Augusto de Franco publicou há poucos dias - (21/09/2026), nesta revista - um artigo perguntando em que medida narrativas compartilhadas realmente modificam comportamentos coletivos.
A pergunta, por si só, já me interessava, inclusive porque tenho pensado há algum tempo sobre a facilidade com que atribuímos às narrativas um poder quase mágico de organizar o mundo, como se as pessoas precisassem compreender uma história, acreditar nela e somente então começar a agir de determinada maneira.
Só que o texto do Augusto vai deslocando essa questão, primeiro para os comportamentos que se propagam pelas redes sem que necessariamente saibamos por que os repetimos, depois para as emoções que tornam determinados comportamentos possíveis, até chegar a um lugar que, para mim, ficou maior do que a pergunta inicial.
É quando ele traz Maturana.
Para Maturana, emoção não é apenas aquilo que sentimos internamente, tampouco o contraponto irracional de uma razão supostamente mais elevada. As emoções constituem disposições corporais a partir das quais determinados domínios de ação se tornam possíveis, e é nesse sentido que ele atribui ao amor uma posição tão fundamental. Amor, aqui, não é romance, afeto açucarado ou qualquer uma dessas coisas que fizemos caber dentro da palavra. É a disposição relacional em que o outro pode aparecer como um outro legítimo na convivência.
Depois da publicação, Diogo Dutra comentou algo que me fez retornar algumas vezes a essa passagem. Se o amor, no sentido dado por Maturana, está na fundação do social e do próprio linguajar, talvez ele não seja apenas uma emoção importante para a experiência humana. Talvez estejamos diante de alguma coisa muito mais primária: uma das condições que tornaram possível a própria humanização.
Essa hipótese me atingiu particularmente porque toca numa questão que atravessa a Ontogênese desde o início. Eu não trato Homo sapiens e pessoa como sinônimos perfeitos. Nascemos pertencendo biologicamente a uma espécie, com um corpo capaz de determinadas formas de acoplamento, linguagem, memória, emoção e aprendizagem, mas aquilo que reconhecemos propriamente como humano não está inteiramente pronto nesse corpo. A pessoa surge numa história, é atravessada pelas pessoas que encontra, pela língua que recebe, pelos gestos que aprende, pelos mundos em que entra e por aquilo que passa a criar com os outros. É por isso que venho insistindo que o humano acontece entre nós.
A Ontogênese tenta investigar justamente o que começa a aparecer nesse entre. Não somente comunicação, influência ou transmissão cultural, mas a emergência de realidades que nenhuma das pessoas envolvidas poderia produzir sozinha e que, depois de criadas, passam a reorganizar a vida de quem as criou. Uma família, uma reputação, uma empresa, uma religião, uma cidade, o dinheiro, uma instituição, uma comunidade. Chamamos esse processo de alterpoiese, tentando descrever como relações recorrentes podem fazer emergir mundos que adquirem memória, força, custos, possibilidades e alguma independência em relação às intenções individuais de seus participantes.
Só que existe uma pergunta anterior que talvez eu não tivesse levado suficientemente longe: o que tornou esse entre possível?
Não basta dizer que cooperamos, porque muitas espécies cooperam. Não basta lembrar que vivemos em grupos, porque não inventamos a vida coletiva. Também não parece suficiente atribuir tudo a uma inteligência superior, como se em algum momento nosso cérebro tivesse simplesmente atravessado uma fronteira quantitativa e, pronto, cidades, mitos, conversas, músicas, democracias e deuses começassem a cair de dentro dele.
Talvez algo tenha acontecido também na própria qualidade da relação.
Se o outro pode aparecer diante de mim não apenas como parte do ambiente, como recurso, ameaça, competidor ou prolongamento das minhas próprias necessidades, mas como alguém cuja diferença não impede sua legitimidade na convivência, então uma possibilidade inteiramente nova se abre. Podemos permanecer juntos sem precisar ser iguais. Podemos coordenar ações, discordar, modificar nossa própria posição, criar linguagem para aquilo que nenhum dos dois possuía antes da conversa e, principalmente, participar da criação de uma realidade que não pertence integralmente a ninguém.
Talvez tenha sido uma mudança pequena demais para carregar a palavra “amor” e enorme demais para caber em qualquer outra.
Mas é justamente nesse ponto que essa hipótese começa a ficar mais desconfortável, porque, se essa disposição relacional participa da origem da nossa humanização, precisamos olhar também para aquilo que fizemos depois com a extraordinária capacidade de criar mundos que nasceu daí.
Criamos mundos nos quais o outro pode continuar sendo outro e, mesmo assim, participar. Mas também criamos mundos que aceitam o outro somente enquanto ele obedece, acredita, serve, desempenha corretamente sua função ou permanece fiel à identidade que lhe foi entregue. Uma máfia pode produzir um sentimento de fraternidade impressionante. Uma religião profundamente autoritária pode criar vínculos reais, acolhimento, memória, proteção e um sentido de pertencimento capaz de atravessar gerações. Um Estado totalitário pode mobilizar milhões de pessoas em torno de um destino comum, assim como uma guerra pode produzir entre companheiros formas intensas de confiança, cuidado e sacrifício.
