Yascha Mounk não é brasileiro
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (19/03/2026)
Yascha Mounk não é brasileiro. Seu universo de análise é a democracia no mundo e em seu país de domicílio, os Estados Unidos. Não tem foco no que acontece na política por aqui.
Dito isso, o que ele percebe acontecer nos Estados Unidos em termos de opiniões da chamada elite profissional, advogados, acadêmicos, funcionários públicos e jornalistas da grande imprensa, pode muito bem ser transportado para a nossa realidade. Essa percepção ele traz em um ensaio publicado recentemente na Revista Persuasion, chamado The Bourgeoisie Has Switched Sides, ‘a burguesia mudou de lado’, numa tradução livre.
Segundo sua análise, por mais que a tecnologia tenha permitido vir a público um universo de diversas opiniões, há como que uma homogeneidade do pensamento da elite acima mencionada. E essa mentalidade nitidamente pendeu para o que se convencionou chamar de esquerda no espectro político.
Além disso, há como que um vácuo de representação entre a elite e o cidadão comum. Opiniões relacionadas à imigração, punição criminal e autoridade social são muito diferentes daquelas identificadas com o eleitor médio.
O sucesso de líderes populistas é atribuído à promessa de preencher esse vácuo de representação, o que não ocorre efetivamente porque boa parte da solução encontrada por esses é substituir as instituições e trocar um dogma por outro. Mas a razão que permite a ascensão desses movimentos parece óbvia e aponta para um déficit de representação das elites intelectuais.
No Brasil, o populismo é ambidestro, por assim dizer, mas há claramente uma associação entre o que Mounk aponta na elite americana e nossa elite. A homogeneidade do pensamento poderia ser resumida, a meu ver, na sentença apontada por boa parte da classe artística e intelectual de que Lula salvou nossa democracia do golpe que seria perpetrado por Bolsonaro.
A discordância contra essa sentença coloca boa parte da população do outro lado do espectro político, misturando aqueles com pontos de vista divergentes mas que estão no campo da democracia com aqueles que simplesmente querem abolir a democracia ou nem pensam sobre isso.
A solução proposta por Mounk para quebrar essa homogeneidade serve também como inspiração e poderia ser adotada por aqui. Cultivar instituições dissidentes que ofereçam alternativas reais ao consenso ortodoxo dominante.
Acredito que a Revista ID é um desses espaços de criação de comunidades dissidentes, fico feliz de fazer parte desse projeto e conviver com meus colegas e amigos que aqui escrevem. A democracia viceja onde há o espírito de comunidade, independente do país.



