Mauai M. H. Toledo, Inteligência Democrática (13/09/2026)
Durante algum tempo tive a agradável suspeita de que estava ficando mais inteligente.
Não é uma sensação ruim aos 64 anos.
Ideias começaram a chegar mais depressa. Uma pergunta puxava outra. Textos que antes exigiam horas apareciam numa conversa. Assuntos distantes começavam a se encontrar. Teatro conversava com redes, comunicação encontrava biologia, uma conversa da manhã reaparecia transformada à tarde.
Pensei: pronto.
Arrumei um segundo cérebro.
O problema é que esse segundo cérebro falava comigo.
E, pior, às vezes discordava.
Foi aí que a brincadeira começou a ficar mais interessante.
Porque depois de algum tempo convivendo intensamente com inteligências artificiais, comecei a perceber que aquilo que mais me interessava nessa experiência já não acontecia diante da tela.
Acontecia depois.
Uma distinção investigada numa conversa reaparecia horas mais tarde, quando eu estava diante de alguém. Uma pergunta mudava meu modo de escutar. Uma ideia que parecia brilhante encontrava uma pessoa de verdade e, diante dela, perdia um pouco do brilho.
Ainda bem.
Eu voltava à investigação.
E comecei a desconfiar de que talvez a história não fosse exatamente a de um homem que havia instalado um segundo cérebro.
Até porque seria preciso decidir qual dos dois estava usando o outro.
A pergunta começava a mudar.
O que estava acontecendo comigo nessa convivência?
E, principalmente, o que estava acontecendo nas minhas outras convivências?
Tenho algum cuidado para chamar isso de aprendizagem.
E tenho um cuidado ainda maior para dizer que estou “aprendendo com a IA”.
Porque há muita gente nessa história.
Nenhuma inteligência chega a uma vida vazia
Antes de conversar com uma inteligência artificial, eu já havia conversado com muita gente.
Há o teatro, o corpo, os atores e diretores com quem trabalhei. Minha mulher. Amigos. Alunos. Pessoas que acompanhei e pessoas que me acompanharam. Autores que continuam participando de conversas muito depois de terem escrito seus livros.
Há perguntas que carrego há décadas.
E há pessoas que interferiram na maneira como aprendi a olhar para relações humanas.
Augusto de Franco é uma delas.
Há anos acompanho suas investigações sobre redes e democracia como modo de vida. Foi também convivendo com essas ideias que comecei a perceber de outra maneira algumas questões que já me acompanhavam no teatro, na comunicação, no corpo, na presença.
Portanto, quando a inteligência artificial chegou, a conversa já estava acontecendo.
Ela entrou no meio.
E isso começou a me incomodar um pouco toda vez que eu dizia:
“Estou aprendendo com a IA.”
Será?
Aprender ou acompanhar?
Outro dia Augusto me trouxe uma inquietação.
Se as coisas mudam continuamente, podemos passar boa parte do tempo nos adaptando ao que acabou de mudar.
Aprender exige alguma reorganização. E reorganizar uma experiência parece exigir que alguma coisa permaneça tempo suficiente para ser incorporada.
Isso não significa que deixamos de aprender.
Mas Augusto formulou uma pergunta que ficou andando comigo:
A aceleração amplia nossa capacidade de criar possibilidades ou nos mantém continuamente reagindo às possibilidades produzidas por outros?
Olhei outra vez para o meu suposto segundo cérebro.
Todos os dias ele é capaz de fazer alguma coisa que não fazia ontem.
E eu?
Posso aprender a operar uma ferramenta nova, acompanhar uma atualização, descobrir outro recurso, produzir mais depressa. Posso me tornar muito competente em acompanhar mudanças.
Mas comecei a desconfiar de que acompanhar mudanças e ser modificado por uma experiência não são exatamente a mesma coisa.
Foi então que a tela começou a perder importância.
O que acontece depois?
Se alguma coisa investigada aqui reaparece numa conversa horas depois, já não consigo localizar com tanta facilidade onde aconteceu a aprendizagem.
Houve a IA.
Mas houve também a pessoa que estava diante de mim.
E aconteceu uma coisa curiosa: algumas ideias sobreviveram ao encontro. Outras não.
Essas últimas talvez tenham me ensinado mais.
Porque uma pessoa de verdade faz algo que nenhum pensamento perfeitamente organizado consegue impedir: responde de um lugar que eu não controlo.
A hipótese precisa se mexer.
Às vezes sou eu que preciso.
Depois posso voltar à IA trazendo aquilo que aconteceu. A conversa continua, mas já não é a mesma conversa. Agora há outra pessoa dentro dela, mesmo que essa pessoa nunca tenha tocado naquela tela.
