Mundos sociais e democracia
A responsabilidade de coautoria da realidade
Recentemente foi lançado o livro “Ontogênese – Como o Real Nasce entre Pessoas”, de Marcelo Maceo. E logo que este chegou em minhas mãos, fiz questão de colocá-lo como prioridade, e não por acaso. Há muitos anos acompanho discussões ligadas às novas ciências das redes, através dos trabalhos de Augusto de Franco, e suas reflexões sobre inteligência coletiva, emergência, sistemas complexos e formas distribuídas de coordenação humana. São temas que atravessam minha trajetória há mais de 20 anos, desde os estudos sobre criatividade e inovação, passando pelo empreendedorismo e pela construção de ecossistemas de startups, até chegar aos debates sobre democracia, polarização e transformação social que venho desenvolvendo nesta coluna.
O que encontrei no livro, entretanto, não foi apenas mais uma reflexão sobre redes ou sobre comportamento coletivo. O que me chamou atenção foi o esforço de construir uma explicação relativamente consistente para um problema que aparece em diferentes disciplinas, mas raramente encontra uma formulação integrada: como mundos sociais (e mais, as realidades) surgem, se estabilizam, entram em crise e desaparecem.
Essa pergunta pode parecer excessivamente abstrata à primeira vista, mas ela está presente em praticamente tudo aquilo que chamamos de vida coletiva. Ela aparece quando tentamos compreender por que algumas organizações desenvolvem culturas tão fortes, por que certos movimentos sociais ganham potência enquanto outros desaparecem rapidamente, por que determinadas comunidades conseguem coordenar ações durante décadas sem uma autoridade central evidente, ou mesmo como democracias conseguem existir apesar da enorme diversidade de interesses, desejos, valores e conflitos que convivem dentro delas.
Ao longo dos anos encontrei respostas parciais para essas questões em autores bastante diferentes entre si. Edgar Morin ajudou a compreender que sistemas humanos não podem ser reduzidos a relações lineares de causa e efeito. Humberto Maturana mostrou como mundos humanos emergem de coordenações recorrentes de linguagem e convivência. Pierre Bourdieu revelou como estruturas sociais se reproduzem através de práticas, disposições e campos de interação. Augusto de Franco trouxe uma leitura poderosa sobre redes distribuídas e formas emergentes de organização social. Cada um deles ilumina uma parte do problema.
O que Marcelo Maceo tenta fazer em Ontogênese é organizar essas peças dentro de uma arquitetura conceitual própria, cuja preocupação central não é explicar indivíduos isolados nem defender uma teoria abstrata da sociedade, mas compreender como aquilo que chamamos de realidade social passa a existir concretamente.
E aqui está um dos aspectos mais interessantes da obra. O livro não trata ontologias como simples sistemas de crença, nem como construções filosóficas distantes da vida cotidiana. Tampouco trata a realidade social como algo puramente subjetivo, dependente apenas daquilo que cada indivíduo sente ou acredita. O esforço do autor é justamente construir uma posição intermediária, mostrando que mundos sociais possuem consequências concretas, produzem efeitos observáveis e organizam a vida prática das pessoas, ainda que não sejam objetos físicos como uma pedra, uma árvore ou um edifício.
Nesse sentido, a pergunta central da obra não é o que as pessoas acreditam, mas como determinadas coordenações entre pessoas passam a produzir um mundo habitável.
É justamente essa pergunta que me parece extremamente relevante para quem se interessa por democracia, por transformação social e pela forma como seres humanos conseguem construir realidades compartilhadas.
Quando o real nasce entre pessoas
A palavra ontogênese pode soar intimidadora em um primeiro contato, mas a ideia que ela procura descrever é surpreendentemente intuitiva. Marcelo parte da hipótese de que a realidade social não é simplesmente dada, nem pode ser reduzida à soma das percepções individuais. Ela emerge em um espaço intermediário que ele chama de “entre”. Não está apenas dentro das pessoas nem apenas fora delas. Surge da interação recorrente entre elas.
