Arquiteturas da Convivência
A forma de escolha como indutor do modo de vida democrático
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (06/08/2026)
Nesta semana, o Diogo Dutra publicou um excelente artigo na Revista ID — uma leitura que recomendo vivamente. Assumindo o risco de não abranger toda a profundidade da argumentação desenvolvida por meu colega e amigo, tomo a liberdade de partir de algumas de suas ideias para vislumbrar possíveis desdobramentos práticos. Diante da hipótese do comportamento como o motor de novas formas de sociabilidade, mais ou menos democráticas, algumas indagações se impõem.
Haveria a possibilidade de projetarmos arquiteturas institucionais voltadas para a indução daquilo que compreendemos como um modo de vida democrático? Nessas configurações, a forma de escolha dos nossos representantes exerceria um papel indutor relevante?
Partindo da ideia do jogo como elemento estruturante das sociedades desde os primórdios da humanidade (1), proponho refletirmos sobre como o método de seleção de governantes e representantes induz — ou não — comportamentos mais alinhados à democracia como estilo de vida. Trata-se de um exercício imaginativo, que não se propõe necessariamente como uma formalização teórica do nosso sistema político atual.
Há uma predominância nas análises políticas que situa o pensamento e o campo das ideias no centro de qualquer debate. Nessa cultura intelectual, as narrativas são valorizadas como as principais indutoras de mudanças desejáveis; este é, aliás, o cerne da discussão no artigo citado. Um outro viés, contudo, mais sintonizado com as reflexões de Diogo e de Augusto de Franco, seria investigar quais comportamentos e ações podemos propor para fomentar condutas mais democráticas.
De que maneira o modo como lidamos com nossas escolhas e seus desfechos — mesmo diante da falta de controle total, como ocorre nas eleições — afeta nosso comportamento? O binarismo da competição, onde a vitória de um exige a derrota do outro, acaba por inibir formas de convivência mais cooperativas?
Como sabemos, populistas vencem eleições no Brasil desde a era de Getúlio Vargas. O estímulo para o populismo é, hoje, muito superior a qualquer incentivo voltado à cooperação. Podemos continuar a elaborar ideologias e narrativas, mas comportamentos hostis à democracia continuarão a florescer em ambientes onde o desejo pela vitória — e pela derrota do oponente — sobrepõe-se à valorização do jogo.
Assim como ocorre no esporte, a posição de espectador nos permite vislumbrar como a dinâmica do jogo pode ser aprimorada. Essa é uma qualidade que o ator ou representante político raramente possui, uma vez que está imerso na urgência da disputa em si. As ideias são partes fundamentais do jogo, mas o campo onde a disputa se desenrola precisa ser, acima de tudo, um espaço que convide à convivência.
Nota
(1) HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2000.



