Camus: a excomunhão pública
No último texto publicado aqui, trouxe alguns trechos e reflexões do capítulo 39 da biografia de Albert Camus escrita por Olivier Todd, especialmente em torno da preparação e do impacto inicial de O Homem Revoltado. A impressão que fica, conforme a leitura avança, é que aquele livro não foi apenas mais uma obra filosófica ou ensaística dentro do ambiente intelectual francês do pós-guerra. Ele toca num ponto muito mais profundo e sensível: a crítica às formas como revoluções, ideologias e projetos históricos acabam frequentemente justificando violência, autoritarismo e destruição em nome de um futuro supostamente redentor.
E talvez seja justamente aí que Camus ultrapassa um limite invisível para parte da intelectualidade da época. Porque o problema nunca foi apenas discordar de determinadas correntes políticas ou filosóficas. O problema é que Camus toca no núcleo moral da questão. Ele questiona a legitimidade de uma lógica histórica que aceita transformar pessoas concretas em peças sacrificáveis de uma promessa futura. E faz isso não a partir de uma posição conservadora, reacionária ou conformista — como tentam acusá-lo — mas justamente a partir de alguém profundamente marcado pela experiência da pobreza, da guerra, da resistência e da própria condição humana diante do absurdo.
O capítulo 40 da biografia talvez seja um dos momentos mais duros e reveladores de todo o livro porque mostra como a reação a Camus rapidamente deixa de ser apenas uma disputa de ideias e passa a assumir contornos muito mais pessoais, agressivos e destrutivos. Todd reconstrói de maneira impressionante o ambiente intelectual francês daquele período e, principalmente, a forma como Sartre, Jeanson e parte daquele círculo passam a operar uma espécie de excomunhão pública de Camus. E é impossível ler essas páginas sem enxergar ecos muito contemporâneos na forma como certos ambientes ideológicos ainda hoje funcionam: menos interessados em compreender ou debater o conteúdo real de uma crítica e muito mais empenhados em enquadrar moralmente quem ousa romper consensos internos.
O que mais chama atenção, no entanto, é a postura do próprio Camus diante disso tudo. Ele se defende, responde, argumenta, mas evita entrar completamente na lógica da guerra total. Existe nele uma tentativa permanente de preservar alguma coerência ética mesmo no conflito. Em muitos momentos, parece perceber que o ambiente já não comporta mais debate genuíno, apenas alinhamento ou destruição. E talvez por isso vá progressivamente se recolhendo, se afastando do tumulto intelectual parisiense e digerindo esse processo de outra maneira.
Todd consegue capturar isso de forma muito humana, mostrando não um Camus mítico ou idealizado, mas alguém profundamente afetado, cansado, angustiado e ao mesmo tempo incrivelmente firme na recusa de aderir ao espírito do tempo apenas para preservar pertencimento. É justamente essa dimensão que torna esses capítulos tão ricos hoje. Porque, mais do que uma polêmica literária ou filosófica dos anos 1950, eles ajudam a entender mecanismos humanos e políticos que continuam extremamente vivos no presente.
Abaixo, compartilho integralmente o capítulo 40 da biografia.
CAPÍTULO 40 - A “VEDETA” E O “ENCOURAÇADO” | Albert Camus - Uma vida. Olivier Todd
Camus entrega fragmentos de O homem revoltado às revistas antes do lançamento do livro, em outubro de 1951. Les Cahiers du Sud, pelos quais ele tem uma ternura desde a Ocupação, publicam seu capítulo sobre Lautréamont. Ele não fica surpreso ao ler, no hebdomadário cultural Arts de 12 de outubro, um artigo de André Breton injuriado. O combatente e papa do surrealismo vê em Camus um conformista: crime fundamental, ele critica “a obra mais genial dos tempos modernos”, a de Lautréamont! Os hebdomadários culturais adoram as polêmicas. Uma semana depois, Arts publica uma resposta de Camus. Diz não ser conformista ou resignado: “O essencial de meu esforço é demonstrar que esse niilismo, com que somos todos solidários, pelo menos em parte, é gerador de conformismo e servidão, e contrário aos ensinamentos, sempre válidos, da revolta viva.”
A discussão acre prossegue. O papa “conversa” com Aimé Patri em Arts em 16 de novembro e diz: “O que é esse fantasma de revolta que Camus se esforça por propagar e por trás do qual ele se abriga: uma revolta na qual se teria introduzido ‘a medida’?” Uma semana depois, nova réplica paciente de Camus excomungado. Segundo Camus, “Breton limita sua crítica filosófica insuficiente ao marxismo. [Breton] gostaria [...] que, na decadência em que o mundo se encontra hoje, só os marxistas fossem culpados; e é por isso que ele reconhece no meu livro o privilégio de ser capital, pois contém uma crítica do marxismo. Mas seria bonito demais. Não há um bom e um mau niilismo, há apenas uma longa e feroz aventura de que somos todos solidários “. Breton e seus fiéis continuarão a esgrimir contra Camus. No mundo intelectual, essa polêmica não surpreende: Breton sempre distribuiu notas boas e más. O rádio e os jornais dão conta dessas discussões.
Breton, tal como Aragon, é um dos raros autores vivos que Camus ataca em O homem revoltado, e a reprovação, em geral, lhe vem menos facilmente do que a admiração. Não há uma palavra sobre Malraux nesse ensaio. Camus o explica em particular. Malraux está muito vivo e Breton quase morto: “Não falei de Malraux em O homem revoltado porque me apoiei, para meus exemplos e minhas ilustrações, em obras já terminadas. O único vivo cuja atitude estudei foi André Breton, mas podemos considerar que o surrealismo já pertence à história. [...] Quanto a Malraux, ele está caminhando.” Alguns dias antes do lançamento de O homem revoltado, Jean-Claude Brisville almoça com Camus no restaurante do hotel Lutétia. Antes de deixá-lo, Camus lhe diz:
- Vamos apertar nossas mãos. Porque, daqui a alguns dias, não haverá mais muita gente para me estender a mão.
