O Irã é a guerra
A guerra de Israel e EUA contra a guerra do Irã
Há décadas o Irã vive em guerra, se considerarmos - seguindo o velho autocrata Hobbes (1651) - que “a guerra não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida… [já que] a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal…” (1). A guerra do Irã teocrático é contra Israel, contra os judeus, contra os democratas e, por último, contra todos os infieis por meio de um levante da Ummah numa jihad universal.
O Irã dos Aiatolás e da Guarda Revolucionária é um país fora da lei internacional. A atual guerra movida por Israel e os EUA contra o Irã é uma guerra contra a guerra do Irã. Mas essa guerra também viola a lei internacional.
Há diferenças, porém, entre os contendores. O Irã não é e jamais foi uma democracia. Israel ainda é uma democracia (a única do Oriente Médio), embora em processo de autocratização sob o governo populista-autoritário de Benjamin Netanyahu. Os EUA ainda são uma democracia, embora em processo de autocratização sob o governo populista-autoritário de Donald Trump. Não obstante tais diferenças relevantes, todos neste momento estão violando a lei internacional.
Lei internacional?
Sim, os democratas defendemos a noção de lei internacional, embora saibamos que não existe democracia no plano internacional. Mas defendemos um mundo com regras, baseadas em acordos entre os países. Um mundo sem regras é um mundo onde a força bruta faz a lei. É um mundo tenebroso, onde só vigora a lei do mais forte.
Todavia, os organismos internacionais que temos não dão conta de manter a vigência dessas regras (que são chamadas de leis internacionais) se os países mais fortes não estão dispostos a respeitá-las - seja porque não participaram dos acordos que as geraram, seja porque participaram, mas resolveram quebrar esses acordos, muitas vezes declaradamente e outras vezes na prática, como estão fazendo os Estados Unidos sob o governo Trump.
A ONU é o melhor exemplo desse impasse. A maioria dos regimes vigentes nos 193 Estados-nações membros não é democrática: somando as democracias liberais (V-Dem) e plenas (The Economist Intelligence Unit) só temos cerca de 35 países. A maioria da Assembleia Geral da ONU, portanto, é composta por regimes não-liberais e não democráticos: democracias apenas eleitorais, autocracias eleitorais e autocracias fechadas (para o V-Dem) ou democracias defeituosas, regimes híbridos e regimes autoritários (para a EIU). Então as democracias propriamente ditas podem ser derrotadas em qualquer proposta que submeterem à votação no órgão máximo da ONU (a Assembleia Geral). Lá o voto do Sudão neutralizará o voto da Noruega, o voto da China fará sumir o voto do Reino Unido, o voto de Cuba anulará o voto do Uruguai.
Por outro lado, qualquer proposta levada por uma democracia ao Conselho de Segurança da ONU, poderá ser vetada pelas ditaduras da Rússia ou da China (que têm poder de veto no Conselho). Imaginar que algum país poderia obter autorização desse conselho para advertir ou sancionar uma ditadura que financia o terrorismo (como o Irã), viola direitos humanos (como a China) ou invade outros países (como a Rússia faz na Ucrânia) é uma ingenuidade. Acusar um país de estar fazendo uma "guerra ilegal" porque não obteve autorização do Conselho de Segurança da ONU é uma alegação solerte.
Que fique claro que, do ponto de vista da democracia, a guerra é um modo ilegítimo de regulação de conflitos e só se justifica quando um país, vítima de invasão estrangeira com objetivos de conquista, está se defendendo para não desaparecer como nação autônoma (como é o caso atual da Ucrânia). A guerra, em geral, é um modo de regulação autocrático: nações democráticas não travam guerras entre si.
Aqui é preciso entender que a autocracia é a guerra. O melhor exemplo, que vem ao caso exatamente agora, é o do Irã. O Irã teocrático não faz guerra: ele é a guerra. Essa guerra é um modo de ministrar a morte, para os infieis e para os próprios fieis (pelo martírio), como oferenda sacerdotal-militar, pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC), uma espécie de SS (Schutzstaffel). Enquanto esse corpo não for dissolvido não haverá paz no Oriente Médio. Não adianta exigir do Irã que interrompa seu programa nuclear. Não adianta paralisar a produção de seus mísseis balísticos. Não adianta derrotar seus atuais braços terroristas (Hezbollah, Jihad Islâmica, Houthis, Hamas etc). E nem adianta matar os aiatolás e outros chefes religiosos, políticos ou militares iranianos. Se o corpo (Sepáh e-Pásdárán) não for dissolvido, nada feito.
Entretanto, Israel, a única democracia do Oriente Médio (ainda que não possa mais ser considerado uma democracia liberal ou plena, sobretudo em razão das ações antidemocráticas do governo populista-autoritário de Netanyahu), recebeu um número significativamente maior de resoluções de condenação da ONU do que o Irã, uma teocracia maligna para a democracia e para a humanidade.
Ao contrário da União Europeia (e até do Mercosul), a ONU não tem cláusula democrática. Não tem e não terá, a menos que seja reformada por uma maioria de países democráticos (coisa que está longe de ser alcançada). Mesmo assim, as democracias precisam se defender do avanço do eixo autocrático que pretende exterminá-las da face da Terra. O Irã e seus braços terroristas, juntamente com a Rússia, por atuarem como atuam - fazendo da guerra permanente um mecanismo de reprodução do seu modo de vida autocrático - estão na vanguarda dessa ofensiva contra as democracias liberais. Sim, o Irã teocrático já foi constituído com o objetivo precípuo de apagar Israel do mapa, matar os judeus, os democratas e, no limite, todos os infieis que não se subordinarem.
Antes que seja muito tarde (se já não for), a imensa maioria dos vinte e sete países da União Europeia (2), Reino Unido, Noruega, Suíça, Islândia, Canadá, Barbados, Costa Rica, Suriname, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia, sem abandonar a ONU atual, têm que liderar agora uma espécie de "Organização das Nações Democráticas Unidas", atraindo dezenas de países em transição democratizante (que ainda podem ser chamados de democracias, conquanto defeituosas ou apenas eleitorais) para essa articulação. Isso deve ser feito antes que esses países sejam capturados pelo eixo autocrático (como já está acontecendo com os regimes eleitorais parasitados por populismos; para citar apenas alguns exemplos: México, Colômbia, Brasil, África do Sul, Indonésia).
Notas
(1) Cf. Hobbes, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
(2) Pelo menos Alemanha, Áustria, Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal e Suécia.


