O período depois de uma eleição costuma ser mais interessante do que a própria eleição. Baixa um pouco o volume. Algumas certezas perdem força. Conversas reaparecem. Há uma espécie de depuração do que aconteceu, inclusive entre pessoas que passaram meses em posições diferentes. Isso é importante. Mas uma coisa ainda me incomoda: ver pessoas inteligentes, sensíveis à polarização e bastante desconfiadas das estruturas de poder romantizando, e às vezes até poetizando, certos métodos usados durante a campanha, especialmente o que ficou conhecido como “exército do Janones”.
Não estou falando da escolha eleitoral. No segundo turno, cada um faz sua escolha, estabelece seus critérios e convive com eles. O que me interessa é outra coisa. É o que fazemos depois com os instrumentos que ajudaram o nosso lado a vencer. Porque uma coisa é considerar circunstancialmente legítimo votar em alguém. Outra é transformar os mecanismos utilizados para produzir aquela vitória em algo desejável para a democracia.
Tenho visto algumas comparações entre esse tipo de mobilização e fenômenos como 2013. A comparação me parece perigosa justamente porque confunde coisas muito diferentes. Movimentos como 2013 eram difusos, contraditórios, difíceis de compreender e praticamente impossíveis de controlar. Havia ali uma energia que escapava das organizações que tentavam capturá-la. Isso não os torna necessariamente bons. Insurgências carregam beleza, criação e abertura, mas carregam também violência, sofrimento e destruição. A história está cheia de insurgências que começaram emancipadoras e terminaram reproduzindo aquilo contra o que se levantaram.
Talvez exista algo especialmente sedutor nesses fenômenos para quem possui uma sensibilidade mais anárquica, poética ou simplesmente desconfiada das instituições. Eu entendo essa atração. Também desconfio profundamente da ideia de que a vida possa ser organizada de cima para baixo. No fim, a vida acontece entre pessoas. Na conversa. No afeto. No conflito. Naquilo que emerge sem pedir autorização. Existe algo profundamente bonito quando um mundo social começa a surgir sem um centro que o determine.
Mas é justamente aí que tenho sentido faltar uma distinção.
Uma insurgência que emerge das relações não é a mesma coisa que uma mobilização desenhada, coordenada e instrumentalizada por uma estrutura de poder. Uma multidão não é um exército. E talvez o próprio uso dessa palavra devesse produzir algum desconforto. Quando existe comando, estratégia, método, inimigo e objetivo de conquista, estamos diante de outra coisa. Mesmo quando gostamos de quem está comandando.
Há uma fronteira difícil aqui. Gandhi talvez seja interessante justamente por isso. Sua ação era profundamente insurgente e, ao mesmo tempo, continha uma disciplina sobre os meios. Não bastava estar do lado considerado justo da história. O modo de agir importava. Sem esse cuidado, a insurgência pode facilmente escorregar para a lógica segundo a qual qualquer instrumento se torna aceitável diante da grandeza da causa. E é nessa fresta que a violência, inclusive simbólica, encontra sua justificativa.
Talvez parte dessa confusão venha também da nossa reação ao peso excessivo que atribuímos durante séculos às instituições, aos Estados e às grandes estruturas sobre a formação dos indivíduos. Quando começamos a perceber que mundos sociais podem emergir das próprias relações, abre-se uma possibilidade extraordinária. É algo próximo do que Jorge Forbes chama de Terra 2: redes mais distribuídas, novos mundos sociais, formas de convivência que não precisam reproduzir permanentemente a lógica hierárquica das instituições que herdamos.
Só que descobrir a Terra 2 não faz desaparecer a Terra 1.
Continuamos vivendo sob sistemas administrativos, econômicos, jurídicos, tecnológicos e políticos capazes de concentrar uma quantidade enorme de poder. Podemos tentar ignorá-los. Podemos construir espaços mais livres apesar deles. Podemos produzir relações que escapem parcialmente à sua lógica. Mas essas estruturas continuam alterando o campo em que convivemos. Tornam o ar ao nosso redor mais respirável ou menos respirável.
É por isso que não consigo considerar irrelevante o método pelo qual uma eleição é disputada apenas porque acredito que a transformação verdadeira acontece em outra camada. As duas coisas convivem. Minha relação com quem está ao meu lado é provavelmente mais importante do que quase tudo aquilo que acontece em Brasília. Mas aquilo que acontece em Brasília pode alterar brutalmente as condições dessa relação.
A questão passa a ser outra: como reconhecer a força dos sistemas sem entregar a eles a centralidade da nossa existência?
Gosto da expressão de Paulo Brabo sobre “salvar o mundo uma instante de cada vez”. Há algo nela que desloca a política do grande gesto revolucionário para a ação cotidiana. Não precisamos conquistar o centro para transformar tudo a partir dele. Podemos participar de fluxos que diminuem concentrações, abrem espaços, distribuem poder e tornam possíveis outros mundos sociais. Pequenos movimentos que não precisam necessariamente convergir para um novo centro.
Talvez seja aí que esteja uma diferença fundamental entre transformação e mera substituição. Trocar quem ocupa o centro não descentraliza o poder. Trocar uma máquina de mobilização por outra, uma verdade absoluta por outra, um exército por outro, também não. Podemos inverter os polos e continuar presos exatamente à mesma geometria.
Por isso me preocupa quando pessoas que compreendem tão bem a violência da polarização celebram métodos que ajudam a reproduzi-la porque, naquela circunstância, estavam apontados na direção considerada correta. Instrumentos não desaparecem depois das eleições. Eles deixam repertórios. Criam permissões. Produzem aprendizagem. Aquilo que aceitamos quando utilizado pelos nossos tende a reaparecer, aperfeiçoado, quando utilizado pelos outros.
Isso exige uma responsabilidade intelectual que não exclua a sensibilidade. Pelo contrário. Talvez seja justamente ampliar essa sensibilidade. Perceber que a esfera humana é a mais importante, mas que ela acontece dentro de campos que nós mesmos construímos e continuamos alimentando. Não precisamos nos submeter a eles. Tampouco podemos fingir que não existem.
Descentralizar poder será provavelmente um processo lento. Muito mais lento do que ganhar uma eleição. Talvez por isso seja menos excitante. Não oferece a catarse da vitória, a sensação da tomada, a imagem do inimigo derrotado. Mas cada relação que não reproduz a lógica do exército, cada espaço que consegue permanecer aberto ao diferente, cada fluxo que distribui em vez de concentrar, altera um pouco o mundo social que estamos produzindo.
Não se trata de abandonar a política para cuidar apenas das relações. Nem de abandonar as relações para disputar o poder. Trata-se de perceber que uma coisa contamina a outra.
E escolher, inclusive quando ninguém está olhando, que tipo de qualidade do ar queremos manter para quem estiver ao nosso redor.