O livro começa bem. Colocação de 16.800 exemplares em 2 de novembro, reimpressão de 11.000 no dia 19 do mesmo mês, depois em 5 de dezembro, em 29 de fevereiro de 1952, em 9 de julho: 60.800 livros vendidos em quatro meses. Depois há uma redução, visto que a quinta reimpressão, de 5.500 exemplares, só ocorre em 16 de fevereiro de 1954. Camus não se surpreende com os ataques na imprensa de tendência comunista.
- É pena, seu livro está fazendo sucesso à direita! - diz-lhe Albert Béguin.
Camus acha o comentário grotesco. Se a direita afirmasse que a Terra é redonda, dever-se-ia negar? Os elogios de uma imprensa de direita mode- rada, limitando-se muitas vezes a resumir ou parafrasear os trechos consa- grados ao comunismo e a Marx, não o espantam.
Sua mãe quebra uma perna e Camus se precipita para Argel. “Cheguei sob uma chuva torrencial, bem argelina, que ainda perdura”, ele escreve a Francine. “Mamãe já tinha dado entrada na clínica. Só a deixei por algumas horas, para dormir. Foi operada esta manhã. Tudo correu bem. [...] Neste momento ela está dormindo e seu estado geral é excelente. Foi muito corajosa e sensata e eu a amo. [...] Quanto a mim, sinto-me cansado, mas suponho que tudo está melhor. É preciso dizer também que depois da publicação desse livro fiquei num estado horrível, que foi se agravando até estes últimos dias. Não sei se conseguirei suportar por mais tempo essa profissão nem essas provações solitárias.”
Satisfeito no entanto por ter “expulsado”, publicado o livro, Camus com frequência parece alegre, porque aliviado, e ao mesmo tempo inquieto quanto a seu futuro imediato. Expressou ideias importantes a seu ver e, com reservas, falou de si mesmo. A Maria, em 22 de novembro, manifesta sua preocupação: “É minha hesitação diante do que tenho a dizer ou a fazer agora. Há dias em que gostaria justamente de não ter o que dizer ou fazer. Talvez seja uma espécie de medo diante da minha vocação. Medo que nunca tive e que talvez me venha do cansaço, talvez também porque esteja vendo melhor que a exigência que me fez avançar até aqui não tem limites, a não ser o esgotamento e o fim. E no entanto sem essa exigência eu não seria nada e minha obra também não. Às vezes tenho vertigem de exaustão ao pensar no futuro.”
“Sem parecer, eu me confessei”, ele escreve no dia seguinte a Mamaine Koestler. Gostaria de viajar. Vislumbra uma ida a Londres. Uma foto dos gêmeos - meus dois palhaços” –, enviada por Mamaine, o encanta. Ela dis- se que seu capítulo preferido era “Revolta e arte”. O meu também, responde Camus. Mas a imprensa dá mais atenção ao conteúdo político do que às considerações literárias de O homem revoltado. Na época do realismo socialista, Camus analisou sua estética e, sobretudo, depois de A peste, liquidou o realismo, que é impossível: “Para ser de fato realista, uma descrição está condenada a ser infindável, [...] o realismo é a enumeração indefinida.”
No Le Figaro littéraire de 24 de novembro, Guéhenno afirma que Camus isolou um grande tema: “Ele o deve à sua sinceridade, a um sofrimento autêntico, a um sentimento profundo da baixeza e da grandeza deste tempo.” Em seu elogio, Guéhenno associa Malraux e Camus: “De um título ao outro, de A condição humana a O homem revoltado, desenvolve-se todo um drama da inteligência francesa.” Camus é um humanista. Algumas de suas referências, Sade e Lautréamont, incomodam Guéhenno, mas Camus está “no grande caminho”. Malraux está justamente fazendo seu serviço de imprensa de As vozes do silêncio, na Gallimard:
- Albert Camus teve razão em demolir Breton e mesmo Rimbaud diz ele.
A esquerda intelectual não comunista se manifesta no France-Observateur, dirigido por Claude Bourdet, despojado do Combat. O Obs, hebdomadário em formato pequeno, sem fotos, tipografia sóbria, um pouco calcado no inglês New Statesman and Nation, determina o bom tempo e a chuva ideológicas na esquerda não comunista. Bourdet em pessoa dedica dois longos artigos, favoráveis em linhas gerais, a O homem revoltado, nos dias 13 e 20 de dezembro. Mas Camus e alguns de seus amigos dão maior importância a uma nota no Obs elogiando um artigo, desagradável com respeito ao escritor, do comunista Pierre Hervé, em La Nouvelle Critique, revista comunista. Suscetíveis, Camus e seus fiéis retêm a nota mais do que os artigos do diretor do Obs.
Em O homem revoltado, Bourdet “vê o resultado de um imenso trabalho de dissecação” - cumprimento -, “de compilação” análise, no qual sentimos simultaneamente eclodir, a cada linha, a extrema paixão do autor por um tema incorporado à sua própria vida”. Em seu segundo artigo, Bourdet aprova “Camus por ter escrito antes a história da revolta ideológica, aquela que não se realiza diretamente nos acontecimentos coletivos, para passar em seguida à revolta histórica, aquela em que as ideias e os acontecimentos estiveram intimamente ligados”. Camus mostra “excelentemente” a principal contradição do marxismo entre hipóteses e predições. Ele recebe de Bourdet o brevê de intelectual de sua contradição esquerda não comunista. Suas cartas de credenciamento à esquerda não comunista leiga, republicana e democrática parecem impecáveis. Bourdet e Camus, no entanto, distanciam-se quanto a um ponto, que não aflora a propósito de O homem revoltado: para Bourdet, deve-se trabalhar com os comunistas franceses, apesar de sua submissão aos soviéticos, e Camus recusa essa posição.
O escritor espera os estudos das revistas mensais e o que a redação de Les Temps modernes não deixará de lhe dedicar. A secretaria da revista recebeu as provas de O homem revoltado em setembro. Novembro e dezembro se passaram: nenhum artigo, mas Camus não está preocupado. A redação e a administração da revista são simpaticamente caóticas. Aqui, Sartre reina sem governar. Ali, Simone de Beauvoir, escrupulosa, mostra-se melhor organizadora e editora. Les Temps modernes publicou em agosto de 1951 “Nietzsche e o niilismo”, de Camus, como artigo de capa.