Nada disso é socialmente vazio. Ao contrário, alguns dos mundos mais autoritários que conhecemos foram extremamente competentes em produzir um “nós”.
E talvez esteja exatamente aí uma distinção necessária para aquilo que tenho chamado de humanização.
Não basta haver pertencimento. Não basta existir cooperação. Não basta haver vínculos fortes, uma narrativa comum ou até disposição para entregar a própria vida pelo grupo, porque o pertencimento pode carregar uma cláusula escondida: você é plenamente legítimo enquanto continuar sendo aquilo que este mundo precisa que você seja.
Quando isso acontece, o outro já não é exatamente um outro legítimo. É um outro condicionado.
Posso amá-lo como filho, desde que corresponda ao filho que concebi. Posso reconhecê-lo como irmão, desde que permaneça dentro da nossa fé. Posso protegê-lo como companheiro, desde que jamais questione a organização. Posso considerá-lo cidadão, desde que pertença ao povo certo, professe os valores certos ou não ameace a imagem que construímos de nós mesmos.
É por isso que me parece insuficiente dizer que mundos assim simplesmente deixam de produzir alterpoiese. Eles continuam criando realidades, e algumas delas são poderosíssimas. Criam símbolos, identidades, papéis, hierarquias, códigos, expectativas, memórias, inimigos, heróis e futuros imaginados, organizando a vida de seus participantes com uma força que muitas vezes supera qualquer decisão individual.
O problema é outro: nem toda alterpoiese é humanizante.
Talvez a humanização precise ser pensada como a ampliação da possibilidade de pessoas continuarem sendo participantes legítimos da criação, sustentação e transformação dos mundos que compartilham. Isso inclui pertencimento, mas inclui também autoria; inclui vínculo, mas preserva diferença; inclui cooperação, sem exigir que todos se tornem versões uns dos outros.
Nesse sentido, uma estrutura começa a se tornar desumanizante quando o mundo que criamos passa a retirar de seus próprios participantes a possibilidade de continuar criando-o, quando a pessoa deixa progressivamente de ser alguém com quem o mundo é construído e passa a funcionar apenas como recurso, função, obediente, subordinado ou inimigo.
Isso não significa que deixamos instantaneamente de ser humanos. Talvez seja justamente o contrário que torne a questão tão difícil: continuamos sendo pessoas, continuamos amando, conversando, trabalhando e criando relações enquanto partes cada vez maiores do mundo que compartilhamos podem se tornar incapazes de acolher a legitimidade do outro. O humano não desaparece de uma vez. Pode ser comprimido, capturado, distribuído de maneira desigual e reduzido a determinados círculos de pertencimento.
A guerra torna isso quase obscenamente visível. Ela pode ampliar enormemente a fraternidade entre os que estão do mesmo lado, ao mesmo tempo em que transforma aqueles que estão do outro em vidas cuja legitimidade pode ser suspensa. O problema, portanto, não é simplesmente existir um “nós”. Talvez uma das perguntas mais importantes seja o preço que esse “nós” exige para continuar existindo.
E é aqui que a conversa iniciada por Augusto acaba tocando uma questão que me parece especialmente urgente neste momento em que passamos tanto tempo tentando descobrir se uma inteligência artificial poderá um dia apresentar capacidades tipicamente humanas. Talvez seja necessário voltar um pouco antes.
Antes de perguntar o que existe de tipicamente humano em nossa inteligência, talvez precisemos compreender o que tornou possível existir algo propriamente humano.
Se Maturana estiver apontando para uma pista importante, talvez o acontecimento decisivo não tenha sido apenas quando começamos a pensar melhor, fabricar ferramentas mais complexas ou organizar representações simbólicas do mundo. Talvez alguma coisa tenha começado muito antes, no instante em que outro ser pôde permanecer diante de nós como alguém diferente de nós e, ainda assim, legítimo o bastante para que valesse a pena permanecer com ele.
Talvez tenha sido desse espaço, frágil e permanentemente ameaçado, que nasceram a conversa, a cooperação, a pessoa e, finalmente, essa capacidade tão estranha da nossa espécie de criar mundos que não existiriam sem nós.
O problema é que essa capacidade não veio acompanhada de qualquer garantia sobre os mundos que criaríamos depois.
Aprendemos a criar mundos com o outro, mas aprendemos também a criar mundos que exigem a submissão do outro, que condicionam sua legitimidade, que o transformam em função, ameaça ou inimigo.
Talvez seja justamente esse o paradoxo que precisamos enfrentar: a capacidade que tornou possível nossa humanização é a mesma que nos permite construir mundos capazes de interrompê-la.
E talvez humanizar-se seja, desde então, aprender a criar mundos que não precisem diminuir o outro para continuar existindo.




