Vamos conversar sobre o Irã
Nunca foi democracia e não será tão cedo
Corre solta entre jornalistas e analistas políticos a versão de que o Irã foi democrático por um curto período na década de 50 do século 20. Não é verdade.
No último domingo, por exemplo, assistimos a falsa "explicação" do Globo News Internacional para o surgimento da autocracia do Irã. A narrativa é mais ou menos assim. Os imperialistas americanos e britânicos deram um golpe no governo democrático de Mossadegh. Aí impuseram a ditadura do Shah Reza Pahlavi, cujo governo aumentou a desigualdade socioeconômica. Como consequência disso emergiu a revolução islâmica do aiatolá Khomeini que, então, instalou a teocracia.
Um veículo de comunicação profissional não pode empulhar a população com esse tipo de narrativa ideológica. Em primeiro lugar o Irã não era democrático durante o período de governo de Mossadegh (basta consultar os mapas retrospectivos do V-Dem em Our World in Data) e sim uma autocracia. Mossadegh se considerava socialista, nacionalista e era fortemente estatista.
O governo de Mohammad Mossadegh ocorreu entre 1951 e 1953. Abaixo o mapa Regimes of the World (V-Dem) do ano de 1952 mostrando que nesse ano, em pleno governo Mossadegh, o Irã era uma autocracia fechada e não uma democracia, nem liberal, nem apenas eleitoral:
Em segundo lugar não foi a desigualdade que ensejou o surgimento da teocracia. Isso é um juízo que parte de uma crença religiosa (marxista). Com Shah ou sem Shah, com Mossadegh ou sem Mossadegh, com aiatolás ou sem aiatolás, o Irã já era, desde sempre, uma autocracia. Nunca foi uma democracia, nem eleitoral, muito menos liberal.
A fundação do Irã moderno como Estado xiita ocorreu a partir de 1501. Aí tivemos a dinastia Safávida (1501-1736). Depois a dinastia Afshárida (1736-1796). Em seguida a dinastia Zand (1751-1794). E aí veio a dinastia Qajar (1796-1925). Por fim a dinastia Pahlavi (1925-1979), começando com Reza Shah Pahlavi e terminando com Mohammad Reza Shah Pahlavi, deposto em 1979 pela revolução islâmica que colocou no poder supremo os aiatolás teocráticos Ruhollah Khomeini e Ali Khamenei.
Antes tivemos as dinastias antigas: Aquemênidas (550-330 a.C.), Partos-Arsácidas (247 a.C. - 224 d.C.) e Sassânidas (224-651 d.C.) e depois, com a conquista árabe-islâmica em 651 d.C., desintegração até c. 1500. Depois da islamização (em 651 d.C.) o Irã ficou séculos fragmentado sob domínio de califados e dinastias locais. Imaginem. Quase um milênio de não-país.
E muito antes ainda disso tivemos, talvez (não se sabe com certeza), entre 1500 e 800 a.C. a chegada dos povos iranianos propriamente ditos (ramo dos indo-europeus) ao planalto iraniano (medos, persas, partas etc. a partir de 800 a.C.), provenientes da estepe pôntico-cáspia (cultura Yamnaya e afins) aproximadamente entre 4000 e 3000 a.C. A investigação sobre isso poderá revelar, pelo menos em parte, as raízes ancestrais da tirania.
Tudo isso foi e é autocracia. Nunca houve democracia no Irã. Ah!... mas o Irã tem muita história. Tem sim. História intimamente ligada à geração e difusão das matrizes míticas, sacerdotais, hierárquicas e autocráticas da civilização patriarcal. O Irã teocrático, assim como o Afeganistão talibã, são - no que tange às suas elites dirigentes e seus organismos malignos, como o Pásdárán (Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) e as associações de clérigos combatentes - repositórios de remanescências (germoplasmas) patriarcais em estado (quase) puro.
Quando alguém fala da subordinação das mulheres no Irã devemos considerar que isso foi o estado “normal” ao longo da história iraniana. A única exceção foi um curto período de abertura (de costumes, não política) durante a dinastia Pahlavi, sob o governo - também ditatorial - de Mohammad Reza Shah Pahlavi, justamente aquele que foi deposto pela revolução islâmica.
Abaixo uma foto de um dia numa praia do Irã na década de 1970, antes da revolução islâmica. Tinha biquíni, mas era ditadura.
Depois da revolução islâmica é o que vemos até hoje:
Assistimos agora uma insurgência popular no Irã que pode derrubar a teocracia. Sim, isso é possível. Mas se o IRGC - o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica - não for dissolvido, não haverá, nem em futuro longínquo, saída verdadeiramente democrática para o Irã. Por uma constelação aziaga de fatores.
O Irã faz parte do BRICS (com a anuência do governo populista de esquerda de Lula da Silva do Brasil).
O Irã é um dos integrantes do eixo autocrático (que reúne, entre outros, Rússia, Bielorrússia, China, Coreia do Norte, Vietnã, Índia, Cazaquistão e seus assemelhados do “findomundistão” da Ásia central, Angola e outras ditaduras africanas, Cuba, Venezuela e Nicarágua) em campanha de exterminação das democracias liberais.
O Irã move uma guerra contra Israel que, independentemente do atual governo antidemocrático e populista-autoritário de Netanyahu, é a única democracia do Oriente Médio, ilhada por 14 ditaduras, quase todas islâmicas. Essa “guerra santa”, promovida pelos aiatolás, envolve diretamente o Estado iraniano e cerca de uma dezena de braços terroristas (Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis etc.), coordenados pelo IRGC, em Gaza e na Cisjordânia, na Jordânia, na Síria, no Iraque, no Líbano, no Iêmen, no Catar, até em Omã e em quase todos os países do Oriente Médio.
É uma ingenuidade, se não uma rematada tolice, esperar que uma intervenção militar do governo populista-autoritário de Trump vá conduzir uma transição da teocracia iraniana para uma democracia (justamente no momento em que Trump está conduzindo uma transição autocratizante da própria democracia americana).
Dependendo do desfecho dos atuais protestos e até de uma intervenção pontual do governo Trump, pode, sim, haver uma abertura, em termos de costumes, num governo iraniano pós-aiatolás. Clérigos moderados (moralistas do baixo-clero) podem tomar o poder. Ou a teocracia atual pode ser substituída por uma ditadura policial-militar (dirigida ou influenciada pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica). Pode, no limite, se instalar no Irã um regime eleitoral flawed ou, mais provavelmente, um regime híbrido. Mas democracia mesmo (em termos liberais) não está no horizonte que se possa divisar.







Mais desenhado, impossível.
Caro Augusto, pra ser Franco (ughh), se um texto com essa qualidade e suculência cair na redação da Globo News, todo o pessoal corta os pulsos, até a Tiazinha do café. Ao ler o texto, o Google quis pedir demissão, que não seria aceita.