Eles em nós
Como o Brasil produziu a si mesmo como antagonismo
Na sequência de textos recentes que venho publicando aqui na revista, especialmente no último — no qual proponho uma releitura de 2013 como um momento de colapso que não foi corretamente interpretado — tenho tentado sustentar uma hipótese que me parece cada vez mais difícil de ignorar: o problema central do Brasil contemporâneo não foi apenas político, institucional ou econômico, mas sobretudo um problema de leitura, um problema de linguagem, um problema de incapacidade de compreender um fenômeno novo com ferramentas que já não davam mais conta da realidade.
Aquele momento exigia um salto — um deslocamento de categorias, de repertórios e de formas de operar a política — e o que fizemos, como sociedade, foi o oposto: tentamos absorver o novo dentro das lentes antigas, reorganizando a crise a partir de estruturas que, no limite, ajudaram a amplificar o problema que pretendiam resolver. E é nesse ponto que o livro Eles em nós (2021), de Idelber Avelar, é de uma singularidade importante. O livro se coloca nesse lugar raro de tentar olhar o passado extremamente recente sem recorrer às simplificações usuais, propondo uma análise que não parte apenas dos eventos, mas da forma como esses eventos são narrados, disputados e organizados no plano da linguagem.
Avelar, que é pesquisador no campo da linguística (e professor titular na Universidade Tulane), faz um movimento particularmente interessante ao aplicar uma metodologia de análise retórica para compreender a política brasileira recente, deslocando o foco das explicações estruturais mais tradicionais — econômicas, institucionais ou sociológicas — para o modo como os antagonismos são construídos, nomeados e mobilizados ao longo do tempo. E é a partir dessa chave que ele reconstrói, com bastante precisão, um arco que vai do pré-2013, passando pela implosão daquele momento, até chegar à ascensão do bolsonarismo, não como um acidente, mas como um produto interno das dinâmicas que o antecederam.
I. O colapso que não foi entendido: 2013 e a crise de linguagem da política brasileira
Há livros que organizam o passado. Há outros que, ao contrário, desorganizam as certezas com as quais olhamos para ele. Eles em nós pertence claramente a esse segundo tipo. Não se trata de uma narrativa reconfortante sobre o que aconteceu no Brasil a partir de 2013, nem de uma tentativa de localizar culpados específicos em um sistema político que teria “desviado” de sua trajetória natural. O livro é, antes de tudo, uma investigação rigorosa de um desconforto difuso, de um mal-estar que atravessa a sociedade brasileira e que, em determinado momento, deixa de ser administrável pelos instrumentos disponíveis.
A pergunta que estrutura o livro — “o que foi que nos aconteceu?” — não é retórica. Ela é uma recusa explícita das explicações fáceis que dominaram o debate público nos últimos anos. Ao invés de reduzir o fenômeno à ascensão de uma extrema-direita, a uma crise econômica ou a uma falha institucional pontual, Avelar propõe algo mais exigente: olhar para o conjunto de forças que se articulam no período e compreender como diferentes escolhas, tomadas por diferentes atores, contribuíram para a configuração do cenário atual.
E é justamente nesse ponto que o livro se distancia da maior parte das análises produzidas no calor dos acontecimentos. Ao invés de tratar 2013 como origem de um problema, ele o trata como ponto de inflexão em um sistema que já operava sob tensões acumuladas. Não havia, como o próprio autor insiste, nada de inevitável naquele desfecho. Havia possibilidades abertas, havia alternativas, havia caminhos distintos que poderiam ter sido seguidos.
Como ele próprio coloca, em um dos trechos mais importantes do livro:
“Nada determinava necessariamente, digamos nos dias 13, 17 e 20 de junho de 2013, que o resultado dos levantes seria o colapso do pacto lulista, muito menos o colapso da totalidade do sistema político. Esses colapsos começaram a se dar com a violenta repressão ao longo desses dias e com a resposta de Rousseff, no dia 21. Desde então até a facada de Adélio, o aparato político brasileiro teve inúmeras escolhas. O STF teve incontáveis escolhas. O bloco político-jurídico-policial da Lava Jato teve várias escolhas. Também teve inúmeras escolhas o lulismo (…) Todos esses agentes atuaram no rescaldo de Junho e são parte da esteira que leva ao bolsonarismo.”
