O campo que permitiu o excesso
I. O sintoma e o campo: para além da singularidade de Trump
Parto de uma reflexão provocada por um artigo recente do amigo e colega da Revista Inteligência Democrática, João Lobato, que realiza uma leitura particularmente instigante sobre a singularidade do fenômeno Trump, não no sentido de tratá-lo como mais um episódio dentro da longa tradição de lideranças autoritárias, autocráticas, teocráticas ou populistas — sejam elas de esquerda ou de direita — mas justamente ao deslocar o olhar para algo que me parece decisivo: Trump como sintoma, e não como exceção, como expressão de uma transformação mais profunda do campo político contemporâneo, e não como um desvio isolado que poderia ser explicado por categorias simplificadoras como “ascensão da extrema-direita” ou como mero efeito colateral de crises econômicas ou até mesmo de uma suposta crise estrutural do capitalismo.
Essa leitura, que considero correta e ao mesmo tempo provocadora, abre uma questão que me parece ainda mais relevante e que serve como ponto de partida para este ensaio: se estamos diante de um fenômeno que pode ser tratado como acidente histórico ou se, ao contrário, estamos diante de algo que foi sendo progressivamente produzido por dinâmicas coletivas do próprio campo político ao longo do tempo, isto é, se a emergência dessas figuras não deve ser compreendida apenas como resultado de condições externas — crises econômicas, instabilidades institucionais ou transformações tecnológicas — mas como consequência de um modo específico de operação do próprio campo, que, ao se reorganizar em torno de determinadas lógicas, passou a permitir não apenas o surgimento, mas sobretudo a legitimação dessas lideranças.
E aqui está o ponto central, que muitas vezes escapa às análises mais apressadas: o problema não é que figuras como Trump existam — elas sempre existiram, em diferentes formas e intensidades — mas o fato de que hoje elas são legitimadas a ponto de alcançarem estruturas de poder e, uma vez nelas, expandirem o campo do aceitável, fazendo com que ações, discursos e práticas que antes seriam imediatamente rejeitados como absurdos passem a ser progressivamente tolerados, depois relativizados e, por fim, incorporados como parte de uma racionalidade política legítima, muitas vezes sob a justificativa de que são respostas necessárias a um outro lado que teria, previamente, rompido os limites.
Essa legitimação não ocorre de forma súbita, nem como resultado de uma conversão ideológica massiva, mas como efeito acumulativo de um processo no qual o próprio campo político vai sendo tensionado, deslocado e, em certa medida, reconfigurado, e é nesse ponto que se torna impossível sustentar a ideia de que estamos apenas diante de uma reação unilateral, pois o que se observa é uma dinâmica muito mais complexa, na qual diferentes forças — inclusive dentro do campo progressista — passam a operar sob uma lógica que transforma a política em guerra, uma lógica que, embora tenha raízes em tradições de pensamento que entendem o conflito como motor da transformação social, vai além de seu enquadramento original e passa a se manifestar como postura permanente, como forma dominante de atuação, na qual o outro deixa de ser um adversário e passa a ser um inimigo a ser combatido, neutralizado ou, em última instância, eliminado do espaço legítimo da política.
E quando essa lógica se estabiliza, mesmo que parcialmente, ela produz efeitos que vão muito além das intenções iniciais de qualquer campo específico, pois ao operar continuamente sob a gramática da guerra, o campo político passa a gerar, quase inevitavelmente, as condições para o surgimento daquilo que ele próprio afirma combater, criando um ambiente no qual o excesso deixa de ser uma exceção e passa a ser percebido como resposta legítima ao excesso do outro, instaurando um ciclo que tende não à correção, mas à intensificação.
II. Ressentimento, espelhamento e a captura dos razoáveis
Esse processo se torna ainda mais evidente quando observamos o papel do ressentimento como força organizadora do campo político contemporâneo, não apenas como uma reação localizada a condições específicas, mas como um elemento difuso que atravessa diferentes grupos, classes e identidades, sendo constantemente ativado por narrativas que operam a partir da identificação de injustiças — reais ou percebidas — e da atribuição de responsabilidade a um outro claramente definido, e é nesse ponto que o ressentimento deixa de ser apenas um afeto e passa a se tornar uma estrutura, uma lente através da qual a realidade política é interpretada e organizada.