Essa formulação pode parecer apenas uma questão semântica, mas ela possui consequências profundas. Durante muito tempo fomos acostumados a pensar a sociedade a partir de duas grandes tradições. Em uma delas, as estruturas sociais aparecem como forças relativamente independentes dos indivíduos, moldando comportamentos de fora para dentro. Na outra, a ênfase recai sobre a experiência subjetiva, sobre crenças, interpretações e construções individuais de sentido.
A proposta da ontogênese tenta escapar desse dualismo.
Segundo essa perspectiva, mundos sociais surgem quando determinados padrões de coordenação se tornam suficientemente recorrentes para produzir uma realidade compartilhada. E aqui a palavra realidade é importante. Não estamos falando apenas de narrativas ou discursos. Estamos falando de algo que organiza decisões, distribui confiança, estabelece riscos, define pertencimentos, cria incentivos, produz instituições e molda comportamentos concretos.
Uma empresa existe porque milhares de coordenações acontecem diariamente para que ela exista. Uma universidade existe porque pessoas continuam validando diplomas, produzindo conhecimento, reconhecendo autoridades e reproduzindo determinadas práticas. Um mercado existe porque inúmeros agentes continuam operando segundo regras compartilhadas. Uma democracia existe porque milhões de pessoas sustentam práticas, expectativas e formas de convivência compatíveis com ela.
Nada disso existe apenas porque alguém acredita.
Mas também nada disso existiria sem pessoas sustentando continuamente esses processos.
É justamente nesse espaço intermediário que Marcelo posiciona os mundos sociais.
Talvez uma das contribuições mais interessantes do livro seja o esforço de diferenciar experiência subjetiva de transformação ontológica. Essa distinção parece simples, mas tem enorme importância. Em uma época marcada por discursos terapêuticos, espiritualizados e frequentemente centrados na experiência individual, tornou-se relativamente comum tratar qualquer sensação intensa como evidência de mudança profunda.
Marcelo resiste a essa tentação.
Uma pessoa pode sentir que tudo mudou. Isso é uma experiência legítima. Mas não é evidência suficiente de transformação ontológica. O que interessa observar são os padrões concretos de coordenação que surgem depois dessa experiência. Quais vínculos mudaram? Quais práticas mudaram? Quais formas de interação passaram a existir? Quais realidades passaram efetivamente a ser produzidas?
Essa preocupação dá ao livro uma consistência rara. Ele não está tentando explicar estados internos de consciência. Está tentando compreender como o real social emerge, ganha estabilidade e produz efeitos observáveis.
Por isso o conceito de mundo social, tal como aparece na obra, não é uma metáfora poética. É uma tentativa de descrever algo concreto. Um mundo social possui linguagem própria, formas específicas de validação, autoridades reconhecidas, temporalidades particulares, mecanismos de confiança, formas de pertencimento e critérios próprios para distinguir aquilo que é verdadeiro daquilo que não é.
Quando observamos a sociedade contemporânea sob essa lente, várias coisas começam a fazer mais sentido.
Muitas vezes não estamos diante de pessoas que discordam sobre um mesmo mundo. Estamos diante de pessoas que habitam mundos sociais diferentes, organizados por ontologias diferentes e sustentados por redes distintas de validação.
Isso ajuda a explicar por que tantas discussões contemporâneas parecem impossíveis. Não se trata apenas de divergência de opinião. Em muitos casos, os próprios critérios que definem o que conta como evidência, autoridade ou verdade já são diferentes desde o início.
Talvez seja exatamente por isso que Marcelo afirma que o nosso tempo não é marcado pela fragmentação do real, mas pela revelação de que ele sempre foi múltiplo.
O colapso dos mundos e o medo do vazio
Se mundos sociais podem nascer, eles também podem morrer.
Essa talvez seja uma das partes mais poderosas do livro.
Marcelo utiliza a expressão “morte ontológica” para descrever o momento em que um determinado mundo perde sua capacidade de organizar a experiência daqueles que o habitam. Não se trata da morte de uma pessoa. Não se trata de uma crise psicológica isolada. Trata-se do colapso de um sistema de coordenação que durante muito tempo ofereceu sentido, pertencimento e orientação.