Camus sempre foi bem-tratado pela publicação mensal, que dedicou dois longos artigos, e de colaboradores importantes, A peste.O primeiro, de Étiemble, defendia Camus contra uma crítica da Pravda. Com reservas, reconhecia que Camus renunciava “aos recursos e às facilidades do realismo”. Étiemble não aceitava todas as conclusões de A peste, mas manifestava sua “simpatia pelo autor, por suas intenções, sua retidão, seu calor humano”. Jean Pouillon, por sua vez, tratou do otimismo de Camus. A peste era “um êxito perfeito”. Pouillon também discutia alguns aspectos do romance-relato de Camus, mas rendia “homenagem” – vocabulário acadêmico não frequente em Les Temps modernes - a “seu talento literário”. Segundo Pouillon, a “mensagem” de A peste era clara e humanista. Via em Camus uma “afirmação da exterioridade do mal”, que o expunha naturalmente a uma crítica marxista. Camus atrairia os cristãos: “Eles podem sempre pensar”, explicava, “que a revolta se transformará em resignação ou manterá a virulência apenas suficiente para constituir o que se chama de uma ‘bela alma’ e que o absurdo encontrará uma explicação na teologia.” Os dois artigos exprimem reservas, mas seus autores saúdam em Camus um caráter integro, um escritor talentoso e um pensador de quem não somos obrigados a aceitar todos os pontos de vista sobre o mundo e a história. Camus não tem nenhuma razão para pensar que a família sartriana possa atacá-lo.
Em novembro e dezembro de 1951, ao longo das reuniões do conselho de redação, em seu escritório da rua Bonaparte, no domingo à tarde, Sartre solicita um voluntário para resenhar O homem revoltado. A amizade leva a não falar mal de um livro de Camus; por outro lado, ninguém acha bom aquele livro. O caso se arrasta.
O sucesso comercial do livro se afirma, mas Camus se interroga sobre o número de compradores que de fato o penetram. Fevereiro de 1952: “O homem revoltado é um livro que vende, mas que não se lê ou que se lê pouco”, ele escreve. “Se provocou agitações, elas não aparecem. Deu origem a bolhas, mas que arrebentam logo.” Camus concede entrevistas, ora insignificantes ora esclarecedoras. À La Gazette des lettres ele declara: “Não acredito, no que me concerne, nos livros isolados. Quanto a certos escritores, parece-me que suas obras formam um todo, em que cada uma se esclarece pelas outras e em que todas se olham.”
Em 10 de fevereiro de 1952, Jean Amrouche lhe mandou uma carta meio aprovadora, portanto meio crítica. Camus responde com uma frase de esquiva: “Gostaria de lhe falar sobre isso um desses dias.” Também se justifica: “Os acontecimentos da África do Norte fazem pesar sobre mim uma angústia que não me deixa.” Camus se interessa pouco pelo problema da Indochina. Em compensação, preocupa-se com as questões da África do Norte, com os protestos de nacionalistas, com as ameaças que a administração faz pesar sobre o líder Messali Hadj. Sartre, por sua vez, interessa-se mais de perto pelos acontecimentos do Tonkin e por uma guerra de guerrilha contínua; a opinião pública francesa também.
Em 22 de fevereiro, sempre presente no front espanhol, Camus encontra Sartre na sala Wagram para apoiar um apelo em favor de sindicalistas espanhóis condenados à morte pelos tribunais franquistas. Camus até sugeriu, apesar de sua polêmica, que, com seus amigos Char, Guilloux e Silone, Breton figurasse na tribuna. Camus encontra Sartre na rua. Eles tomam um trago. Embaraçado, “chateado”, conforme diz aos amigos, Sartre informa Camus: a crítica de Les Temps modernes não será favorável. Sartre toma a decisão depois de meses de silêncio: Francis Jeanson tratará do livro. Segundo o Castor, Sartre deseja então uma crítica firme, mas cortês. Afinal, uma dezena de anos antes, em sua “Explicação de O estrangeiro“, Sartre só alinhou cumprimentos. Março: rotina dos homens de letras, Camus endereça a Sartre um manuscrito de Frankin, redator-chefe de uma revista belga mensal, Démenti [Desmentido], que Sartre, não sacralizando nem seus manuscritos nem os dos outros, deixa de lado. Camus não está sozinho no mundo. Seu ensaio é objeto de felicitações avulsas interessantes. Hannah Arendt lhe escreve: “Li O homem revoltado de que gosto muito.”15 O escritor polonês Witold Gombrowicz, sentindo-se enterrado vivo na Argentina, depois de ler O homem revoltado pede a Milosz que mande seus livros para Camus, maneira de dizer: “Creio que estamos na mesma batalha.”
Durante as férias de Páscoa de 1952, Camus, esperando em Le Chambon a entrega de Les Temps modernes, pesca e faz confidências a seus “Caros Frente Verso”, Janine e Michel. Perdeu uma Jornada Jules Romains nas redondezas. O acadêmico estava dando uma conferência sobre o despovoamento dos campos. Camus se diverte: “Que destino o nosso, literatos!” Zomba de si mesmo e de seu local de nascimento: “Parece que em Mondovi estão me preparando um quiosque. Espero que seja de música.” Longe de Paris, Camus sente-se melhor: “Tudo está bem por enquanto, salvo meu trabalho e meu estado de alma. Nado como a siba no escuro e represento as Almas mortas.”