Nos últimos dez ou quinze anos, esse ressentimento foi sendo alimentado por uma combinação de fatores — entre eles, sim, crises econômicas, transformações tecnológicas e mudanças culturais profundas — mas o que parece decisivo não é a existência desses fatores em si, e sim a forma como eles foram politicamente mobilizados dentro de um campo já tensionado por uma lógica de confronto permanente, de modo que, ao invés de serem canalizados para processos de reconstrução institucional ou de elaboração coletiva, eles foram incorporados a uma dinâmica de intensificação do conflito, na qual cada lado passa a justificar suas próprias radicalizações a partir das radicalizações do outro.
É nesse contexto que se produz aquilo que talvez seja um dos fenômenos mais relevantes — e menos compreendidos — desse processo: a captura dos razoáveis, isto é, o momento em que indivíduos que, em outras circunstâncias, tenderiam a posições mais moderadas ou equilibradas passam a ser gradualmente absorvidos por esse ciclo de escalada, não necessariamente por adesão consciente a posições extremas, mas por um processo de normalização progressiva no qual aquilo que antes era inaceitável passa a ser percebido como necessário, ou ao menos inevitável, diante do comportamento do outro lado.
E essa captura não ocorre sem ambivalência, nem sem consequências, pois ela frequentemente se acompanha de uma espécie de descompasso entre expectativa e realidade, no qual indivíduos que contribuíram para a legitimação de determinadas lideranças ou discursos se veem, posteriormente, confrontados com ações que não haviam previsto, gerando uma reação de surpresa, de espanto ou mesmo de arrependimento, como se aquilo que agora se manifesta de forma explícita não fosse, na verdade, a continuação lógica de um processo que já estava em curso.
Mas, nesse ponto, o sistema já se encontra em um estado de reforço positivo, um lock-in, no qual cada movimento reforça o padrão anterior e torna cada vez mais difícil qualquer retorno a uma condição anterior de equilíbrio, porque a própria estrutura do campo passa a punir comportamentos moderados e a recompensar posições mais extremas, criando um ambiente no qual a escalada não apenas se torna provável, mas funcional, isto é, ela passa a ser percebida como a única forma eficaz de atuação política.
E é precisamente nesse ambiente que fenômenos como o trumpismo deixam de ser compreendidos como exceções e passam a ser vistos como produtos, não de um desvio isolado, mas de uma reorganização mais ampla do campo político, na qual a lógica da guerra, ao ser continuamente reiterada, acaba por produzir as condições para a emergência de lideranças que operam no limite — ou além dele — das normas democráticas, ao mesmo tempo em que encontram, paradoxalmente, respaldo suficiente para sustentar sua legitimidade.
III. Radicalidade democrática e a interrupção da escalada
Se esse diagnóstico estiver, ao menos em parte, correto, então a questão que se impõe não é apenas a de compreender como chegamos até aqui, mas sobretudo a de pensar como interromper essa dinâmica antes que seus efeitos se tornem ainda mais difíceis de reverter, e nesse ponto parece insuficiente apostar em uma simples moderação ou em um retorno espontâneo a formas anteriores de convivência política, porque o sistema, uma vez capturado por essa lógica de reforço, não tende a se corrigir por si mesmo, mas a se intensificar, exigindo, portanto, uma ação consciente, deliberada e, em certo sentido, contraintuitiva em relação à própria dinâmica que hoje organiza o campo.
O que se torna necessário, portanto, não é uma posição equidistante entre os polos, nem uma tentativa de neutralidade que frequentemente é percebida — e muitas vezes corretamente — como omissão, mas algo que poderíamos chamar de uma radicalidade democrática, isto é, uma posição ativa que afirma de forma clara e inequívoca as condições que tornam a democracia possível, ao mesmo tempo em que deslegitima práticas e discursos que operam fora dessas condições, independentemente de sua origem ideológica, o que implica não apenas um posicionamento discursivo, mas uma reorganização concreta das formas de participação política.
