Uma nova reinvenção democrática
Entre impérios, nações e futuros possíveis
Introdução
Diante das crises globais que assolam o século XXI — ambientais, institucionais, tecnológicas e morais —, emergem perguntas profundas sobre as formas de organização social e política que sustentam o mundo moderno. Em especial, a ideia de “Estado-nação” como unidade fundamental da vida coletiva encontra-se pressionada por forças diversas: globalização, redes distribuídas, plataformas tecnológicas, mudanças climáticas e uma nova onda de autocratização em várias partes do mundo.
Neste ensaio, escolho analisar essas transformações a partir de dois livros paradigmáticos: Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, e Os Princípios para Lidar com a Ordem Mundial em Transformação, de Ray Dalio. Ambas as obras, embora ancoradas em uma racionalidade econômica liberal e interessadas nos mecanismos que sustentam o crescimento, o poder e a ordem, nos ajudam a enxergar o limite do pensamento hegemônico atual — um pensamento centrado na competitividade entre nações, na manutenção da força como critério de liderança e na inevitabilidade dos ciclos históricos de ascensão e queda.
A partir dessas obras — e ultrapassando-as —, proponho que o que está em jogo não é apenas uma disputa entre países, blocos ou modelos econômicos. Está em curso uma disputa mais profunda: o futuro da democracia em um mundo cada vez mais interconectado, desigual, vulnerável e sem uma bússola moral compartilhada.
A crítica ao paradigma competitivo: impérios, nações e o mundo que opera pela força
Tanto Acemoglu quanto Dalio partem de premissas racionais para explicar o funcionamento das sociedades e dos Estados. No caso de Dalio, o olhar é assumidamente histórico e pragmático: grandes impérios ascendem, atingem seu auge e declinam segundo dinâmicas recorrentes associadas a dívida, inflação, conflitos internos e guerras externas. O império holandês, o britânico e o americano são analisados sob a mesma lente — uma lente que busca padrões de poder e sua manutenção.
No caso de Por que as Nações Fracassam, Acemoglu e Robinson elaboram uma narrativa baseada na diferença entre instituições inclusivas (que distribuem poder e incentivam inovação) e instituições extrativistas (que concentram poder e inibem desenvolvimento). Essa dicotomia é aplicada a diferentes contextos históricos, do colonialismo às democracias contemporâneas, defendendo que o sucesso ou fracasso de uma nação depende da sua arquitetura institucional.
Ambas as abordagens, contudo, recaem sobre um mesmo ponto cego: a suposição de que a competitividade entre nações é inevitável e desejável. No fundo, mesmo ao criticarem desigualdade ou autoritarismo, esses autores operam a partir de um paradigma racional de poder — que pensa em termos de eficiência, previsibilidade, liderança e performance. A figura da “nação bem-sucedida” permanece sendo aquela que cresce, domina, inova e se impõe.
Essa lógica, por mais sofisticada que seja, ainda está presa a uma racionalidade da força, da competição e do império. E é justamente esse o ponto que precisamos tensionar.
O Leviatã acorrentado e o corredor estreito
Em seu livro posterior, O Corredor Estreito, Acemoglu desenvolve um conceito importante para o debate democrático: o do “Leviatã acorrentado”. Inspirado na imagem hobbesiana do Estado como uma criatura necessária para evitar o caos (mas potencialmente monstruosa), Acemoglu propõe que o desafio das sociedades modernas é equilibrar o poder estatal com o poder social — mantendo o Leviatã suficientemente forte para prover ordem e justiça, mas suficientemente acorrentado para não se tornar autoritário.
Esse equilíbrio só é possível dentro do que os autores chamam de “corredor estreito”: um espaço institucional frágil e dinâmico, onde a cidadania ativa, o pluralismo político e os freios e contrapesos se sustentam mutuamente. Fora desse corredor, temos ou o colapso institucional (Estados fracos, dominados por elites privadas) ou o autoritarismo (Estados fortes, não controlados pelos cidadãos).