Francis Jeanson, filósofo, é um exegeta do pensamento de Sartre. Seu artigo sobre O homem revoltado, vinte páginas de uma violência inaudita, “Albert Camus ou a alma revoltada”, sai no número de Les Temps modernes de maio de 1952, na seção “Exposés” [Exposições]. Jeanson começa a reprovar Camus pelas apreciações favoráveis de Émile Henriot e de Jean Lacroix no Le Monde, e de Bordet no Obs, em nome de um princípio: cada um seria responsável por suas críticas. Jeanson, pérfido de início: “Em lugar de Camus, parece-me, apesar de tudo, que eu ficaria preocupado.” Já na segunda parte ele se torna insultante: “Essa satisfação geral explicar-se-ia por uma certa inconsistência de seu pensamento indefinidamente plástico e maleável, apto a receber muitas formas diversas?” Esse pensamento camusiano exprime “um humanismo vago, preciso extrato da porção necessária de anarquismo”. Jeanson louva a forma: “De um ponto de vista estritamente literário, esse livro é uma realização quase perfeita.” Mas o próprio estilo, em sua excelência, denuncia o conteúdo: “É de temer que a arte aqui tenha ultrapassado o protesto.” Jeanson o admite: não gosta, nessa arte tão segura de si, de sua “sede de medida”. Revê a obra de Camus. A peste não era o que outros colaboradores de Les Temps modernes acreditavam. Já A peste, escreve Jeanson, era uma “crônica transcendental”. Diferentemente de O estrangeiro - o mundo então era visto por “uma subjetividade concreta”, que se descobria “estrangeira” existindo entre outras subjetividades concretas -, A peste “contava acontecimentos vistos de cima por uma subjetividade fora da situação, que não os vivia ela mesma e se limitava a contemplá-los”. O artigo de Jeanson é moldado em 50% nessa massa grumosa. A peste, ele afirma, é um romance “metafísico“. Esses itálicos de Jeanson tornam mais pesado o rótulo infamante. O romance de Camus veicula uma moral de Cruz Vermelha. Pela cortesia prevista por Sartre, um crítico poderia ter feito melhor.
Camus, segundo Jeanson, é incapaz de passar da revolta metafísica à revolta histórica. Já na sétima página de seu artigo, Jeanson dá com os horrores heterodoxos de Camus. Como ousou falar com comiseração de Luís XVI, que além do mais! - o leva a pensar na Paixão de Cristo?! Jeanson não suporta que Camus tenha questionado Hegel, e sobretudo Marx, mesmo distinguindo o analista do profeta. O ensaísta “chega a recusar qualquer papel ao histórico e ao econômico na gênese das revoluções”. Sua empreitada, em suma, visa a reduzir o conceito de “revolução” à “divinização do homem”. Condenação definitiva: “Evidentemente, Camus não acredita nas infraestruturas.” Jeanson situa o âmago do debate: “Camus pretende estabelecer que a doutrina de Marx conduz logicamente ao regime stalinista, mas é obrigado finalmente a se contentar em nos revelar, sob formas mais ou menos sutis, que Stalin fez stalinismo.” Jeanson não aceita as simpatias de Camus pelo sindicalismo revolucionário ou pelos social-democratas dos países escandinavos e ele pratica o retrospecto crítico: no limite, em Camus, suas essências precederiam sua existência; um Camus tortuoso sempre esteve em Camus, salvo talvez num breve momento, durante a Ocupação: “A Resistência, todavia, teve de abrir uma brecha no sistema, por onde penetraram algumas ilusões: com a Libertação, Camus acreditou-se à vontade na história, a ponto de empreender moralizá-la.” Jeanson reencaixa o político no filosófico: “A nossos olhos incorrigivelmente burgueses, é bem possível que o capitalismo ofereça uma cara menos ‘convulsa’ do que o stalinismo: mas que cara ele oferece aos trabalhadores das minas, aos funcionários sancionados por participação em greve, aos malgaxes torturados pela polícia, aos vietnamitas ‘lavados a napalm’, aos tunisianos ‘rastelados pela Legião?”
Conclusão da análise, mais salgada do que doce: não é o caso de atribuir a Camus uma indiferença para com malgaxes, vietnamitas, tunisianos, no entanto ele se revela, como que em si mesmo, portador de uma pseudofilosofia e de uma pseudo-história das revoluções: “O homem revoltado é antes de tudo um grande livro que não deu certo.” A carga de Jeanson desemboca num pedido: “Imploramos aqui a Camus que não ceda ao fascínio e que reencontre em si aquele tom pessoal - pelo qual sua obra continua sendo, apesar de tudo, insubstituível.”
Les Temps modernes, por intermédio de Jean Cau, secretário de Sartre, leva ao conhecimento de Camus, perplexo, que a revista, é claro, publicaria uma resposta dele. Camus burila as dezesseis páginas de sua réplica. Datada de 30 de junho, ela é publicada no número de agosto de Les Temps modernes. De saída, em sua primeira versão, Camus nomeia Jeanson. Depois; risca seu nome. Aplica na polêmica literária o princípio de certos homens políticos, como De Gaulle, que anulam o adversário fazendo alusão a ele sem tocar em seu nome. Segundo um hábito quando escreve aos jornais e revistas, Camus começa seu artigo por um “Senhor Diretor” que exaspera Sartre. Segundo Camus, o diretor é solidário com o artigo. O ensaísta escolhe o registro da dignidade irônica. As aprovações que acolheram O homem revoltado? “Não se decide sobre a verdade de um pensamento con- forme ele seja de direita ou de esquerda e menos ainda conforme o que a direita ou a esquerda decidam fazer. Se fosse assim, Descartes seria stalinista e Péguy abençoaria o sr. Pinay.” Camus ousa escrever, em 1952: “Se, enfim, a verdade me parecesse estar à direita, lá estaria eu.” Ele informa aos leitores de Les Temps modernes que foi injuriado em Rivarol, hebdomadário de extrema direita. Quanto à direita clássica, Claude Mauriac o ataca em La Table ronde. Camus observa que muitos jornais direitistas “saudaram com frequência os livros dos autores de Les Temps modernes, sem que estes últimos fossem acusados de tomar café da manhã com o sr. Villiers [presidente do Conselho Nacional do Patronato Francês]”. Ferido, Camus pretende ferir. Os cumprimentos de Jeanson pela felicidade do estilo de O homem revoltado? “Destacarei apenas”, diz o escritor, “o quanto é desairoso para os escritores do progresso dar a entender que o belo estilo é de direita e que os homens de esquerda têm o dever, por virtude revolucionária, de escrever algaravia e gíria.” Camus finge não ter tanta certeza quanto Jeanson de seu êxito estético: “Se é verdade que meus pensamentos são inconsistentes, é bom escrevê-los bem para limitar os estragos. Suponha-se, com efeito, sermos obrigados a ler pensamentos confusos em estilo lastimável, seria o exílio!” Camus lamenta que se utilizem os escritos canônicos de Hegel e Marx para fazer de seu livro “um manual anti-histórico e o catecismo dos abstencionistas”. Observa que Les Temps modernes recusa-se a ver agora uma evolução, no sentido de uma solidariedade e da participação, de O estrangeiro a A peste. Camus empreendeu com O homem revoltado um estudo do aspecto ideológico das revoluções e vê nas do século XX um movimento de divinização do homem. Acumulando os gracejos, ele corta todas as pontes, como Jeanson: “A economia é nosso lugar-comum [...]. Centenas de volumes e de publicações chamam a atenção de um público muito paciente para os fundamentos econômicos da história e a influência da eletricidade sobre a filosofia. O que Les Temps modernes faz todos os dias com tanta boa vontade, por que eu haveria de refazer? É preciso se especializar.”
