Uma insólita crônica esportiva
Precisamos parar de repetir porcarias nacionalistas
Quase nunca escrevo sobre futebol porque não é minha praia e porque entendo pouco do assunto, embora goste muito. Mas porque gosto de futebol, nesta Copa prefiro as seleções que parecem times, como a da Espanha e a do Marrocos, que não têm os mais consagrados craques da atualidade, porém se comportam melhor coletivamente. Grandes craques (como Messi, Mbappé e Kane) têm seu valor. Mas futebol é conjunto: uma rede viva, uma orquestra de harmônicos, como se viu na era de ouro do Barcelona (2008-2012), que tinha, sim, seus craques (como o próprio Messi e o Iniesta), mas o que caracterizava o comportamento daquele coletivo era a sintonia e a sinergia entre os nodos da rede, que se moviam solidariamente, “dançando” como um corpo único.
Nada disso se viu na atual seleção brasileira, desclassificada pelo seu mau desempenho futebolístico. Não adianta ter bons craques, como o novo Vini Jr. ou o já rodado Neymar, se o conjunto não funciona. Na rede, o passe (a conexão) - sobretudo o one-touch pass - costuma ser um fundamento mais relevante do que o drible individual.
Como comecei dizendo, não entendo muito de futebol, mas entendo um pouco de rede. Quanto mais distribuída for uma rede, maior a sua conectividade (porque mais conexões ou caminhos existirão) e maior a sua interatividade (porque os seus nodos estarão mais vulneráveis à interação fortuita, que pode ser destrutiva ou construtiva). Se um jogador passa a bola imediatamente, menos obstrução de fluxos haverá. Isso resulta em menos faltas e em mais alternativas de caminhos (para passar novamente a bola). Quando um jogador perde a bola, mais chances de recuperá-la existirão se os jogadores do mesmo time clusterizarem (no mínimo em três, o “átomo” de qualquer rede) em torno do jogador do time adversário que roubou a bola em vez de disputá-la homem-a-homem (ou mulher-a-mulher) na raça. Quando um time avança para o campo adversário mais possibilidades de gol existirão se os jogadores se deslocarem em conjunto (por exemplo, novamente, em clusters de três) do que se um jogador sair em disparada sozinho para receber a bola num passe longo e, com base em sua habilidade individual, chegar à baliza adversária (é óbvio que, muitas vezes, um jogador conseguirá fazer um gol assim, mas, na média, o desempenho do time que “dança” em conjunto tende a ser melhor). Acoplamento estrutural é o segredo: a coreografia da interação. Sim, uma rede são nodos interagindo, mas somente enquanto estão interagindo.
Claro, gostamos de ver o extraordinário desempenho individual dos craques dribladores e até achamos enfadonho quando um time fica trocando passes aparentemente sem efetividade. Nossa tentação é a de vaiar o time que se comporta assim, por suposta falta de combatividade. Mas isso porque fomos mal-educados para encarar o futebol - já escreveu George Orwell (1945), em The Sporting Spirit - como uma guerra sem mortes (“war minus the shooting”). A arte que se dane, o que interessa é a vitória por qualquer meio. E ele acrescentou: “People want to see one side on top and the other side humiliated”. Pronto. Lamentavelmente, isso resume tudo.
Raramente vemos uma torcida aplaudir um time - ou um jogador - adversário que jogou admiravelmente. Vi isso uma vez no Santiago Bernabeo, em Madri, quando a torcida do Real Madrid aplaudiu o Barcelona. Foi em 19 de novembro de 2005. Após o terceiro gol do Barça (de Ronaldinho), parte da torcida do Real Madrid se levantou e aplaudiu o brasileiro. Naquele dia tive a esperança de que o futebol poderia, apesar de tudo, ser uma atividade propriamente humana.
Os narradores-torcedores, sempre insuportáveis, infelizmente estão chafurdados na vibe adversarial. E ficam cobrando dos jogadores mais garra (quer dizer, mais falta) em vez de cobrar a falta de futebol. Alguns até reclamam porque os jogadores do time de sua preferência estão deixando os jogadores do time adversário jogar. Deveriam pará-los, com obstrução ou violência física mesmo. Porque, afinal, só o que importa é vencer.
Os narradores-torcedores (e também os comentaristas-torcedores) repetem ad nauseam, em todas as partidas, homilias que reforçam o culto do herói que vai resolver sozinho a situação num passe de mágica, graças a seu talento extraordinário. E, no caso da participação da seleção brasileira em Copas do Mundo, ainda estimulam patriotadas e ficam falando do peso da camisa amarela, da força irresistível da tradição da seleção pentacampeã e berrando “Aqui é Brasil” e outras porcarias nacionalistas.
Ao fim e ao cabo, essa pregação só gera frustração e ressentimento na torcida brasileira quando o resultado é adverso. Porque aí vem 2006: é gol da França. E vem 2010: é gol da Holanda. E vem 2014: é gol da Alemanha (o inesquecível 7 x 1). E vem 2014: é gol da Bélgica. E vem 2022: é gol da Croácia. Até chegar 2026: é gol da Noruega. Ora, que poha de tradição invencível é essa?
Ah! Mas foi o Braut Haaland, o homem com super-poderes (um narrador-torcedor, ontem, chegou a dizer: “Eu estou assustado com o jogador Haaland. É um cara que, como o próprio apelido já diz, é um cometa, é um extraterrestre”). Não foi. Foi a seleção norueguesa, que jogou melhor (como time).
Precisamos parar com isso. O Brasil não estava em guerra com as outras nações que enviaram seleções para a Copa do Mundo. É apenas futebol. E o resultado foi justo. Foi uma retribuição ao nosso deficit de futebol.



