O Brasil está decidindo se quer continuar sendo uma democracia. Não pelo que fizeram Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. E sim pelo que o STF vai fazer diante das evidências apresentadas pela Polícia Federal. Se optar por uma absolvição preventiva (sem investigação) dos suspeitos, entraremos num processo de degeneração institucional que poderá levar ao rebaixamento do Brasil em todos os rankings internacionais de democracia.
O regime político brasileiro ainda é considerado livre (embora em colocação rebaixada, pela Freedom House), como democracia (apenas) eleitoral (quer dizer, não-liberal) pelo V-Dem e como democracia defeituosa (ou não-plena) pela The Economist Intelligence Unit. Mas ainda somos uma democracia. Até quando, porém?
Os escândalos são numerosos demais para serem apagados. As evidências são fortes demais para serem descartadas. Pelo que noticiou a imprensa: Toffoli recebe recursos de Vorcaro no Tayayá, Toffoli se vinga de quem o denunciou; a mulher de Moraes assina contrato de 130 milhões de reais com Vorcaro, Moraes edita o contrato que seria do escritório da mulher, a família de Moraes tem à sua disposição avião e helicoptero de Vorcaro, os filhos de Moraes recebem cartões de crédito de Vorcaro com limite de 300 mil reais para gastar adoidado, Moraes atua como uma espécie de funcionário de Vorcaro avisando-o previamente sobre operações policiais e aconselhando-o se deve ou não (e quando) fugir do país para não ser preso, Vorcaro pede a Moraes que intervenha para impedir o avanço das investigações contra ele e pergunta se Paulo Gonet e Andrei Rodrigues não vão agir nesse sentido; Paulo Gonet manda recados fraternos para Vorcaro e pede para levar o filho em viagem a Londres, tudo pago pelo próprio Vorcaro; Andrei Rodrigues que também viaja às expensas de Vorcaro para degustação de bebidas de luxo na Inglaterra, mobiliza os superintendentes da PF para barrar as investigações (feitas por delegados da própria PF) e pede a AGU para processar Mendonça. E tudo indica que ainda tem muito, muito mais, para vir à tona. O consorcio formado pelas cúpulas de GOVERNO-STF-PGR-PF está chafurdando num lamaçal de corrupção.
Finda a crônica policial, do ponto de vista político, porém, só há um tema decisivo em tela: a reeleição de Lula. Se Lula vencer a disputa nomeará mais quatro "Dinos" para o STF, fazendo uma maioria de nove governistas na suprema corte. E não haverá possibilidade de reverter isso na primeira metade do século.
Atenção aqui! Como já mostrei em um artigo de 19/08/2026 nesta Inteligência Democrática, no qual fiz todos os cálculos, mesmo que um candidato não petista seja eleito em 2030, ele só poderá nomear 1 (um) ministro do STF: no lugar de Fachin (que sairá em 2033). E se um não petista for eleito em 2034, ele não poderá nomear ninguém. E se um não petista for eleito em 2038, ele só poderá nomear um ministro no final do mandato (no lugar de Toffoli, que sairá apenas em novembro de 2042).
Virou mania repetir que o mais importante em 2026 é a eleição para o Senado. Mas, se Lula for reeleito e nomear mais quatro membros da corte, não é razoável supor que um Senado não petista conseguirá fazer o impeachment de quatro ou cinco ministros do STF. Se não fizer, a maioria do STF será pró-PT e isso não será alterado na primeira metade deste século: como mostrei, mas convém repetir, nem em 2030, nem em 2034, nem em 2038 essa maioria pró-PT será alterada. Claro que, se mudarmos as regras de indicação para o STF e de duração do mandato dos ministros, seria possível alterar essa maioria. Mas para mudar as regras é necessário que a maioria do STF não julgue inconstitucionais as mudanças legais aprovadas pela maioria do parlamento.
De sorte que Lula e o PT só têm uma saída: vencer a eleição a qualquer preço para poder nomear mais quatro "Dinos" para o STF fazendo uma maioria aplastante na suprema corte. A saída para Moraes e Toffoli, Gonet e Andrei é a mesma! O que significa que todos esses estão, objetivamente, na campanha Lula 2026.
Sim, os militantes do PT estão defendendo Moraes, Gonet e Andrei. Na cabeça deles faz sentido: o primeiro é aliado do governo contra os golpistas, o segundo foi indicado por Lula e o terceiro é ex-segurança pessoal de Lula e Dilma. Estão até comparando o que acontece agora com a Lava Jato. E estão prontos para dizer que é mais um golpe das elites contra Lula e o PT, comandado pelo bolsonarista Mendonça para eleger Flávio e operado por bolsonaristas infliltrados na PF.
É bom frisar esse ponto. A militância petista está a um passo de confundir a campanha Lula com uma campanha de defesa de Moraes, Gonet e Andrei contra um suposto golpe da extrema-direita que estaria sendo comandado por Mendonça e operado por bolsonaristas infiltrados na Polícia Federal. E ainda por cima os militantes lulopetistas estão contextualizando tudo no quadro de uma ofensiva do imperalismo yankee, capitaneado por Trump, contra nossa soberania nacional. Já começam a aparecer as primeiras insinuações de que a CIA estaria por trás de Mendonça (assim como disseram na época que o FBI estava por trás de Moro).
Num jogo de cartas marcadas, Paulo Gonet não demorou para apresentar um documento pedindo a nulidade do relatório da Polícia Federal. Redigiu um documento que não tem qualquer valor jurídico, pois é uma defesa dele próprio (citado pela PF no rolo) e do seu aliado Alexandre de Moraes. Desde o início da tarde de ontem (01/09/2026) o governo e o PT já estavam alinhavando os argumentos que Gonet usou para redigir seu artigo de opinião.
Isso, entretanto, abre um flanco eleitoral importante. As oposições poderão dizer: se você quer a absolvição preventiva (sem investigação) de Moraes, Gonet e Andrei, vote em Lula para presidente. E aí, aquele que se vendeu como salvador da democracia e defensor perpétuo da soberania, será reapresentado à nação como protetor de poderosos que violaram as leis e degradaram o Estado democrático de direito.