Para o escritor, o artigo de Jeanson quer “colocá-lo fora do circuito mais uma vez”. Camus quis mostrar com seu livro que “o anti-historicismo puro, pelo menos no mundo de hoje, é tão indesejável quanto o puro historicismo”. Sua obra não nega a história - isso não teria sentido. Ele critica a atitude que visa a fazer da história um absoluto. Camus não renuncia à eficácia. Jeanson joga-lhe na cara “indochineses, argelinos, malgaxes e trabalhadores das minas, numa confusão”. De fato, Jeanson fala dos vietnamitas e tunisianos. Camus ouviu “argelinos” - compreende-se por quê. “Esse argelinos dos quais ele faz seu pão de cada dia foram, até a guerra, meus camaradas num combate bastante desconfortável.” Pouca gente em Paris sabe que Camus foi membro do partido comunista, que ele teve uma simpatia ativa pelos nacionalistas messalistas e contra o partido. Camus lembra uma nota de seu livro: “Digo textualmente que Marx misturou em sua doutrina ‘o mais válido método crítico e o mais contestável messianismo utópico.” Ele levanta a voz e ataca - sem nunca escrever “Sartre” – “esses intelectuais burgueses que querem expiar suas origens, mesmo que ao preço da contradição e de uma violência feita à sua inteligência”. Ele afirma uma terrível e incessante liberdade. Então, dirige-se ainda ao Senhor Diretor e conclui que está “um pouco cansado” de se ver, assim como a “velhos militantes que nunca recusaram nenhuma das lutas de seu tempo, receber sem trégua lições de eficácia por parte de censores que nunca colocaram nada além de sua poltrona no sentido da história”. Mensagem codificada: nem mesmo um leitor em cada cem mil sabe que se trata aqui de uma alusão à libertação da Comédie-Française por um Sartre adormecido na orquestra em 1944.
Questionado e irritado, Sartre sente-se obrigado a responder. Redige dezenove páginas corrosivas, misturando considerações pessoais e críticas essenciais. Sartre pratica a excomunhão com mais verve do que Breton. Excomunhão maior da obra, depois excomunhão menor do homem. Sartre começa quase ternamente. Camus trata-o de Senhor Diretor. Sartre, simples, diz: “Meu caro Camus, nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela.”
Não é Camus que vai lhe ensinar o subjuntivo: “Eu teria preferido que nossa divergência atual se referisse ao fundamental e que não se misturasse a ela um certo ressaibo de vaidade ferida [...] Você me questionou tão deliberadamente e num tom tão desagradável que não posso guardar silêncio sem perder a dignidade.” Anuncia que vai tratar Camus, pela primeira vez desde que o conhece, sem o poupar. Sartre censura o caráter de Camus, sua “suficiência sombria”, sua “vulnerabilidade”, “sua morna desmedida”. Todos esses defeitos impediram Sartre até então de lhe dizer umas verdades. Picador, Sartre, que adora brigas, encontra fórmulas arrasadoras: “Você fez seu Termidor.” Sartre, por sua vez, dá nome ao adversário: “Onde está Meursault, Camus? Onde está Sísifo? Onde estão hoje aqueles trotskistas de coração, que pregavam a revolução permanente? Assassinados, provavelmente, ou no exílio.” Sartre bem sabe que o exílio é um tema camusiano. “Uma ditadura violenta e cerimoniosa”, prossegue o Diretor, “instalou-se em você, que se apoia numa burocracia abstrata e pretende fazer reinar a lei moral.” Sartre detesta o lado professor, pregador, de Camus, que se revolta mais facilmente contra o Estado comunista do que contra si mesmo. Não é um argumento, mas uma flecha: as demonstrações de Camus são professoras e sua serenidade é crispada. Tom dissimulado, familiar, superior, como de um adulto que se dirigisse a uma criança: “Diga-me, Camus, por que mistério não se podem discutir suas obras sem despojar a humanidade de suas razões de viver?” Camus chamou-o de burguês. Quem é ele, então, Camus, o escritor estabelecido? “Não acho que você seja o irmão do desempregado comunista de Bolonha ou do diarista miserável que luta na Indochina contra Bao Dai e contra os colonos [...]. Pode ser que você tenha sido pobre, mas não é mais; é um burguês, como Jeanson e como eu.” “Podem ser” é maldade, pois Sartre conhece as origens proletárias de Camus. Sartre não para mais: “Você se assemelha de muito longe a são Vicente de Paula ou a uma irmã dos pobres [...]. Veja, ouvi demasiados discursos paternalistas: aceite que eu desconfie desse tipo de fraternalismo. E a miséria não o encarregou de nenhuma missão.” Camus, assim como qualquer outro, não tem o direito de falar em nome do proletariado.