O conceito é potente e oferece uma base para repensar a democracia como uma prática contínua de vigilância, participação e experimentação. Mas ele também carrega uma limitação importante: sua aplicação parte do pressuposto de uma estrutura nacional sólida e relativamente homogênea. Ou seja, ainda estamos dentro do modelo do Estado-nação como unidade de análise.
O ciclo dos impérios segundo Ray Dalio
Ray Dalio, por sua vez, parte de uma abordagem mais macro-histórica e geopolítica. Em Os Princípios para Lidar com a Ordem Mundial em Transformação, ele constrói uma narrativa baseada em ciclos: impérios surgem, crescem, atingem um pico de poder, entram em declínio e são substituídos por outros. A análise envolve dados de dívida, inflação, coesão interna, inovação tecnológica, investimentos em educação, e capacidade militar.
Dalio observa que os Estados Unidos se aproximam do estágio de declínio, com sinais como polarização extrema, crise fiscal, erosão de instituições e perda de liderança internacional. Simultaneamente, a China aparece como a próxima potência ascendente, com um Estado central forte, investimentos em inovação e estabilidade interna (ainda que autoritária).
O alerta de Dalio é pragmático: prepare-se para a transição. Seu olhar, apesar de informativo, não propõe uma saída democrática. Ele vê a história como um tabuleiro inevitável de forças — e nos convida a posicionar melhor nossas peças.
Essa perspectiva, ainda que útil, falha em imaginar alternativas. Ela assume como natural o domínio do mais forte, a inevitabilidade da guerra, a submissão do pequeno ao grande. E é justamente contra esse tipo de imaginação que precisamos reagir.
O impasse do Estado-nação e a genealogia da democracia
A ideia moderna de Estado-nação nasce no século XVII como uma forma de organizar o poder e a soberania dentro de territórios delimitados. Ela parte de uma premissa central: a de que o Estado detém o monopólio legítimo da força para garantir a ordem interna e proteger fronteiras externas. Isso criou, ao longo dos séculos, estruturas de governança cada vez mais burocráticas, centralizadas e hierarquizadas.
A democracia, por sua vez, não nasce como um reforço ao poder estatal, mas como um mecanismo de controle do povo sobre os governantes. Ao longo da história, vimos duas grandes reinvenções democráticas (como aponta Augusto de Franco): na Grécia Antiga, como resposta às tiranias, foi sua invenção; no Parlamento britânico, após a Revolução Francesa, como reação às monarquias absolutas, sua primeira reinvenção; e na experiência americana, liderada por figuras como Thomas Jefferson, como tentativa de limitar o poder central e proteger os direitos individuais, a segunda reinvenção da democracia.
Cada uma dessas reinvenções respondeu a um contexto histórico e tecnológico específico. Seu nascimento foi local e presencial; a primeira, moldada pela imprensa e pelo iluminismo; a segunda, baseada no constitucionalismo moderno e no presidencialismo. Todas elas, no entanto, operaram em escalas relativamente pequenas — cidades-estado, reinos, colônias — com populações e complexidades muito diferentes das nossas.
Hoje, nos deparamos com o seguinte dilema: será possível reinventar a democracia em grande escala, dentro de Estados continentais, hiperconectados, desiguais e sob ameaça climática?
A urgência de uma terceira reinvenção democrática
Não há indícios claros de que estejamos em um processo de reinvenção democrática. Ao contrário, vivemos uma regressão autocrática em várias partes do mundo. Mas talvez essa terceira reinvenção seja a única saída possível. E, por isso mesmo, ela precisa ser provocada — com coragem, inteligência coletiva e experimentação sistêmica.
Essa reinvenção passa por múltiplas frentes:
Descentralização radical: aumentar a autonomia local, promover experiências de governança municipal e regional mais responsivas e democráticas.
