Volta e meia aparecem aqueles testes que tentam localizar nossa posição política em algum gráfico, normalmente começando pela velha divisão entre esquerda e direita e acrescentando algumas dimensões para tentar dar conta das contradições que aparecem no caminho. Eu gosto desse tipo de exercício, com todas as ressalvas que ele merece, porque existe alguma coisa interessante em ser obrigado a responder perguntas específicas antes de simplesmente dizer “sou liberal”, “sou progressista”, “sou conservador”, “sou de centro” ou qualquer outra categoria que normalmente já vem carregada de um pacote inteiro de opiniões que nem sempre temos.
O 12Axes é uma dessas iniciativas e já vem evoluindo há alguns anos. A versão original apareceu em 2021, derivada do 9Axes e da mesma família de testes multidimensionais do 8values, com a intenção declarada de reorganizar os eixos anteriores e corrigir alguns problemas do modelo. A proposta original já era justamente escapar um pouco daquela velha linha esquerda-direita, decompondo nossas posições em diferentes dimensões. A implementação atual levou isso adiante, melhorou a interface, ampliou as comparações e permite inclusive associar o resultado a ideologias, personalidades e países ou experiências políticas.
O funcionamento é relativamente simples. Hoje é possível fazer uma versão rápida, de 36 perguntas, uma intermediária, com 60, ou encarar as 240 perguntas da versão completa. As afirmações são respondidas numa escala de cinco posições, de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”, passando pelo neutro. O sistema distribui as respostas em doze eixos: federal-unitário, democracia-autocracia, segurança-liberdade, assimilação-multiculturalismo, militarismo-pacifismo, não intervencionismo-nacionalismo, público-privado, planejamento-livre mercado, protecionismo-globalismo, irreligioso-religioso, progressista-tradicionalista e tecnologia-biologia. O resultado vira um vetor de doze posições que é comparado com vetores previamente atribuídos a ideologias, países e personalidades. A própria documentação é cuidadosa em dizer que não se trata de um instrumento científico ou de um diagnóstico político, mas de uma ferramenta educacional e exploratória.
Essa ressalva é importante porque existe um problema quase inevitável nesses testes: se você quiser, você consegue manipular o seu resultado. Depois de entender o que determinada pergunta está medindo, não é muito difícil imaginar qual resposta empurrará o resultado para qual lado. Posso repetir o questionário quantas vezes quiser até receber uma descrição na qual me reconheça. Posso responder aquilo que efetivamente penso, aquilo que gostaria de pensar ou aquilo que imagino ser coerente com a identidade política que construí para mim mesmo. Mesmo sem qualquer manipulação consciente, há questões em que a resposta muda radicalmente dependendo do contexto que tenho na cabeça naquele momento. O próprio site reconhece que redação e circunstância podem deslocar o resultado e recomenda interpretar os percentuais como um resumo das preferências declaradas, não como prova de pertencimento ideológico.
Então o primeiro requisito para fazer o teste é bastante simples: ser minimamente honesto consigo mesmo.
Mas tenho uma crítica mais interessante à própria arquitetura do exercício. Para produzir um resultado, o sistema precisa transformar uma ecologia de opiniões numa posição e, depois, procurar uma ideologia que esteja próxima dela. Há uma inevitável reificação aí: o que era um conjunto contingente de respostas termina recebendo um substantivo. “Liberalismo social”, “conservadorismo liberal”, “social-democracia”, “centrismo ambientalista”, “tecnocracia”, “integralismo”. A base atual agrupa explicitamente os perfis em famílias como esquerda, centro, direita, libertários, autoritários e terceira posição.
E aí aparece uma pergunta que me interessa muito mais do que descobrir qual é minha ideologia: por que precisamos terminar o exercício com uma ideologia?
Fiquei inclusive curioso para saber o que aconteceria se alguém respondesse “neutro” ou “depende” a absolutamente tudo. Olhando a implementação, há uma resposta: o sistema foi explicitamente testado para que respostas neutras produzam posições centrais e alguma correspondência com perfis de centrismo. Ou seja, até a recusa sistemática de escolher entre as polaridades precisa terminar transformada em alguma categoria.
Esse ponto me interessa porque há uma diferença importante entre ideologia e democracia.
Ideologias são, em alguma medida, doutrinas abrangentes. São formas relativamente organizadas de interpretar sociedade, economia, autoridade, liberdade, justiça, moralidade e assim por diante. Democracia é outra coisa. Democracia não precisa que todos compartilhem uma dessas verdades. Pelo contrário: ela começa justamente quando aceitamos que pessoas razoáveis podem sustentar concepções profundamente diferentes sobre o que constitui uma boa sociedade e, ainda assim, precisam compartilhar um espaço político.