Essa passagem é fundamental porque ela desloca completamente o eixo da análise: o que está em jogo não é uma causalidade linear, mas um campo de possibilidades no qual diferentes decisões vão progressivamente reorganizando o sistema. A crise, portanto, não é um evento. É um processo.
E esse processo não é apenas político no sentido institucional. Ele é, sobretudo, um processo de transformação da linguagem.
II. A máquina de produzir antagonismos: lulismo, Lava Jato e a reorganização do conflito
Um dos grandes méritos do livro está em tratar a política brasileira não apenas como um jogo de interesses, mas como uma produção contínua de sentido, na qual a retórica — a forma como se fala, como se nomeia o outro, como se constrói o conflito — passa a ter um papel revelador.
É nesse ponto que emerge um dos conceitos mais sofisticados da obra: a ideia de que o lulismo operou como uma máquina simultânea de produção e dissolução de antagonismos, um sistema capaz de mobilizar o conflito no plano discursivo enquanto o neutralizava no plano institucional.
A descrição desse mecanismo é particularmente precisa:
“O lulismo foi uma sinfonia orquestrada para a simultânea produção e dissolução de antagonismos, uma espécie de complexa linha de montagem criada para gerenciá-los. Por cerca de uma década, essa máquina azeitada funcionou com grande eficiência, adaptando-se com desenvoltura ao jogo pemedebista de negócios de bastidores.”
O problema dessa lógica não está na sua existência — toda política envolve antagonismo —, mas na forma como ela é operada. Ao produzir antagonismos de forma sistemática sem resolvê-los estruturalmente, o sistema acumula tensões que, em determinado momento, deixam de poder ser administradas.
E esse acúmulo não ocorre no vazio. Ele se articula com outros processos que vão reorganizando o campo político, entre eles a Lava Jato, que Avelar trata de maneira particularmente interessante, recusando tanto a leitura que a reduz a instrumento de interesses ocultos quanto aquela que a enxerga como simples operação moralizadora.
Para o autor, a Lava Jato se transforma em algo mais complexo: um sujeito político com lógica própria, capaz de reconfigurar o campo não apenas por suas ações, mas pela forma como organiza a narrativa da política.
Essa reorganização é decisiva porque altera o regime de inteligibilidade do sistema. O que antes podia ser narrado como trajetória — ascendente, descendente, trágica ou épica — passa a ser vivido como uma sequência de episódios desconectados, em um regime que o autor aproxima da “novela bizantina”, caracterizada por acontecimentos sucessivos que não se organizam em uma progressão linear.
Esse novo regime narrativo produz um efeito específico: a perda da capacidade de mediação. Quando tudo se torna episódio, tudo se torna também potencialmente irreconciliável.
E é nesse ambiente que a lógica do antagonismo se radicaliza.
III. A rebelião do “eles” e o sistema que passou a depender da polarização
Talvez o ponto mais potente — e mais perturbador — do livro esteja na forma como ele interpreta o bolsonarismo. Ao invés de tratá-lo como um fenômeno externo ao sistema, Avelar o apresenta como produto interno, como resultado de uma dinâmica que vinha sendo construída ao longo dos anos anteriores.
A formulação é clara:
“O bolsonarismo nasceu e existe no interior dessa polarização, como expressão do antipetismo (…) ele aparece como alternativa para expressar o antagonismo represado na sociedade brasileira.”
Mas o autor vai além.
Ele mostra que o bolsonarismo não representa esses antagonismos de forma legítima, mas os captura e reorganiza dentro de uma lógica de antagonismo permanente. E, mais do que isso, ele revela que esses antagonismos não são homogêneos, mas múltiplos, difusos e muitas vezes contraditórios entre si.