Quem já atravessou mudanças profundas de carreira, religião, comunidade, relacionamento ou visão de mundo provavelmente reconhece essa experiência. Existe um momento em que aquilo que antes parecia sólido deixa de oferecer sustentação. As antigas referências continuam existindo fisicamente, mas já não conseguem organizar a vida da mesma maneira.
O interessante é que Marcelo amplia essa percepção para além do indivíduo.
Comunidades passam por isso.
Instituições passam por isso.
Sociedades passam por isso.
E talvez uma parte significativa do mal-estar contemporâneo esteja relacionada exatamente a esse processo.
Durante muito tempo acreditamos que o avanço tecnológico, a ampliação dos mercados globais, a circulação de informação e a expansão das liberdades individuais seriam suficientes para produzir sociedades mais abertas e mais maduras. O que observamos nas últimas décadas foi algo mais complexo. Ao mesmo tempo em que novos espaços de liberdade surgiram, muitos dos mundos que organizavam a experiência coletiva começaram a perder capacidade de coordenação.
Esse processo produz um efeito curioso. Antes que um novo mundo consiga se estabilizar, abre-se um intervalo de incerteza.
E é justamente nesse intervalo que surgem algumas das forças mais poderosas da vida política contemporânea.
O autor sugere que o fanatismo nasce frequentemente desse espaço intermediário. Não apenas do excesso de crença, mas da incapacidade de sustentar a abertura necessária durante uma transição.
Quando o chão desaparece, qualquer certeza rígida parece oferecer segurança.
Quando uma identidade entra em crise, qualquer identidade absoluta parece sedutora.
Quando um mundo deixa de organizar a experiência, cresce a tentação de transformar hipóteses em dogmas, experiências em verdades finais e pertencimentos provisórios em identidades totais.
Essa percepção me parece particularmente relevante para compreender o crescimento simultâneo de fundamentalismos religiosos, radicalizações ideológicas, movimentos identitários fechados e diversas formas de polarização política que atravessam o mundo contemporâneo.
O problema não está na existência de convicções.
O problema aparece quando a necessidade de estabilidade se torna tão intensa que qualquer abertura passa a ser percebida como ameaça.
A travessia proposta por Marcelo é outra.
Ela exige sustentar perguntas sem correr imediatamente para respostas definitivas. Exige aceitar períodos de reorganização sem preenchê-los com certezas artificiais. Exige reconhecer que novos mundos levam tempo para ganhar consistência.
Em uma época que premia velocidade, posicionamento imediato e identidades rígidas, essa talvez seja uma das ideias mais difíceis de praticar.
Democracia, autoria e a responsabilidade de coassinar a realidade
É na parte final do livro que aparece aquilo que considero sua contribuição mais importante para o debate democrático.
Ao longo do século XX nos acostumamos a pensar democracia principalmente como regime político, conjunto institucional ou arranjo jurídico. Todas essas definições possuem valor. Mas elas frequentemente deixam escapar algo mais fundamental.
Uma democracia também é um mundo social.
Ela depende de formas específicas de coordenação humana para existir.
Ela exige confiança suficiente para sustentar desacordos.
Ela exige abertura para a participação.
Ela exige circulação de autoridade.
Ela exige capacidade de convivência entre diferenças.
Ela exige mecanismos que permitam a emergência de inteligência coletiva sem depender permanentemente de comando centralizado.
Sob essa perspectiva, democracia deixa de ser apenas um sistema eleitoral e passa a ser uma forma específica de produzir realidade compartilhada.
É justamente aqui que o conceito de autoria radical ganha relevância.
Marcelo insiste que experiências coletivas verdadeiramente criativas não acontecem quando indivíduos apenas obedecem, repetem ou assistem. Elas acontecem quando pessoas participam efetivamente da construção do mundo que habitam.
Por isso uma das frases mais fortes do livro afirma que mais liberdade pede mais autoria.
Essa ideia possui implicações profundas.
