Adaptação editorial, em linguagem talvez mais acessível, do artigo “O significado político do embate Lula x Flávio”, de Augusto de Franco, publicado na Revista Inteligência Democrática em 21/10/2026. O texto - produzido por IA sob a curadoria do colunista da ID Mauai M. H. Toledo, com alguns poucos acréscimos e correções - procurou preservar a linha central de interpretação do autor (embora nem sempre tenha conseguido realizar seu intento).
Por trás da briga eleitoral, existe uma história que começou muito antes desta eleição
À primeira vista, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro parece mais um capítulo da velha briga entre petistas e bolsonaristas.
Mas o que estamos vendo pode ser mais complicado do que isso.
De um lado, está um partido que passou décadas construindo sua hegemonia nas instituições e sua presença no poder. Do outro, uma multidão de brasileiros insatisfeitos com esse mesmo poder, mas que não necessariamente concordam sobre o que deveria entrar em seu lugar.
E essa diferença ajuda a entender o momento político brasileiro.
O PT sabe o que quer. Seus adversários sabem, principalmente, o que não querem
O Partido dos Trabalhadores construiu, ao longo de mais de trinta anos, uma organização política sólida. Formou lideranças (desde que não disputassem as luzes do palco com Lula - que permanece sem sucessor), ocupou espaços importantes nas instituições e desenvolveu uma estratégia para permanecer influente, mesmo quando sofre revezes. Avesso à alternância democrática, nunca saiu do governo federal pelo voto e agora vamos ver se isso vai ou não vai acontecer.
Na interpretação do estudioso da democracia Augusto de Franco, esse projeto vai além de vencer disputas eleitorais. Seu objetivo seria manter uma posição dominante na sociedade, usando o poder do Estado e a força do partido para moldar a própria democracia.
É uma crítica dura: a de que, aos poucos, a participação dos cidadãos poderia ser substituída por uma relação de dependência entre o povo, o líder e o partido.
Mas como surgiu a força política que hoje enfrenta Lula?
Para compreender essa história, precisamos voltar a 2013.
Naquele ano, milhões de brasileiros foram às ruas. Havia indignação com os serviços públicos, com a corrupção, com os políticos e com o funcionamento do país.
Não existia um comando único. Tampouco havia um projeto político compartilhado por todos.
Era uma insatisfação espalhada pela sociedade.
Nos anos seguintes, parte dessa energia apareceu nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. E, a partir de 2017 e 2018, a direita populista encontrou em Jair Bolsonaro alguém capaz de reunir boa parte desse descontentamento.
Nascia uma força eleitoral poderosa.
Mas havia uma diferença fundamental em relação ao PT.
Enquanto o partido de Lula havia construído uma organização e uma estratégia de longo prazo, o bolsonarismo cresceu reunindo grupos muito diferentes, unidos principalmente pela rejeição ao PT e ao sistema político.
Ser contra alguma coisa, porém, não é o mesmo que saber o que construir
Essa é uma das questões centrais do atual confronto.
O bolsonarismo conseguiu mobilizar milhões de pessoas, conquistar governos e ampliar sua presença nos parlamentos.
Mas, segundo essa interpretação, não conseguiu transformar toda essa força em um projeto político consistente para o futuro do país.
Há conservadores, liberais, religiosos, eleitores indignados com a corrupção, pessoas revoltadas com as instituições e brasileiros que simplesmente não querem mais o PT no poder.
Esses grupos podem votar no mesmo candidato sem necessariamente desejar o mesmo Brasil.
E existe outro problema.
Parte desse movimento passou a acreditar que seria impossível derrotar a influência petista apenas pelas eleições. Foi nesse ambiente que ganharam espaço propostas autoritárias, inclusive a defesa de intervenção militar.
Assim, uma reação que nasceu da insatisfação com o poder também abriu espaço para ideias contrárias à própria democracia.
É por isso que os dois lados não são iguais, ainda que ambos sejam populistas
Na visão de Augusto de Franco, o lulopetismo representa uma força organizada que procura conservar e ampliar sua influência sobre a sociedade.
Já o bolsonarismo representa, principalmente, uma reação a essa influência. Uma reação poderosa nas urnas, mas fragmentada em suas ideias e objetivos.
Um lado trabalha para conservar sua posição dominante. O outro reúne forças para derrubá-la, sem ter construído um acordo claro sobre o que fazer depois.
E é nesse cenário que aparece Flávio Bolsonaro.
O voto contra Lula é necessariamente um voto a favor de Flávio?
Não.
Essa talvez seja a pergunta mais importante para compreender a eleição.
Uma parte dos brasileiros que hoje considera votar em Flávio Bolsonaro pode não estar escolhendo seu projeto político, suas ideias ou sua liderança.
Pode estar simplesmente dizendo que não deseja mais a continuidade do PT no governo.
Isso significa que a força eleitoral de Flávio não deve ser confundida automaticamente com uma aprovação positiva de sua candidatura.
Ela pode representar, em grande medida, o tamanho da rejeição ao adversário.
E há uma consequência importante nessa história.
Quando uma eleição passa a ser decidida principalmente pela rejeição, os candidatos deixam de precisar convencer o eleitor sobre o futuro que pretendem construir.
Basta apresentar o outro como uma ameaça maior.
O Brasil fica, então, diante de uma disputa entre a continuidade de um projeto de poder e a reação contra esse projeto
Mas reagir ao passado não significa, necessariamente, oferecer um caminho para o futuro.
Talvez esse seja o grande significado político do confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro.
E também o seu maior problema.
Porque um país pode até escolher quem não quer mais no governo.
A questão é saber se, ao fazer essa escolha, estará decidindo também que país deseja construir.
Ou não. Porque, infelizmente, a atual disjunção de segundo turno está longe de fornecer novas possibilidades de futuro. Bastaria dar um exemplo: não há na disputa de 2026 nenhuma alternativa política democrática liberal.




Um texto com uma posição clara.