Cuidado com a velha narrativa anti-imperialista do PT
PCC e CV como organizações terroristas
Já escrevi várias vezes que PCC e CV são organizações do crime organizado, mas não são organizações terroristas, pois não se estruturam em torno de uma causa política e sim do lucro. O fato de haver relações entre o crime organizado (como o do PCC) e grupos terroristas (como o Hezbollah), não transforma o primeiro no segundo.
Todavia, o governo brasileiro não reconhece nem o Hezbollah e o Hamas como organizações terroristas. Dá a desculpa de que segue a classificação da ONU, o que é uma forma de enganar o público, pois as ditaduras da Rússia e da China têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU e não permitem a sua classificação como terroristas (já que usam esses grupos contra os EUA, Israel e as democracias liberais).
A decisão do Departamento de Estado dos EUA de classificar PCC e CV como organizações terroristas está errada. Mas nem por isso deveria ter provocado uma pane no jornalismo televisivo. Até nossos melhores analistas alucinaram, falando raivosamente em intervenção americana no Brasil.
Ora, os EUA já haviam designado como organizações terroristas:
Cártel de Sinaloa, Cártel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), Cártel del Noreste (ex-Los Zetas), Cártel del Golfo, La Nueva Familia Michoacana, Cárteles Unidos, todos do México.
Tren de Aragua (TdA), originário da Venezuela, que se espalhou por vários países da América do Sul e Central.
Mara Salvatrucha (MS-13), originária de El Salvador.
Barrio 18 originário dos EUA, mas que se expandiu para El Salvador, Honduras, Guatemala.
Los Choneros e Los Lobos, do Equador.
Clan del Golfo, ELN e Segunda Marquetalia, da Colômbia.
Viv Ansann e Gran Grif, do Haiti.
É preciso tomar cuidado com a velha narrativa anti-imperialista do PT (e do Celso Amorim). Os EUA não vão intervir militarmente no México, em El Salvador, em Honduras, na Guatemala, no Equador, na Colômbia e no Haiti porque organizações criminosas desses países foram designadas como organizações terroristas. Propagar que vão intervir no Brasil porque PCC e CV foram classificadas (erradamente) como terroristas é uma espécie de "terrorismo" para dizer que se Lula não for reeleito nossa soberania e nossa democracia estarão em risco.
Há sempre muita manipulação política na classificação de uma organização como terrorista. Para citar dois exemplos:
A ditadura da Rússia classifica como organizações terroristas a Pussy Riot (um coletivo feminista de protesto, defensor dos direitos LGTB+, da liberdade de expressão e que se opõe à invasão da Ucrânia e ao autoritarismo da Igreja Ortodoxa Russa). Também classifica como organização terrorista a Fundação Anticorrupção (ligada a Alexei Navalny, assassinado por Putin).
A ditadura da China usa amplamente a designação de "terrorista" contra qualquer forma de dissidência uigur, tibetana ou de minorias.
Por outro lado, há uma questão relevante que resta para ser investigada: uma organização criminosa nacional ou transnacional (que controla territórios e se infiltra na política com fins de lucro) pode adotar uma causa política própria virando uma organização terrorista?
Há alguns sinais de que o Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), do México, possa estar fazendo essa transição, mas ainda não se sabe ao certo. Na Colômbia, entretanto, deu-se o oposto: organizações terroristas viraram organizações do crime organizado. Mas é difícil que uma organização como o Hezbollah (que, no fundo, é uma força expedicionária do Irã) - e que se comporta como uma organização criminosa transnacional (praticando tráfico de armas, drogas, cigarros, carros usados etc.) - vá virar alguma coisa como um Comando Vermelho.
O assunto, no Brasil, está contaminado pela campanha eleitoral marcada pela polarização entre dois populismos. E ambos estão errados ao tratar das questões do crime organizado, do terrorismo e das relações entre crime organizado e terrorismo.
O governo brasileiro está certo ao não classificar PCC e CV como organizações terroristas. E está errado ao não classificar Hezbollah e Hamas como organizações terroristas (o populismo lulopetista encara essas organizações como forças legítimas de libertação e de resistência ao imperialismo e ao colonialismo).
O governo brasileiro também está errado ao considerar que a origem dessas organizações criminosas (como o PCC, o CV e muitas outras) está na desigualdade socioeconômica e de nunca ter feito um esforço sério, ao longo de quase todo o presente século (Lula 1, Lula 2, Dilma 1, Dilma 2 e Lula 3), de articular uma política eficaz de segurança para combater o narcotráfico e as milícias, deixando a população vulnerável a seus ataques e sob seu domínio cruel em extensas áreas territoriais do país.
Quando as oposições criticam o desleixo do lulopetismo com a segurança pública, elas estão certas. E quando o bolsonarismo defende, embora erradamente do nosso ponto de vista, que as organizações criminosas sejam tratadas como organizações terroristas, isso é uma posição legítima no debate público, que não pode ser criminalizada porque, supostamente, daria margem para uma intervenção americana no Brasil.
O governo já está dizendo que a atuação de Flávio Bolsonaro e da família Bolsonaro é contra o Brasil (porque Lula acha que é o próprio Brasil, embora tenha sido eleito em 2022 por menos de 2% dos votos). Fica implícito que Flávio, o candidato que desafia Lula nas eleições de 2026, é um traidor da pátria. E que se ele for eleito perderemos a democracia e a soberania. Se é assim, ele nem poderia concorrer, deveria ser tornado inelegível e ser preso por um crime capital.
Mas claro que o lulopetismo não quer isso. Assim como sabotou um movimento pelo impeachment de Jair Bolsonaro no auge da pandemia, para deixá-lo sangrando e vencê-lo mais facilmente nas urnas, quer fazer a mesma coisa com Flávio - que é um péssimo candidato, a não ser para o PT.



