Vamos parar de mentir sobre o Líbano
Um comentarista internacional na TV nos empulha diariamente com notícias falsas sobre o Líbano. É necessário esclarecer.
1 - O Líbano não é uma democracia e sim uma autocracia eleitoral (V-Dem 2026).
2 - Israel continua sendo uma democracia, embora tenha decaído de democracia liberal para democracia eleitoral (V-Dem 2026) em razão das guerras e das consequências das ações do governo populista-autoritário de Netanyahu. Mas regime político não é a mesma coisa que governo: Israel ainda é a única democracia do Oriente Médio, cercada por quatorze ditaduras.
3 - O Líbano não reconhece Israel. O Líbano é um dos cerca de 29 Estados-membros da ONU que não reconhecem Israel, junto com a maioria dos países árabes e alguns muçulmanos.
4 - O Líbano continua proibindo a entrada de israelenses ou pessoas com carimbos israelenses no passaporte e isso é assim desde a guerra árabe-israelense de 1948, com interrupções pontuais (como no acordo de 1983 patrocinado pelos EUA, mas que foi revogado um ano depois pelo governo libanês). Isso, portanto, não tem a ver com as recentes incursões militares de Israel.
5 - Israel está bombardeando o Líbano porque a organização terrorista Hezbollah, braço armado do Irã, está sediada no Líbano e ataca Israel a partir do Líbano. E o governo do Líbano, embora declare o contrário, não quer ou não consegue desarmar o Hezbollah.
6 - O Hezbollah é financiado pelo Irã e financia o Irã e seus outros braços terroristas por meio de tráfico de drogas e armas, contrabando de diamantes de sangue, carros usados, cigarro, madeira ilícita e lavagem de dinheiro. É uma organização criminosa transnacional.
7 - O Hezbollah apoia ditaduras (como as da Venezuela, da Nicarágua, de Cuba e de vários países africanos). Seus agentes são encontrados nesses países.
8 - Outra coisa é avaliar se Israel deveria invadir o Líbano para neutralizar o Hezbollah. Possivelmente não. Até porque o Hezbollah não será destruído somente a partir de ações militares. Só poderá ser derrotado politicamente, mas isso se o Irã for derrotado militar e politicamente.
9 - O Hezbollah é o Irã, assim como as milícias xiitas no Iraque e na Síria (ver nota abaixo) e os demais grupos terroristas apoiados pelo Irã, como o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis etc. E o Irã é a guerra.
10 - Ao insistir em campanhas militares incessantes ou permanentes o atual governo de Israel (que abriga supremacistas judaicos) degrada a democracia israelense. Se a sociedade democrática israelense não depuser o governo Netanyahu é provável que, no médio prazo, Israel deixe de ser uma democracia.
Uma nota sobre as milícias xiitas no Iraque e na Síria. Tudo isso (ou quase tudo) é Irã.
PRINCIPAIS MILÍCIAS XIITAS NO IRAQUE
Badr Organization, Organização Badr (Brigadas Badr); Uma das maiores e mais antigas (desde os anos 1980). Liderada por Hadi al-Amiri. Tem ala política forte e controla várias brigadas da PMF. Pró-Irã.
Kata’ib Hezbollah, Brigadas do Hezbollah. Uma das mais poderosas e ativas. Muito próxima do Irã e do Hezbollah libanês. Opera brigadas 45-47 da PMF. Acusada de ataques a forças americanas.
Asa’ib Ahl al-Haq (AAH), Liga dos Justos / Asa’ib Ahl al-Haq. Fundada em 2006 por Qais al-Khazali. Saiu do Exército Mahdi de Muqtada al-Sadr. Tem ala política (al-Sadiqoun) e é fortemente pró-Irã.
Kata’ib al-Imam Ali, Brigadas do Imam Ali. Ativa em combates contra o ISIS e na Síria. Recebeu treinamento do Hezbollah.
Kata’ib Sayyid al-Shuhada, Brigadas do Senhor dos Mártires. Focada em operações regionais, incluindo Síria. Pró-Irã.
Harakat Hezbollah al-Nujaba. Movimento Hezbollah al-Nujaba. Liderada por Akram al-Kaabi. Atua no Iraque e Síria. Muito ativa em ataques recentes.
Saraya al-Salam (Peace Companies), Companhias da Paz / Brigadas da Paz. Ligada a Muqtada al-Sadr. Evoluiu do Exército Mahdi.
Saraya al-Khorasani, Brigadas Khorasani. Fortemente alinhada ao Irã (seguidores de Khamenei).
Liwa Ali al-Akbar, Saraya al-Ataba al-Abbasiya e outras ligadas aos santuários xiitas de Najaf/Karbala (mais alinhadas a Sistani).
Kata’ib Jund al-Imam, Saraya Ashura, Saraya al-Jihad (ligadas ao ISCI, partido xiita).
PRINCIPAIS MILÍCIAS XIITAS NA SÍRIA
Ativas durante a guerra civil, quase todas coordenadas pela Força Quds do IRGC (Irã). Muitas se deslocaram para o Iraque após 2024 com o novo governo liderado pelo HTS (Hay’at Tahrir al-Sham, sunita islamista)
Hezbollah, Libanesa (xiita). A mais poderosa e influente. Enviou milhares de combatentes (pico de ~7-10 mil). Atuou em várias frentes, incluindo Qalamoun, Aleppo e fronteira com Israel.
Liwa Fatemiyoun (Brigada Fatemiyoun), Afegã (principalmente hazaras xiitas). Recrutada no Irã. Estimada em 5-14 mil combatentes no pico. Defendia santuários xiitas e atuava em Aleppo, Deir ez-Zor etc. Muitos se retiraram para o Iraque após 2024.
Liwa Zaynabiyoun (Brigada Zaynabiyoun), Paquistanesa (xiitas). Similar à Fatemiyoun, com 2-5 mil combatentes. Focada na proteção de santuários como Sayyida Zaynab (Damasco). Também realocada em grande parte.
Liwa Abu al-Fadl al-Abbas (LAFA), Iraquiana/síria (xiita). Uma das primeiras, focada na defesa do santuário de Sayyida Zaynab. Serviu de base para outras formações.
Kata’ib Hezbollah, Iraquiana (pró-Irã). Enviou combatentes via PMF (Forças de Mobilização Popular). Atuou em várias frentes junto com outras iraquianas.
Harakat Hezbollah al-Nujaba, Iraquiana. Ativa na Síria e no Iraque. Muito próxima do Irã.
Kata’ib Sayyid al-Shuhada, Iraquiana. Enviou forças para defender o regime e santuários.
Imam al-Baqer Brigade e Liwa al-Quds (sírias ou mistas, com apoio iraniano).
Milícias locais sírias xiitas ou pró-Irã em áreas como Aleppo (ex.: de Fu’ah e Zahra) ou sul da Síria.
Unidades mistas sob “Syrian Hezbollah” ou redes do IRGC.




Simples, claro, preciso. Que alívio um texto bem escrito e conciso, e uma análise baseada em fatos, conhecimento de geopolítica e bom senso. 🙌