E aqui há um ponto adicional, talvez ainda mais difícil, porque não se trata apenas de se desvincular de fluxos informacionais, redes sociais ou circuitos simbólicos que operam sob a lógica da guerra e da captura afetiva, mas também de não participar, mesmo quando determinadas ações parecem, isoladamente, legítimas ou justificáveis, de movimentos coletivos que, na prática, funcionam como vetores de captura, isto é, que mobilizam pessoas em torno de causas aparentemente válidas, mas que, estruturalmente, acabam redirecionando esse fluxo para dinâmicas de radicalização, reforço de polarização e aprofundamento do conflito.
Isso exige uma vigilância política mais sofisticada, porque a captura não se dá apenas pela adesão direta a discursos extremos, mas muitas vezes por meio de engajamentos parciais, pontuais ou aparentemente neutros, que acabam sendo incorporados por estruturas mais amplas que operam segundo essa lógica, de modo que resistir, nesse contexto, não é apenas reagir, mas escolher cuidadosamente os espaços, os meios e as formas de atuação, evitando reforçar dinâmicas que, no limite, se alimentam justamente da resistência que pretendem combater.
Nesse sentido, trata-se de construir uma forma de resistência que não possa ser capturada, ou que, ao menos, minimize essa possibilidade, o que implica, por exemplo, estabelecer condições claras de participação, recusar enquadramentos que transformem qualquer mobilização em instrumento de polarização adicional e, sobretudo, reconhecer rapidamente os momentos em que determinadas iniciativas passam a operar fora do campo democrático, interrompendo a participação e retirando o suporte antes que a captura se consolide, e, mais do que isso, criando mecanismos — formais ou informais — que dificultem que esses mesmos fluxos sejam reutilizados de maneira recorrente pelos mesmos grupos.
Mas essa recusa, por si só, não é suficiente, porque o vazio deixado pela não participação tende a ser rapidamente ocupado pelas forças que já operam dentro dessa lógica, e por isso a radicalidade democrática precisa se traduzir também em ação positiva, em mobilização concreta, em organização política efetiva, seja na esfera pública — por meio da formação de opinião, da construção de narrativas e da ampliação de espaços de debate — seja nas esferas privadas, nas conversas cotidianas, nos processos de convencimento e de ativação política que, embora menos visíveis, são decisivos para a formação de maiorias.
Isso implica também um engajamento mais direto com a política institucional, seja incentivando o surgimento de candidaturas que operem fora da lógica da polarização, seja participando ativamente de campanhas, articulações partidárias ou mesmo de estruturas meta-partidárias que tenham como objetivo reconfigurar o campo político a partir de uma lógica distinta, capaz de interromper a dinâmica de reforço dos extremos e de reconstruir, ainda que gradualmente, as condições de um espaço comum minimamente funcional.
E talvez esse seja, ao mesmo tempo, o ponto mais exigente e o mais necessário dessa proposta, porque ele exige reconhecer que o imperativo do momento não é apenas escolher entre alternativas dadas dentro de um campo já deteriorado, mas atuar para modificar o próprio campo, criando as condições para que outras alternativas possam emergir, o que implica aceitar um grau maior de incerteza, de esforço e de responsabilidade, mas também a possibilidade real de interromper um processo que, se deixado à sua própria lógica, tende a produzir consequências cada vez mais graves.
Fenômenos como Trump, portanto, não devem ser compreendidos como acidentes, nem como meros reflexos de crises externas, mas como expressões de um processo no qual o próprio campo político foi, ao longo do tempo, permitindo — e, em certa medida, produzindo — as condições para sua emergência, e a pergunta que permanece, diante disso, não é apenas como esses fenômenos surgem, mas o que estamos dispostos a fazer, individual e coletivamente, para deixar de produzi-los, antes que aquilo que hoje ainda nos surpreende se torne, definitivamente, a norma.