É aqui que volto a John Rawls e à ideia de pluralismo razoável. Em Political Liberalism, Rawls parte de uma constatação muito simples e muito poderosa: numa sociedade livre, a diversidade de doutrinas religiosas, filosóficas e morais não é uma anomalia que algum dia resolveremos quando todos finalmente compreenderem a verdade. Ela é uma consequência normal do próprio exercício da razão humana sob instituições livres. Pessoas razoáveis, diante da complexidade do mundo, chegarão a conclusões diferentes e às vezes irreconciliáveis. A questão democrática deixa então de ser “qual dessas doutrinas é verdadeira?” e passa a ser: como pessoas livres e iguais, que discordam profundamente, conseguem construir instituições políticas que todas possam razoavelmente aceitar?
Gosto muito dessa mudança.
Porque democracia, vista assim, não é o mecanismo que descobre qual verdade abrangente deve governar todas as outras. É uma arquitetura que permite a convivência de verdades razoáveis, inclusive incompatíveis entre si. O católico pode defender determinada instituição a partir de uma convicção religiosa; o ateu pode defender a mesma instituição por uma filosofia inteiramente diferente; alguém pode chegar ali por uma tradição liberal, outro por uma social-democrata. O que Rawls chama de overlapping consensus, ou consenso sobreposto, é justamente a possibilidade de diferentes doutrinas convergirem sobre determinadas regras políticas sem precisarem convergir sobre as razões últimas pelas quais acreditam nelas.
E isso muda um pouco a maneira como olho para o 12Axes.
Se eu usar o teste para perguntar “qual é a minha verdade política?”, tenho várias ressalvas. Se usá-lo para perguntar “como está organizada hoje minha ecologia de crenças?”, ele fica muito mais interessante.
Meu próprio resultado mostra isso de uma maneira quase divertida. O algoritmo me colocou com 93% de compatibilidade com algo chamado “Centrismo Ambientalista”. A descrição diz que seria uma posição que tenta conciliar sustentabilidade, transição energética gradual, mercado e instituições democráticas, sem ruptura anticapitalista nem negacionismo climático. Confesso que a descrição geral não me incomoda. Eu me identifiquei inclusive. Mas o que me interessa está menos nesse rótulo e mais na composição que aparece abaixo dele.
Fiquei em 60% federalismo, 65% democracia, 55% liberdade, 65% multiculturalismo e 65% pacifismo. Em intervenção, 50/50. Na economia, 70% privado, enquanto no eixo planejamento versus livre mercado fiquei exatamente no meio. Em comércio, 60% globalismo. Apareço como 65% irreligioso, 75% progressista em questões morais e 65% para biologia no eixo tecnologia-biologia.
É interessante quando tento explicar por que essas coisas convivem.
Tenho uma preferência bastante clara pela iniciativa privada e, ao mesmo tempo, não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer situações em que coordenação pública, investimento estatal, política industrial, ciência financiada pelo Estado ou regulação fazem sentido. Minha posição federalista conversa com uma visão bastante antiga que tenho sobre descentralização de poder. Meu progressismo moral convive com uma posição econômica que dificilmente seria classificada como de esquerda. E uma preferência por mercados também não me levou a uma posição protecionista: apareço moderadamente globalista.
Figura 1 — Perfil ideológico do autor nos 12 eixos políticos, com percentuais por dimensão e correspondências calculadas pelo 12Axes. Infográfico elaborado pelo autor a partir dos resultados do teste.
O resultado, portanto, é mais interessante justamente quando deixa de parecer uma ideologia coerente.
Alguém poderia olhar para economia e dizer “liberal”. Olhar para moral e dizer “progressista”. Para estrutura de Estado, “federalista”. Para relações internacionais, moderadamente globalista e pacifista. Em outros assuntos, simplesmente equilibrado. E há posições que certamente mereceriam uma conversa para entender o que exatamente a pergunta capturou. Minha preferência por iniciativa privada, por exemplo, convive perfeitamente com uma posição neutra entre planejamento e livre mercado. Isso não é necessariamente uma contradição: posso acreditar fortemente na empresa privada e no mecanismo de mercado e, simultaneamente, reconhecer espaços de coordenação pública, política industrial, ciência, regulação ou investimentos de longo prazo. O eixo isolado não sabe necessariamente por quê.
Até o resultado que aponta a União Europeia com 94% de compatibilidade me parece interessante mais como provocação do que como identidade. A União Europeia não é propriamente um “país” e tampouco uma ideologia: é uma arquitetura supranacional muito particular, que combina economias predominantemente de mercado, extensa regulação, integração comercial, pluralismo político, instituições compartilhadas e diferentes graus de soberania nacional. Portanto, o match parece capturar alguma coisa daquela combinação de globalismo moderado, mercado regulado, progressismo, democracia e preferência por soluções institucionais em vez de rupturas. Mas dizer que alguém é “94% União Europeia” obviamente não possui significado científico. É uma aproximação entre dois vetores construídos pelo modelo.