Sartre vislumbra chantagem no método da epístola camusiana: “Não lhe reprovo sua pompa, que lhe é natural, mas a facilidade com que você maneja sua indignação.” A resposta de Camus lhe parece por demais escrita. Com frequência cintilante, a resposta de Sartre não é atamancada, mas o artigo vai e vem, em todos os sentidos, retoma diferentes temas, passa da personalidade de Camus à de Jeanson ou às ideias de Marx: “Você me chama de Senhor Diretor, quando todos sabem que temos ligações há dez anos: é apenas, admito, um procedimento; você se dirige a mim, ao passo que seu propósito evidente é refutar Jeanson: é um mau procedimento. Seu objetivo não é transformar seu crítico objeto, em morto? Fala dele como de uma sopeira ou de um bandolim; com ele, nunca. Isso significa que ele se colocou fora do humano. Em você, os resistentes, os presos, os militantes e os pobres o metamorfoseiam em pedregulho.” Jeanson desumanizou Camus, Sartre o coisifica. Tal como Jeanson, Sartre tira o chapéu para o escritor: “Seus méritos literários não estão em discussão; pouco importa que você saiba escrever melhor.” Confissão meio admirativa, um boxeador profissional da literatura cumprimenta o outro profissional, mas prossegue: “E que ele [Jeanson] saiba raciocinar melhor ou vice-versa: a superioridade que você se atribui e que lhe dá o direito de não tratar Jeanson como um ser humano deve ser uma superioridade de raça.” Sartre se desenfreia: “E se seu livro atestasse simplesmente sua incompetência filosófica? Se ele fosse feito de conhecimentos colhidos às pressas e de segunda mão? [...] E se você não estivesse raciocinando muito corretamente? Se seus pensamentos fossem vagos e banais?” O agrégé da École Normale é deliberadamente ferino: “Terei em comum com Hegel pelo menos o fato de você não ter lido nem um nem outro. Mas que mania você tem de não ir às fontes [...] não ouso aconselhá-lo a recorrer a O ser e o nada, a leitura lhe pareceria inutilmente árdua: você detesta as dificuldades de pensamento e apressa-se em decretar que não há nada a compreender para evitar de antemão a crítica de não ter compreendido.”
Sartre sente-o mais do que Jeanson: o caso dos campos soviéticos é fundamental para Camus. Sartre lembra o mau aluno de que ele, Sartre, tomou posição contra os campos de concentração: “Sim, Camus, tal como você, acho esses campos inadmissíveis: mas igualmente inadmissível é o uso que a ‘imprensa chamada burguesa’ faz deles a cada dia.” Sartre não voltará a falar com muita frequência no gulag. Eis a principal linha de ruptura entre Camus e Sartre. Sartre não aprova nem o Leste nem o Oeste: “Na minha opinião, o escândalo dos campos de concentração questiona todos nós. Você e eu. E todos os outros: a cortina de ferro é apenas um espelho e cada uma das metades do mundo reflete a outra metade. A cada volta da porca aqui corresponde uma volta do parafuso lá, e afinal, aqui e lá, somos os parafusadores e os parafusados.” Dialética sartriana: aos horrores do mundo comunista correspondem crimes igualmente infames do mundo capitalista.
Naqueles meses, Sartre dá uma guinada política, numa série de artigos, “Les communistes et la paix” [Os comunistas e a paz], que não irá terminar: em julho, outubro e novembro eles enquadram a polêmica com Camus em Les Temps modernes. No plano teórico, há três anos, depois do fracasso da experiência do RDR, com Camus, Sartre engasta o existencialismo no marxismo. Ou vice-versa. Já no início do ano, ele se reaproximou dos comunistas. Sartre, o homem que acorda todas as manhãs perguntando-se que clamor deveria lançar por um determinado perseguido, apresentou ao Presidente da República, Vincent Auriol, uma petição em favor de Henri Martin. Aquele marinheiro revoltado pela guerra da Indochina redigiu panfletos de protesto e foi condenado a cinco anos de prisão. O caso Henri Martin tornou-se um grande assunto dos progressistas franceses. Camus recusou associar-se a suas diligências, apesar de julgar escandalosas as sanções contra Henri Martin. Para Sartre, qualquer episódio, microscópico ou macroscópico, da oposição planetária dos Estados Unidos e da URSS deve ser visto à luz da divisão do mundo: “O caso Henri Martin torna-se Truman contra Stalin.” Quando o primeiro artigo referente a Camus aparece em Les Temps modernes, Sartre está passando uma temporada na Itália. Em Paris ocorrem manifestações contra a vinda do general Ridgway, nomeado, após uma passagem pela Coreia, comandante em chefe das forças aliadas na Europa, no Shape. Parisienses manifestam-se aos gritos de “Ridive a Peste“: Wilfred Burchett, jornalista australiano, companheiro de estrada do PC, garante que os americanos utilizaram armas bacteriológicas na Coreia. Uma tentativa de greve geral na França fracassou. Para Sartre, o PCF, apesar da imbecilidade e do dogmatismo de seus intelectuais, representa a classe operária. Quanto à URSS, apesar dos episódios deploráveis do stalinismo, ela ainda oferece a imagem do socialismo. Para Camus, os crimes do totalitarismo devem ser denunciados sem considerandos ou atenuantes. Ele acha que Sartre se coloca numa perspectiva de longo prazo. Para Sartre, todo anticomunista “é um cachorro”. O caso Camus é secundário para ele. Vários colaboradores de Les Temps modernes, sobretudo Claude Lefort, Étiemble e Maurice Merleau-Ponty, farão reservas quanto às posições políticas de Sartre. Étiemble reprova-o antes de tudo por ter silenciado no momento da perseguição antissemita lançada por ocasião do “compló dos aventais brancos” no início de 1953.
Na primavera e no verão de 1952, o confronto na Coreia lança sua sombra sobre todos os debates políticos nacionais e internacionais e sobre a vida literária parisiense. Apesar das negociações em curso, os americanos enviam em junho quinhentos bombardeiros às barragens do Yalu, para obrigar chineses e norte-coreanos a uma troca de prisioneiros. O maniqueísmo é tentador, e Sartre não o economiza. Condena Camus, que não toma partido como ele, em todas as frentes. Bem, é claro, ele cumpre seus deveres quanto à tirania de Franco ou a política colonial francesa. Mas, vejam só, Camus está enredado com a guerra da Indochina: “Se for para aplicar seus princípios”, declara Sartre, “os vietminh são colonizados portanto escravizados, mas são comunistas portanto tiranos.” Implícita, outra ampla questão histórica à qual nem Sartre nem Camus respondem, mas este último se mantém em desconfiada prudência: os comunistas vietnamitas serão em primeiro lugar nacionalistas ou antes de tudo comunistas, dispostos a sacrificar outros partidários da libertação indochinesa? Sartre se constitui, por sua vez, em prodigalizador de lições: “Para merecer o direito de influenciar homens que lutam, é preciso primeiro participar de seus combates, é preciso primeiro aceitar muitas coisas, quando se quer tentar mudar algumas delas.” Sartre não tem a consciência pesada, não está de modo algum envenenado pela vergonha, não se assemelha a Camus, cujas condenações, conforme atesta o diretor de Les Temps modernes, anulam umas às outras. Estocada do matador: “Você se condenou a condenar Sísifo.”