Porque autoria não significa apenas autonomia individual. Significa também responsabilidade. Significa reconhecer que o mundo social não é algo que acontece em outro lugar, conduzido por forças externas sobre as quais não temos influência. Ele é continuamente produzido pelas conversas que sustentamos, pelos vínculos que cultivamos, pelas práticas que repetimos e pelas instituições que ajudamos a manter.
Essa talvez seja a passagem que mais me marcou durante a leitura.
Ao longo dos últimos anos escrevi bastante sobre democracia, polarização, redes e crise institucional. Frequentemente somos levados a interpretar esses fenômenos como se fossem produzidos exclusivamente por governos, partidos, empresas de tecnologia ou grandes lideranças. O olhar proposto pela ontogênese desloca a questão para outro lugar.
Se mundos sociais existem, alguém está participando continuamente da sua manutenção.
Se uma democracia existe, alguém está sustentando práticas democráticas.
Se uma cultura autoritária existe, alguém também está ajudando a reproduzi-la.
Se uma polarização existe, alguém está alimentando diariamente os mecanismos que a mantêm viva.
Essa percepção não tem nada de moralista. O próprio autor insiste que responsabilidade não é culpa. Trata-se de uma posição ontológica. Uma forma de reconhecer que cada gesto reiterado, cada prática reproduzida, cada conversa sustentada ou evitada participa da manutenção ou da transformação dos mundos que habitamos.
É por isso que a ideia de coassinar a realidade me parece tão poderosa.
Ela retira um conforto bastante comum da vida contemporânea: a possibilidade de imaginar que somos apenas espectadores de processos históricos conduzidos por outros.
A ontogênese propõe uma hipótese mais exigente.
Os mundos sociais que nos cercam não são apenas herdados.
Eles são continuamente produzidos.
E, gostemos ou não, participamos dessa produção todos os dias.
Talvez seja justamente aí que o livro encontra seu ponto de maior potência. Não porque ofereça uma nova ideologia, uma nova promessa de salvação ou uma resposta definitiva para os dilemas do nosso tempo, mas porque desloca a atenção para um lugar frequentemente negligenciado: o espaço onde o real nasce entre pessoas.
E, se esse espaço é onde mundos sociais são produzidos, é também nele que democracias podem florescer, colapsar ou se reinventar.





Estou absolutamente maravilhada com as suas observações sobre o livro porque correspondem exatamente às minhas ideias sobre nossos dilemas atuais que muitas vezes não consigo exteriorizar de forma tão clara. Vou correndo comprar esse livro.
Obrigada por esse artigo .
Diogo, muito obrigado pela leitura generosa, cuidadosa e, principalmente, precisa.
O que mais me tocou no seu artigo é que você não leu Ontogênese apenas como um livro sobre redes, sociedade ou comportamento coletivo. Você entrou no nervo da pergunta que me acompanhou por anos: como certas realidades passam a existir entre pessoas, ganham corpo, organizam vidas, sustentam instituições, criam pertencimentos e, em algum momento, também podem colapsar.
A forma como você conectou essa questão à democracia me pareceu especialmente forte. Porque democracia, antes de ser apenas regime, lei, eleição ou desenho institucional, é também um mundo social que precisa ser sustentado todos os dias, nos vínculos, nas conversas, nas práticas, nos limites e na capacidade de conviver com a diferença sem destruir o campo comum.
Você captou algo que para mim é central: responsabilidade não é culpa. Coautoria não é controle. A realidade social não é produzida por espectadores, nem por uma força externa que age longe de nós. Ela nasce, se mantém e se transforma no entre, nesse espaço vivo onde participamos mesmo quando fingimos que não estamos participando.
Receber uma leitura assim, vinda de alguém que há tantos anos pensa redes, democracia, inovação e transformação social, é uma honra enorme. Mais do que uma resenha, seu texto abre uma conversa real com o livro.
E talvez seja exatamente isso que Ontogênese deseja provocar: menos adesão, mais conversa; menos doutrina, mais responsabilidade; menos mundo dado, mais consciência sobre os mundos que estamos coassinando todos os dias.
Obrigado, Diogo. De verdade.