E talvez seja justamente aí que o exercício fique divertido.
Porque eu gostaria muito mais de colocar dez amigos numa mesa e comparar os doze eixos do que perguntar em quem cada um vota.
Quando perguntamos “você é de esquerda ou de direita?”, imediatamente carregamos para a conversa um pacote gigantesco de estereótipos. Eu não preciso mais perguntar o que você pensa. Se você me disser o rótulo, imagino todo o resto. Sua opinião sobre economia, aborto, polícia, imigração, clima, impostos, religião, drogas, Estados Unidos, Israel, Venezuela, privatização, universidade, STF. E, obviamente, você faz a mesma coisa comigo.
O 12Axes tem o mérito de bagunçar um pouco esses pacotes.
Talvez duas pessoas que votem em candidatos completamente opostos descubram que ambas são 70% federalistas. Talvez duas pessoas que se chamem de esquerda descubram posições radicalmente diferentes sobre liberdade e segurança. Um conservador pode ser muito mais globalista que outro conservador. Um liberal econômico pode ser progressista nos costumes. Alguém favorável a políticas ambientais fortes pode preferir soluções de mercado. Pessoas que se imaginavam ideologicamente próximas podem descobrir diferenças enormes; pessoas que se tratavam como integrantes de campos inimigos podem descobrir cinco ou seis eixos em que praticamente concordam.
E é nesse ponto que, para mim, o teste ganha um valor democrático que seu próprio algoritmo não consegue medir.
Não é a posição nos eixos. É a disposição para conviver com pessoas que ocupam posições diferentes neles.
Uma pessoa pode marcar 65% no eixo “democracia” e ainda assim possuir enorme dificuldade em reconhecer como legítima uma pessoa que pensa diferente dela. Outra pode ter convicções econômicas, morais ou religiosas fortíssimas e ser profundamente democrática justamente porque reconhece que suas convicções não lhe conferem o direito de excluir outras verdades razoáveis do espaço público. Um questionário sobre preferências políticas não captura facilmente essa segunda dimensão.
Talvez fosse interessante uma próxima evolução do 12Axes criar justamente um meta-eixo. Não mais perguntar apenas no que você acredita, mas como você se relaciona com aquilo em que acredita. Quanto da sua convicção você considera contingente? Quanta legitimidade concede a quem discorda? Em que circunstâncias aceita perder uma eleição? Você aceitaria que uma maioria democrática adotasse uma política profundamente contrária às suas convicções, desde que preservados direitos fundamentais? Qual o limite entre defender sua verdade e tentar transformá-la compulsoriamente na verdade de todos?
Isso começaria a medir outra coisa.
Porque posso ser liberal, socialista, conservador, ambientalista, religioso, ateu, nacionalista ou cosmopolita e continuar sendo democrata. O problema começa quando minha ideologia deixa de ser uma das verdades razoáveis possíveis e passa a reivindicar para si o monopólio da própria razoabilidade.
Por isso, apesar dessas críticas, acho o exercício muito legal e recomendo fazê-lo. 12Axes A versão rápida tem 36 perguntas, a intermediária 60 e a completa 240. Eu fiz a intermediária e pretendo agora fazer a de 240 justamente para ver o quanto o aumento da amostra altera ou dá nuance ao resultado. A própria metodologia sugere que a versão longa reduz o peso excessivo de uma única pergunta sobre cada eixo, embora continue sendo um instrumento de autorrelato e não uma medida científica.
Mas faria principalmente outra coisa: compartilharia o resultado.
Não para anunciar “descobri que sou centrista ambientalista”. Isso é quase a parte menos interessante.
Compartilharia para perguntar aos amigos onde eles caíram. Compararia os eixos. Escolheria aqueles em que estamos muito distantes e tentaria entender por quê. Escolheria aqueles em que, para nossa surpresa, estamos próximos. Faria isso num grupo de WhatsApp, num jantar, numa sala de aula, nas redes sociais.
Porque talvez exista aí uma pequena inversão bastante saudável para o momento político em que vivemos. Em vez de usarmos nossas diferenças para descobrir a qual tribo cada um pertence, podemos decompor as tribos para descobrir onde efetivamente estão nossas diferenças.
E, no caminho, provavelmente descobriremos também um monte de semelhanças que nossos rótulos políticos haviam escondido.
No fundo, é essa a parte que mais me interessa no 12Axes. Não descobrir que sou 93% alguma coisa.
Mas lembrar que uma democracia saudável não precisa produzir pessoas que pensem igual.
Precisa conseguir fazer pessoas que pensam diferente continuarem conversando.