De repente, como se, diferentemente de Jeanson, ele desejasse deixar uma porta aberta, Sartre se suaviza para solidificar, mais do que anular, uma amizade; elogioso, professor comovido por um aluno que não é mais de sua classe, se é que algum dia já foi, ele resume seu Camus: “Você foi para nós - amanhã pode ser ainda a admirável conjunção de uma pessoa, de uma ação e de uma obra.” Quanta nostalgia! “Era 1945: descobríamos Camus, o resistente, tal como havíamos descoberto Camus, o autor de O estrangeiro. E, quando comparávamos o redator do Combat clandestino com o Meursault que levava a honestidade ao ponto de recusar-se a dizer que amava sua mãe, e sua amante, e a quem nossa sociedade condenava à morte, quando sabíamos, sobretudo, que você não deixara de ser nem um nem o outro, essa aparente contradição nos fazia avançar no conhecimento de nós mesmos e do mundo, você não estava longe de ser exemplar.” Nós é Sartre, que tem o talento das notícias necrológicas enviadas enquanto os interessados estão vivos: “Pois você resumia em si os conflitos da época e os superava por seu ardor em vivê-los. Você era uma pessoa, a mais complexa e a mais rica: o último e mais bem-vindo dos herdeiros de Chateaubriand e o defensor aplicado de uma causa social.” Lírico, esse Sartre matador: “Você tinha todas as possibilidades e todos os méritos, pois unia o sentimento da grandeza ao gosto apaixonado pela beleza, pela alegria de viver no sentido da morte.” Depois de afirmar que Camus pensador permanece na tradição clássica francesa, hostil à história desde Descartes, Sartre volta ao homem Camus. Deixa-se levar pela melancolia, para melhor rejeitar seu adversário: “Como o amávamos então. Também éramos neófitos da História e nos submetemos a ela com repugnância, sem compreendermos que a guerra de 1940 era apenas um modo da historicidade, nem mais nem menos do que os anos que a haviam precedido. Aplicávamos a você as palavras de Malraux: Que a vitória caiba aos que fizeram a guerra sem a amar.” Perspectiva ou curiosa telescopia: antes da Segunda Guerra Mundial, Sartre e Simone de Beauvoir, pacíficos passantes, viam a história se fazer enquanto Camus se engajava.
Reinvestindo contra Camus escritor, esquecendo-se de que cantou os méritos de A peste e publicou dois artigos ponderados, mas favoráveis em Les Temps modernes, Sartre, furioso, ataca o romance de Camus e o condena retroativamente por ser uma “mistificação”: os micróbios de A peste são os alemães. Sartre releu as passagens de Bodas. Tocado para além de suas condenações, tenta mais uma vez compreender Camus: “Imagina-se que as circunstâncias de sua vida, mesmo as mais dolorosas, o elegeram para testemunhar que a salvação pessoal era acessível a todos.” Sobre A peste e Bodas, sobre o “ódio de Deus” que, segundo Sartre, aparece nos livros de Camus, os arroubos do diretor de Les Temps modernes são muito bonitos, mas incompletos. Mesmo levando em conta as palavras por parte de Sartre, nenhum personagem de escritor, a não ser Paul Nizan, parece emocioná-lo tanto.” A propósito de Nizan, tal como de Camus, Sartre utilizará a palavra “exemplar”.
Mas é preciso não se enternecer. A história passa antes dos homens, e passa acima. Portanto, mais uma vez Sartre mergulha Camus no idealismo, pois ele teria achado que a história estava errada. É de fato uma necrologia antes da morte biológica e enterro do suspeito: “Sua personalidade”, afirma Sartre, “que foi real e viva enquanto o acontecimento a nutria torna-se uma miragem; em 1944 ela era o futuro, em 1952 é o passado, e o que você acha a mais revoltante injustiça é que tudo isso lhe venha de fora e sem que você tenha mudado.” Assassinato: “Você já vive apenas pela metade entre nós.” Sartre conhece Camus, sua suscetibilidade, igual à de Breton: “Se está me achando cruel, não tenha medo: logo falarei de mim, e no mesmo tom.” Já está pensando em redigir Les Mots [As palavras). Confissão que não é apenas de um literato: “Você é completamente insuportável, mas apesar disso é meu ‘próximo’ pela força das circunstâncias.” Sartre não consegue choramingar. Nos maus ventos da história em 1952, a sorte de um Camus, de suas ideias ou de sua ausência de ideias pouco importa. Então o professor Sartre golpeia com as últimas verdades o mau aluno Camus: “Marx nunca disse que a história teria um fim [...] falou apenas do fim de uma pré-história.” Sartre exclui da história Camus, “abstração de revoltado”. Se Camus quiser responder a Sartre, Les Temps modernes estarão abertos. Sartre anuncia que irá parar nisso: “Eu disse o que você foi para mim e o que é agora. Mas, seja o que for que você possa dizer em resposta, recuso-me a combatê-lo.” Última frase da réplica incendiária do Senhor Diretor: “Espero que nosso silêncio faça esta polêmica ser esquecida.” Belo fim. Mas Jeanson faz questão da última palavra. Acrescenta um novo texto, desta vez de vinte e nove páginas, sob um título crepuscular: “Pour tout vous dire...” [Para lhe dizer tudo...). A tourada no entanto parecia terminada. O picador volta à arena. Curioso mimetismo, Jeanson imita Sartre e Camus. Reafirma alguns insultos, volta ao “tom sempre um pouco nobre demais [...] a monótona empáfia e o parti pris de grandeza” revelado em O homem revoltado e imita Sartre: “Você falava de tão alto! Não estou muito habituado a conversar com os oráculos.” Camus se imobiliza numa postura marmorea, julga Jeanson, que também decreta que Camus se ocupa menos dos homens do que de Deus. Ele quer acabar com o Justo, o Puro, o Solitário, o falso revoltado. Jeanson parafraseia Sartre: “Assim você se retira da história para melhor enfrentá-la.”