Federalismo profundo: redesenhar a federação como uma plataforma de articulação entre múltiplos níveis de governo, com divisão clara de competências e mecanismos de participação cruzada.
Democracia participativa digital: criar espaços digitais confiáveis para deliberação pública, orçamento participativo, escuta ativa e transparência radical.
Reforma tributária descentralizadora: fortalecer a arrecadação e o investimento local, reduzindo a dependência vertical dos entes federativos.
Educação para cidadania em rede: formar novos cidadãos aptos a operar em ecossistemas colaborativos, complexos e interdependentes.
Experimentos tecnológicos distribuídos: usar blockchain, identidade digital, DAOs (organizações autônomas descentralizadas) e outras tecnologias emergentes para testar novos formatos de representação, distribuição de poder e prestação de contas.
Essa agenda precisa ser vista como horizonte de longo prazo, com ensaios múltiplos, falhas e aprendizado compartilhado entre cidades, regiões, países e redes cívicas globais.
Coalizões democráticas em crise: ONU, União Europeia e o paradoxo da força
Nas últimas décadas, o mundo tentou criar estruturas federativas globais — como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE) — com o objetivo de promover paz, cooperação e desenvolvimento sustentável. Esses projetos, por mais problemáticos que sejam, representam tentativas inéditas de construir uma governança baseada em valores democráticos compartilhados.
Hoje, essas estruturas enfrentam sérias crises de legitimidade, eficácia e unidade. A ONU está paralisada diante de conflitos armados, mudanças climáticas e violações de direitos humanos por membros permanentes de seu Conselho de Segurança. A União Europeia, por sua vez, vê crescer movimentos nacionalistas e eurocéticos, colocando em xeque sua capacidade de agir coletivamente.
Mas é preciso olhar para essas crises de outra maneira. Elas não são apenas falhas ou fraquezas: são sintomas de sistemas que precisam ser reinventados para responder a um novo tipo de mundo — um mundo de redes, vulnerabilidades globais e desafios transnacionais. Além disso, é preciso entender que essas coalizões democráticas estão sendo intencionalmente minadas por potências autoritárias que preferem operar num sistema de “cada um por si”, onde a lei do mais forte prevalece.
A fragmentação da ONU ou o enfraquecimento da UE interessam diretamente a regimes autocráticos que querem ampliar sua zona de influência. Por isso, resistir a essa fragmentação não é apenas uma questão de diplomacia — é uma defesa da democracia como valor civilizacional.
O Brasil, os BRICS e os dilemas da multipolaridade
No cenário geopolítico atual, o Brasil se aproxima cada vez mais de regimes autocráticos através do bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Embora esse movimento seja apresentado como um caminho rumo à multipolaridade, é preciso cuidado.
A multipolaridade pode parecer uma alternativa democrática à hegemonia americana, mas, na prática, está se configurando como um mundo dividido entre dois grandes blocos: o democrático (com todas as suas falhas) e o autocrático (com seus controles, censuras e centralizações). Estar no meio desse xadrez exige do Brasil uma clareza estratégica sobre seus valores, seu projeto de país e seu compromisso com a democracia.
Conclusão: rumo à terceira reinvenção
Nada garante que conseguiremos reinventar a democracia. Os sinais são adversos. As potências se autocratizam. As redes se polarizam. As instituições se enfraquecem.
Mas é precisamente por isso que precisamos insistir. A terceira reinvenção democrática não será obra de um único país, de um líder carismático ou de uma tecnologia milagrosa. Ela será fruto de uma teia de experimentações locais, globais, digitais e presenciais — articuladas por uma opinião pública ativa, exigente e generosa.
Precisamos encontrar uma nova linguagem, novas instituições, novas pedagogias e novos rituais para viver juntos. Porque, no fim das contas, é disso que se trata: da arte de viver juntos num mundo em ruínas — e da coragem de reconstruí-lo por dentro.




