O mais provável até agora é Lula vencer por pouco no segundo turno. Na base da guerra suja.
O PT inteiro e muitos ditos "progressistas" estão na campanha fake, turbinada indignamente pelo próprio Lula, de que Flávio vai abolir Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
E várias outras fake news estão engatilhadas. Insinuações de vídeo do Flávio com Vorcaro arquitetando um assalto ao país, Flávio de cueca com prostitutas (de Vorcaro), Trump intervindo na campanha a favor de Flávio para tomar nossas terras raras e nosso petróleo da margem equatorial e a principal (ao que sabemos): a de que o PCC ou as milícias estão na campanha de Flávio.
Pessoas normais - que nunca integraram milícias digitais - aderiram a esse tipo de degradação do processo democrático como se não houvesse amanhã. Como se metade da população brasileira, que não votará em Lula, fosse desaparecer no dia seguinte ou se mudar para outro país. É uma campanha, além de mentirosa, inteiramente irresponsável.
Se Lula vencer terá de governar em crise política permanente, porque a crise institucional já está instalada e pode se agravar virando, para além de uma crise política, uma crise social. A menos que Lula e o PT estejam pensando em transformar o Brasil em uma autocracia (disfarçada, é claro, de democracia) e aí reprimir os que não se ajoealharem a seus pés.
Nada disso quer dizer que vai acontecer o que hoje parece o mais provável. Não se sabe. Depende de muitos fatores, alguns dos quais não podemos conhecer de antemão.
Mas já se sabe que, se Lula vencer a eleição, terá de governar com o STF funcionando como um tribunal de exceção num clima fake de defesa da democracia e da soberania, como se o 8 de janeiro fosse uma ameaça de golpe permamente. Os governistas, entretanto, não têm medo de golpe e sim de Lula perder a eleição.
Que fique claro. A famiglia Bolsonaro é de fato um horror. Mas por que tantas pessoas estão querendo votar em Flávio Bolsonaro? Porque não aguentam mais a continuidade de Lula e do PT. E mesmo que o antagonista fosse o Belzebu em pessoa, estão vendo o perigo do aparelhamento completo das instituições pelo PT.
Sim, muitas pessoas estão vendo isso, mas nossos analistas políticos estão tendo dificuldade de interpretação porque estão iludidos com a concepção przeworskiana de democracia, como troca de governo sem derramamento de sangue e observância formal das leis escritas.
Percebem o perigo do golpismo que quer derruir as instituições, mas não percebem que a democracia pode ser erodida por dentro, pela captura das instituições para colocá-las a serviço do projeto de poder de um partido hegemonista.
Nem veem que o processo de democratização não pode avançar se um dos poderes, no caso do Brasil atual o judiciário, exorbita em suas funções e passa a ser uma linha auxiliar do governo, invadindo a competência do legislativo para invalidar as decisões do parlamento que desagradam o poder executivo.
Não percebem também que democracia não é equivalente a Estado de direito, pois que depende de um consenso mínimo sobre a não violação das leis não escritas que constituem o arcabouço da cultura democrática.
Se democracia fosse - como quer Adam Przeworski e os acadêmicos przeworskianos - troca de governo sem derramamento de sangue e observância formal das leis escritas, não existiriam hoje no mundo 57 autocracias eleitorais (onde vivem 3,8 bilhões de pessoas). Alias, segundo o último relatório do V-Dem (2026) as autocracias eleitorais são o tipo de regime mais numeroso do mundo. Todas elas realizam eleições multipartidárias para o Executivo ou o Legislativo e, por isso, são consideradas, por alguns przeworskianos, como “democracias”. São os casos, mais parecidos com o Brasil, da Indonésia e do México (que remanescem numa zona cinzenta, mas acho que Przeworski não teria cerimônia de qualificá-los como democracias). E são os casos, mais claramente, entre tantos outros, de El Salvador, da Índia, do Iraque, do Líbano, da Palestina (Cisjordânia), das Filipinas, de Singapura, da Turquia e da Rússia. Embora possa haver partidos e eleições nesses países, não há democracia.
No Brasil, ainda há democracia, conquanto apenas eleitoral (quer dizer, não liberal) e defeituosa (ou seja, não plena). Mas, como previmos - e há mais de um ano, talvez mais de dois - o judiciário está interferindo nas eleições a favor de um dos lados em disputa (o lado do governo), tal como faz nas autocracias eleitorais citadas acima. Parece óbvio que isso não é compatível com a democracia.
Agora a democracia que ainda existe no Brasil terá de descobrir um jeito de corrigir essa disfunção gravíssima. Se não conseguir descobrir poderá, no médio prazo, deixar de ser uma democracia, virando uma autocracia eleitoral (na classificação do V-Dem) ou um regime híbrido (na classificação da The Economist Intelligence Unit).



