A liberdade que nos assusta
Em minhas últimas colunas tenho refletido sobre temas que, à primeira vista, parecem distintos: polarização, democracia, ideologias, autoritarismos contemporâneos, a ascensão de novas formas de autocratização e a dificuldade crescente que temos de imaginar futuros que não sejam simplesmente a repetição ampliada dos conflitos do presente. Mas, olhando para trás, começo a perceber que talvez todas essas questões apontem para uma mesma pergunta, uma pergunta mais profunda e menos evidente, que não diz respeito apenas às instituições políticas, mas à forma como nos relacionamos com a própria condição humana.
No dia 09 de Fevereiro de 2026 escrevi um artigo sobre o pensamento de Jorge Forbes que dialoga muito com essa inquietação (link para o artigo completo). Ao comentar o que chama de um mundo desbussolado, Forbes descreve uma época em que referências tradicionais perdem força, identidades tornam-se mais fluidas, caminhos se multiplicam e o indivíduo passa a ser confrontado com um grau de liberdade que gera tanto potência quanto angústia. No paralelo, estou sendo impactado pela leitura recente do livro Ontogênese – Como o Real Nasce entre Pessoas, de Marcelo Maceo, e uma frase em particular ficou ecoando comigo nesses últimos dias: “Mais liberdade pede mais autoria. E autoria pede mais energia. Pede decisão. Pede sustentar consequência. Pede lidar com dúvida sem correr para um dogma. Pede encarar a própria participação no que se chama de mundo.”
Talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes questões do nosso tempo.
Durante séculos, boa parte da humanidade viveu em estruturas relativamente fechadas. O lugar onde se nascia definia grande parte do destino. A religião definia os limites do aceitável. A profissão frequentemente era herdada. As relações sociais eram mais estáveis. Os horizontes possíveis eram menores. Havia menos escolhas, menos alternativas e, consequentemente, menos necessidade de construir a si mesmo continuamente.
Os últimos trinta ou quarenta anos alteraram profundamente esse cenário.
A globalização, a internet, a ampliação dos fluxos culturais, a revolução digital, a expansão das redes de conhecimento e a crescente autonomia individual abriram possibilidades inéditas. Nunca houve tanta liberdade para experimentar identidades, trajetórias profissionais, projetos de vida, formas de relacionamento, visões de mundo e modos de pertencimento. Nunca foi tão fácil acessar conhecimento, encontrar pessoas parecidas conosco ou construir projetos em colaboração com indivíduos espalhados pelo planeta.
Sob muitos aspectos, essa ampliação da liberdade representa uma das maiores conquistas da modernidade.
Mas ela trouxe consigo uma consequência para a qual talvez não estivéssemos preparados.
Porque liberdade não significa apenas possibilidade.
Liberdade também significa responsabilidade.
E responsabilidade não é uma palavra muito popular em épocas de ansiedade.
Quanto mais opções existem, maior se torna o peso da escolha. Quanto mais caminhos se abrem, mais difícil se torna justificar os caminhos não escolhidos. Quanto mais autonomia possuímos, mais difícil se torna atribuir aos outros a responsabilidade pela própria vida.
A liberdade produz potência.
Mas também produz vertigem.
E talvez uma parte importante das tensões contemporâneas nasça exatamente dessa vertigem.
Quando a liberdade se torna excessivamente angustiante, cresce a tentação de terceirizar a autoria. Cresce o desejo de encontrar novamente sistemas que prometam reduzir a complexidade do mundo. Sistemas que expliquem quem somos, quem são os culpados, qual é o caminho correto, quem deve ser seguido e qual será o destino final da história.
É nesse ponto que ideologias, fundamentalismos, nacionalismos, tribalismos digitais e diferentes formas de autoritarismo começam a exercer fascínio.
Não porque sejam necessariamente mais verdadeiros.
Mas porque oferecem alívio.
Eles reduzem a incerteza.
Transformam complexidade em narrativa.
Transformam ambiguidade em certeza.
Transformam responsabilidade em pertencimento.
E transformam liberdade em obediência.
Talvez por isso seja um erro interpretar os movimentos autoritários contemporâneos apenas como fenômenos políticos. Existe algo mais profundo acontecendo. Existe uma dificuldade crescente de lidar subjetivamente com a liberdade que nós mesmos produzimos.
O curioso é que isso acontece tanto à direita quanto à esquerda.
Acontece em movimentos religiosos e em movimentos laicos.
Acontece em nacionalismos conservadores e em projetos revolucionários.
Acontece sempre que alguém oferece uma resposta total para uma realidade que se tornou radicalmente complexa.
E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas que se dizem defensoras do progresso acabam, frequentemente, defendendo estruturas profundamente regressivas. Muitas vezes em nome da igualdade, muitas vezes em nome da justiça, muitas vezes em nome do povo, muitas vezes em nome da tradição. Os nomes mudam. O mecanismo psicológico permanece semelhante.
Em todos esses casos existe uma tentativa de escapar do peso da autoria.
Mas o que me parece mais preocupante é que essa fuga não apenas reduz a liberdade individual. Ela reduz também nossa capacidade coletiva de criar.
Porque criar exige exatamente aquilo que os sistemas fechados tentam eliminar: dúvida, risco, experimentação, erro, responsabilidade e exposição.
Toda criação verdadeira nasce de um encontro com o desconhecido.
Todo artista sabe disso.
Todo empreendedor sabe disso.
Todo cientista sabe disso.
Toda pessoa que já tentou construir algo novo sabe disso.
Criar significa agir sem garantias.
Significa avançar sem possuir um mapa completo.
Significa assumir responsabilidade por algo que ainda não existe.
Por isso gosto tanto da expressão usada por Forbes quando fala da ética do artista.
O artista não é apenas aquele que produz obras. O artista é aquele que aceita ocupar um espaço de liberdade sem exigir que alguém lhe entregue previamente o roteiro da existência. Ele cria, experimenta, responde pelas consequências e continua criando.
Talvez esse seja um dos maiores desafios democráticos do nosso tempo.
Porque democracia, no seu sentido mais profundo, não é apenas um arranjo institucional. Ela é uma forma de convivência baseada na aceitação de que nenhum grupo possui acesso privilegiado à verdade histórica, moral ou religiosa. Ela exige cidadãos capazes de lidar com incerteza, desacordo e pluralidade sem imediatamente buscar refúgio em sistemas fechados.
Em outras palavras, a democracia exige maturidade diante da liberdade.
E essa maturidade não nasce espontaneamente.
Ela precisa ser cultivada.
Talvez por isso a resposta para o mal-estar contemporâneo não esteja apenas na defesa abstrata da democracia, nem apenas na crítica aos autoritarismos. Talvez ela passe por algo mais fundamental: recuperar nossa capacidade de criar.
Criar projetos.
Criar comunidades.
Criar empresas.
Criar associações.
Criar arte.
Criar espaços de convivência.
Criar formas novas de colaboração.
Criar futuros.
Porque criar é uma das formas mais concretas de assumir responsabilidade pelo mundo.
E assumir responsabilidade pelo mundo talvez seja uma das formas mais humanas de exercer a liberdade.
Não sei se isso será suficiente para reverter os processos de regressão democrática que observamos hoje. Não sei se será suficiente para interromper a escalada de polarizações, radicalismos e autoritarismos que atravessam diferentes sociedades. Mas tenho cada vez mais a sensação de que nenhuma transformação duradoura acontecerá sem esse movimento.
A liberdade nos abriu um mundo.
Agora precisamos aprender a habitá-lo.
E isso exige menos seguidores e mais autores.