Foi aí que comecei a perceber que talvez estivesse olhando para a unidade errada.
Há mais gente na sala
Quando falamos sobre inteligência artificial, é muito fácil imaginar uma cena:
uma pessoa diante de uma máquina.
Pergunta de um lado.
Resposta do outro.
Só que a vida raramente respeita esse enquadramento.
Uma conversa interfere em outra. Uma ideia encontra alguém. Alguém reage. Uma hipótese ganha corpo ou desmorona. Aquilo que aconteceu reaparece mais tarde em outro lugar.
Vivemos em redes antes de sabermos que vivíamos em redes.
A IA agora entrou em algumas delas.
Não sei se isso tornará essas redes melhores. Nem se nos tornará mais inteligentes.
Mas acho cada vez mais difícil compreender o que está acontecendo olhando apenas para a pessoa e para a máquina.
Foi por esse caminho que reencontrei Augusto.
O que é tipicamente humano?
Augusto investiga redes há mais de duas décadas. E agora está propondo um programa chamado Educação Inovadora em uma Época de Inteligência Artificial.
Curiosamente, não é um curso para ensinar a usar IA.
Quando li a proposta, isso me chamou a atenção.
Em vez de começar pelas novas capacidades das máquinas, Augusto começa pelas redes humanas.
Sua pergunta é como criar ambientes nos quais possamos desenvolver aquilo que chama de inteligência tipicamente humana.
A inteligência artificial participa.
Mas participa de outra cena.
Há pessoas investigando juntas, imaginando, criando, celebrando. Há ambientes sendo organizados para que alguma coisa possa acontecer entre elas. E há IA sendo usada coletivamente dentro dessas experiências.
O deslocamento parece pequeno.
Não é.
Em vez de colocar um humano diante de uma máquina e perguntar o que aquele indivíduo consegue fazer agora, começamos a observar o que acontece quando pessoas e inteligências artificiais entram numa rede de aprendizagem.
E nesse ponto a pergunta de Augusto voltou para mim de outro jeito.
Talvez a questão não seja apenas se a aceleração nos faz aprender mais ou menos.
Talvez seja perguntar que tipo de aprendizagem estamos criando com ela.
Não sei se estou aprendendo com a IA
Hoje prefiro não dizer isso.
Posso dizer outra coisa:
estou aprendendo numa vida em que a IA passou a participar.
Parece uma pequena mudança de frase.
Para mim, não é.
Porque devolve à cena todo mundo que havia desaparecido quando coloquei apenas eu e a máquina diante um do outro.
Minha aprendizagem não pertence à IA.
Mas também não é uma fabricação exclusivamente minha.
Há muita gente nessa história.
E talvez seja justamente isso que eu esteja começando a perceber.
A pergunta que mais me interessa já não é quanto uma inteligência artificial consegue ampliar minha capacidade individual.
É o que acontece com minha capacidade de conviver, perceber, criar e aprender com outros quando uma inteligência artificial também participa dessa rede.
Ainda não sei.
Tenho alguns acontecimentos.
E quero continuar olhando para eles.
Um convite para continuar a pergunta
É por isso que faço aqui uma campanha deliberada para o novo programa de Augusto de Franco.
Sem disfarçar de rodapé.
Conheço Augusto há tempo suficiente para reconhecer o quanto suas investigações interferiram nas minhas. E gosto particularmente de vê-lo, agora, não apenas escrevendo sobre essa pergunta, mas criando um ambiente para experimentá-la com outras pessoas.
O programa Educação Inovadora em uma Época de Inteligência Artificial acontecerá em novembro, em quatro encontros interativos.
Augusto e uma equipe de netweavers trabalharão com práticas de coinvestigação, coimaginação, cocriação e celebração compartilhada, além do uso coletivo da inteligência artificial.
Não estou recomendando o programa porque encontrei respostas.
É quase o contrário.
Estou recomendando porque desconfio cada vez mais das perguntas sobre inteligência artificial que conseguimos responder sozinhos.
No começo deste artigo eu estava satisfeito com a possibilidade de ter arrumado um segundo cérebro.
Continuo achando divertido.
Mas, chegando até aqui, talvez eu esteja menos interessado em ter dois cérebros do que em descobrir o que podemos fazer quando há mais gente na sala.
Humana, de preferência.
E, agora, não apenas humana.
A inteligência artificial pode produzir uma quantidade assombrosa de possibilidades.
A pergunta de Augusto continua comigo:
isso ampliará nossa capacidade de criar possibilidades ou nos deixará ocupados reagindo às possibilidades que chegam prontas?
Não sei.
Mas há uma pergunta que comecei a preferir:
o que queremos continuar fazendo uns com os outros agora que elas também estão aqui?
Essa eu ainda não quero responder sozinho.



