Diplomacia não é a mesma coisa que democracia
Quando é que os nossos mais sábios diplomatas e analistas políticos internacionais vão aprender que a guerra é o estado de guerra? Que a guerra não acontece apenas, como já dizia Hobbes em 1651, quando o conflito violento está acontecendo?
Com efeito, no Leviatã, Thomas Hobbes (1951) escreveu que
“a guerra não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida… [já que] a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal…”
Comecemos com o seguinte. Democracias não guerreiam entre si. Democracias não agridem autocracias, apenas se defendem quando são atacadas. Quem faz guerra (contra outros países e contra suas próprias populações) são as autocracias (aliás, a rigor, a autocracia não faz guerra: ela é a guerra). Para as ditaduras, entretanto, toda guerra é interna (mas até entende-se que cabeças colonizadas por ideias geopolíticas de realpolitik levem algum tempo para entender isso).
A guerra do Irã contra os EUA (o “grande satã”) e Israel (o “pequeno satã”) não começou com os ataques americano-israelenses atuais ao território iraniano. Começou há quase meio século, com a revolução islâmica de 1979. Essa guerra não acabou e não vai acabar enquanto tal movimento continuar vivo e o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (a SS do regime) - que o dirige - não tiver seus laços orgânicos rompidos.
Ditaduras (como o Irã, a China ou a Rússia) estão preocupadas com sua segurança? Então a primeira coisa é parar de fazer guerra contra outros países. A segunda é parar de fazer guerra contra a sua própria população, para tanto, acabando com a sua ditadura.
Mas para a diplomacia (infectada por realpolitik estatista) é como se fosse um direito de um país ser uma ditadura. Pode-se aceitar isso realisticamente, mas não achar que é um direito. É um não-direito. Uma ditadura não é um Estado de direito. É um regime fora da lei do ponto de vista democrático.
Não pode ser direito violar direitos humanos. Não pode ser direito fazer guerra contra a própria população. Não pode ser direito invadir militarmente outros países. O Irã não tem direito de financiar, treinar e coordenar cerca de vinte grupos terroristas em vários países do Oriente Médio para aniquilar Israel. A China não tem direitos sobre Taiwan. A Rússia não tem direitos sobre a Ucrânia. São não-direitos.
Ah! Vamos resolver tudo pela diplomacia para evitar a guerra (quente). Ótimo. Mas diplomacia não é necessariamente democracia. Diplomacia qualquer ditadura também tem. A diplomacia quer evitar conflitos violentos? Isso é bom. Mas não basta. Para ser democrática a diplomacia tem de evitar a guerra. Mas parece que nossos diplomatas e analistas políticos internacionais não sabem bem a diferença entre as duas coisas. Então, vamos lá.
Guerra não é violência (como foi dito e citado, até o autocrata Hobbes já sabia disso). Guerra não é o conflito e sim um modo de regular o conflito. Guerra não é destruição de inimigos e sim, pelo contrário, construção e manutenção de inimigos. A diplomacia das autocracias é uma forma de continuar a guerra por outros meios. O pior é que a diplomacia das democracias, via de regra, também.
Toda diplomacia segue regras de realpolitik. Mas toda realpolitik é autocrática, não democrática. Em outras palavras. Geopolítica não é política. É guerra, ainda que na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin de política como continuação da guerra por outros meios; ou seja, antipolítica. (Mas isso também leva algum tempo para ser entendido).
“O mundo real é assim”, dizem os adeptos da realpolitik. Há um erro nessa visão ideológica que, no fundo, é antidemocrática. Quando eles dizem que o mundo é assim, o subtexto é que não pode ser mudado. Ora, o mundo não é assim ou assado. O mundo sempre está assim ou assado.
Ao repetir que “o mundo real é assim” estamos ecoando um padrão autocrático de que há uma ordem pretérita, ex-ante à interação, à qual temos não somente de reconhecer, mas de obedecer. É como se fosse as regras de um jogo, estabelecidas, porém, por alguma instância extra-política: ou por algum deus, ou pela natureza ou pela história.
Sempre há sinais de autocratização. Você pode não vê-los, mas – fortes ou fracos – eles estão lá. Alguém só se torna um agente democrático quando consegue perceber esses sinais e reconhecer os padrões autocráticos que neles estão presentes. Nesse sentido, agentes da realpolitik – sejam diplomatas, militares ou analistas políticos cujas cabeças foram contaminadas com ideologias geopolíticas – não são agentes democráticos.
O texto acima aproveita e recicla passagens do artigo Diplomacia democrática é defender a democracia, publicado em 01/03/2022 em Dagobah.