O primeiro artigo de Jeanson foi comentado na nata literária e jorna- lística de Paris - aranhas dentro de um pote, para Balzac. Jeanson lembra esse mundo: “No momento em que eu criticava seu livro, não só constatei por parte de várias pessoas como também senti em mim um curioso fenômeno de inibição: a sensação de que a seu respeito os direitos da crí- tica não eram exatamente os mesmos que a respeito de qualquer outro. A você devíamos, em suma, considerações especiais.” Jeanson manifesta a satisfação do crítico pouco conhecido atacando um escritor reconhecido: ‘Albert Camus’ por essência, O Grande Sacerdote da Moral absoluta [...] pareceu-me que você era tabu. Ora, não gosto dos tabus e detesto em mim a tentação, às vezes, de respeitá-los.” Jeanson deixa transparecer o prazer da crítica massacrante.
De um lado e de outro, nessa polêmica a forma prevalece em muito sobre o conteúdo. Para além dos ataques pessoais ou literários, o cerne continua sendo a divergência quanto ao comunismo, o “socialismo real”. Sartre ainda acredita no socialismo de fisionomia humana, para o futuro. Não adere nem ao stalinismo nem ao PCF, mas não quer romper. Acredita na empreitada revolucionária que o PCF acabaria por incorporar. Engaja-se a seu lado, persuadido de que é um homem histórico, inserido no contexto, herético, não apóstata diante do comunismo. Sartre e Camus voltam a representar, a dois, as tragédias e comédias das revoluções de 1789 e de 1917. Sartre é jacobino e bolchevique, Camus quase girondino e menchevique. Sartre proferiu seu grande insulto a Camus: burguês! Por parte do primeiro, o ódio ao burguês parece mais teológico e psicológico do que sociológico. Camus utiliza menos essa noção. Nenhum deles sugere, nesse início dos anos 1950, que a burguesia, apesar de tudo portadora de uma cultura, encarne também a sociedade moderna. Sartre difunde o clichê mítico do burguês: mentiroso, sem-vergonha, explorador, parvenu e filisteu, partidário teórico dos direitos humanos, mas colonialista. Forçando-se a acompanhar o PCF, Sartre não acredita estar se desligando do mundo burguês, mas pelo menos se afasta dele. Quando denuncia o burguês Camus, transforma-o em cúmplice de todos os exploradores. Jeanson, Sartre e Camus jogam pingue-pongue com Marx, Sartre acusando Camus de brincar com conhecimentos de segunda mão. Serão os de Sartre muito mais avançados? Um homem como Raymond Aron, leitor paciente de Marx, está persuadido de que Camus e Sartre, nesse aspecto, são igualmente incompetentes.
Camus ainda não sabe, mas os homens mais informados à direita também não gostam de seu livro. Aron, ex-editorialista do Combat agora colaborador do Le Figaro, acha-o ruim: “... as linhas-mestras da argumentação perdem-se numa sucessão de estudos mal vinculados uns aos outros, o estilo da escrita e o tom de moralista não permitem o rigor filosófico.” Para Aron, “o pensamento de Camus parece banal e razoável e essa querela, insignificante. [...] Sartre e Camus não são nem comunistas nem ‘atlânticos’ [...]; ambos reconhecem a existência de iniquidades nos dois campos. Camus quer denunciar umas e outras; Sartre apenas umas, do lado ociden- tal, sem negar a realidade das outras. Nuança, decerto, mas que questiona toda uma filosofia.” Aron, que outrora foi amigo de Sartre, mas nunca de Camus, mantém reservas com relação a este último. Mais uma vez o agrégé contra o licenciado, o especialista contra o amador, o sociólogo, alimentado por Dilthey e Max Weber, contra o escritor, fiel a Nietzsche e Pascal? Aron irá nuançar mais tarde seu ponto de vista: “Camus não ataca apenas determinados aspectos da realidade soviética. O regime comunista lhe parece tirania total, inspirada e justificada por uma filosofia. Ele reprova os revolucionários por negarem todo valor eterno, toda moral transcendente à luta de classes e à diversidade das épocas, acusa-os de sacrificarem os homens vivos por um bem pretensamente absoluto, por um fim da história, cuja noção é contraditória e, de qualquer modo, incompatível com o existencialismo.”
Camus continua acreditando que um socialismo a ser definido, um pouco social-democrata à escandinava e trabalhista à britânica, possa ser realizado. Camus e Sartre são típicos dos intelectuais franceses de sua época em sua relativa ignorância dos dados econômicos. Têm um igual desejo de transformar a sociedade. Sartre e Camus querem uma nova ordem social, mais humana. A paixão não é a mesma. Ainda é revolucionária e violenta por parte de Sartre. Camus já não é revolucionário: é um homem revoltado que rejeita em bloco o universalismo jacobino e o universalismo comunista.
Sartre na França continua sendo o farol de uma parte da esquerda não comunista. Não é que todos os intelectuais franceses se situem à esquerda, mas na área de influência de revistas como Esprit e Les Temps modernes, de hebdomadários como France-Observateur, a grande inteligência é Sartre. Não Camus. Afinal, Camus e Sartre separam-se onde se encontraram. O jovem crítico do Alger républicain admirava A náusea e O muro e desconfiava do filósofo autor dessas ficções. Em sua “Explicação de O estrangeiro“, Sartre admirava o artista, mas atribuía notas baixas ao pensador. Sartre tinha Camus em baixa conta intelectual e falou de seus sentimentos a Jean Cau: Camus era “uma espécie de professor primário, nulo em filosofia mas ostentando uma arrogância moralizadora” e uma “vedeta [nos dois sentidos: estrela e naviozinho] do pensamento”. Sartre considerava-se, segundo Cau, como um encouraçado inaufragável.




