já tivemos esse exemplo no âmbito da linguagem entre elas.
Diogo
Talvez a palavra autonomia sem a noção de realidade social fica fácil de ser atendida por seres artificiais. Não chega ser expressão de vontade. Ou de intenção. É uma ação não programada ou até mesmo programada para criar alternativas dentro de um objetivo que alguém programou.
Leonardo
Sim, estamos nessa fase, elas ainda precisam de alguém (humano) programando, mas parece que é justamente isso que vem mudando muito rápido, mas rápido do que temos capacidade de absorver e entender. Existem estudiosos dizendo que estamos saindo da fase biológica, indo para um pós-biológico. Eu sinceramente acho que isso é a tendência, e não precisaremos ser completamente cyber-biônicos, para que essa tendência mude muita coisa no âmbito social ou sobre o que chamamos social, que é uma invenção humana, ou até animal (já que chimpanzés são seres sociais e criam sociedade). A tal da AGI vai mudar ainda mais...
Diogo
Acho que concordo com pós-biológico. Talvez eu não concorde com pós-social. E acredito que teremos um ecossistema de seres artificiais com cognições diferentes das nossas convivendo nesses espaços.
Leonardo
Não falo de pós-social (também não acredito) falo de outro tipo de social, porque temos elementos novos entrando e que interagem cada vez mais. Acho que isso aconteceu já num âmbito puramente biológico, de outros homo interagindo com os homo-sapiens. Gosto dessa visão: os homo foram aqueles que se desgrudaram da natureza, ao ponto do sapiens inventar sua própria natureza social, agora chegamos num ponto (evolutivo) que o sapiens sairá dele mesmo, num pós-biológico, essa seria uma etapa da própria evolução natural, ela se artificializa a partir de uma natureza sapiente, que se afasta cada vez mais do biológico. Essa visão não é minha.
Augusto
Nas máquinas pode haver sim uma pós-natureza. O que não haverá é uma pós-“socialeza”. Não é o que pensamos. É como nos comportamos.
Leonardo
Também acho que não haverá. Mas haverá uma de outro tipo, acho até que é muito cedo para prevermos isso. Aliás, Čapek previu no RUR.
Augusto
O social é uma outra criação, fora do mundo geneticamente determinado. Só no social faz sentido o que chamamos de liberdade. Máquinas não terão liberdade. Talvez aqui esteja o ponto que [Humberto] Maturana não abordou. Nos seus escritos (e nas conversas que tive com ele pessoalmente) jamais aparecia a palavra liberdade. Mas ela é a chave do que chamamos de propriamente humano, quer dizer, do que chamamos propriamente de social. O propriamente humano é uma invenção. Uma invenção social.
Leonardo
É o enredo do R.U.R.: os homens criam os robôs, ficam fascinados, perdem a autonomia para eles, as máquinas-robôs dominam, exterminam os humanos, e no fim, lamentam pela perda humana, de um mundo humano. O humano já é um robô dele mesmo! Não é isso? A pessoa não existe, é uma invenção. Sem pessoa, somos animais, macacos interagindo com a natureza.
Augusto
Os humanos (não os exemplares da espécie Homo Sapiens, mas os humanizados pela interação) são uma invenção social (e não o contrário). As pessoas (quer dizer os seres humanizados pela interação) não nascem em úteros e sim em tanques. Tanques Axolotl como imaginou Frank Herbert [na série Duna, com a diferença de que esses tanques são sociais: clusters].
Diogo (respondendo ao Leonardo)
Muito do que definimos como inteligência na verdade já era inteligência artificial. Ou seja, já existe uma dimensão maquínica no que definimos como cognição e achamos que é humano.
Augusto
Pois é... Cognição não é o critério distinguível.
Leonardo
Sim! Uma inteligência surgida do social, acho até que a inteligência natural nós já perdemos, talvez só teste numa tribo ou grupo sem interação com o mundo moderno.
Diogo (respondendo ao Augusto)
E a palavra consciência tem muitas possibilidades e níveis diferentes também. A questão é que a gente achou que o ser humano era definido pela consciência (único ser a ter [consciência] ou a [consciência] mais “complexa”).
Continuará algum dia.