A passagem mais longa e importante do livro talvez seja justamente aquela em que ele enumera esses antagonismos, mostrando a diversidade de demandas que não encontraram espaço no sistema político:
“As demandas de Junho, às vezes contraditórias entre si, compõem a coleção do que o sistema político brasileiro irresponsavelmente não soube, não quis ou não pôde acolher: a revolta contra os serviços públicos de péssima qualidade (…) o antagonismo da população como um todo contra o saqueio do patrimônio público (…) o veemente protesto de indígenas, ribeirinhos, quilombolas (…) a sensação da cidadania (…) de que o modelo das polícias militares é intolerável (…) a frustração de uma juventude laboralmente precarizada (…) o desejo de que seja possível fazer oposição liberal (…) sem ser imediatamente associado a um campo de direita (…) todos esses antagonismos encontraram fechados os canais do sistema político.”
Essa enumeração é fundamental porque ela desmonta a ideia de que o bolsonarismo pode ser explicado por uma única variável — ideológica, econômica ou cultural. Ele é, antes, uma coalizão distorcida de insatisfações que não encontraram canal de expressão.
E é nesse ponto que emerge a ideia mais forte do livro:
“O bolsonarismo é a rebelião do eles.”
Essa formulação encerra um paradoxo profundo. O sistema, ao produzir continuamente um “eles” — um outro a ser combatido, desqualificado ou excluído — acaba criando as condições para que esse “eles” se organize e se volte contra ele.
E quando isso acontece, o sistema já não consegue mais retornar ao estado anterior.
Ele entra em um lock-in.
A polarização (como a conhecíamos) deixa de ser um simples jogo retórico-eleitoral e passa a ser um mecanismo de funcionamento onde os pólos passam a depender uns dos outros. E mais, para se manterem vivos amplificam a radicalização, reduzindo qualquer possibilidade de mediação.
Conclusão: um diagnóstico que ainda não foi metabolizado
Ao final, o que torna Eles em nós um livro particularmente potente não é apenas a qualidade do seu diagnóstico, mas o fato de que ele consegue interromper uma série de explicações fáceis e recolocar o problema em um nível mais profundo, no qual a política deixa de ser apenas disputa de poder e passa a ser compreendida como produção de linguagem, como construção de antagonismos, como organização de um campo simbólico que, ao longo do tempo, se torna incapaz de sustentar a mediação democrática.
Nesse sentido, a leitura de Avelar ajuda a consolidar uma hipótese que atravessa este ensaio: a de que o Brasil não apenas entrou em um processo de polarização, mas produziu, por meio de suas próprias dinâmicas, um sistema que passou a depender dessa polarização para funcionar, no qual diferentes forças políticas não apenas se enfrentam, mas se retroalimentam, criando um circuito difícil de romper.
Mas talvez o ponto mais interessante — e também o mais desafiador — esteja justamente onde o livro se encerra. A análise de Avelar avança com enorme densidade até a ascensão do bolsonarismo, oferecendo um mapa bastante sofisticado de como chegamos até ali, mas deixa em aberto a interpretação dos desdobramentos posteriores, isto é, o que acontece quando esse sistema de antagonismos já está plenamente instalado e passa a se reorganizar dentro de novas condições.
E é exatamente nesse ponto que se abre uma agenda importante para os próximos textos: como ler, a partir dessa mesma chave — essa leitura do “nós” e do “eles” como construções retóricas e políticas — os acontecimentos mais recentes, que vão desde o próprio governo Bolsonaro e suas formas de operação, passando pela reorganização institucional que se segue, até chegar ao momento atual, com um terceiro governo Lula, um protagonismo crescente do judiciário e a consolidação de uma lógica que muitos têm chamado de “democracia militante”?
Ou, colocado de outra forma: se já compreendemos, em alguma medida, como o sistema produziu o bolsonarismo, como podemos agora compreender o que veio depois — sem recorrer novamente às lentes do passado que nos trouxeram até aqui?
Talvez seja essa a tarefa que permanece em aberto.
E talvez seja justamente nela que a análise precise continuar.




