O mundo precisa continuar nascendo
Democracia como abertura permanente à coautoria e à transformação
Este artigo nasceu de um comentário que escrevi em resposta a Mundos sociais, democracia, de Diogo Dutra, publicado na Revista ID. Partindo de algumas formulações de Ontogênese, Diogo desloca a crise democrática da simples polarização para a coexistência entre mundos sociais distintos e faz algo que considero cada vez mais raro: em vez de usar um conceito apenas para explicar aquilo que já sabíamos, leva-o até um lugar em que ele começa a abrir novas perguntas.
A força desse deslocamento está em reconhecer que talvez já não estejamos apenas diante de pessoas que discordam sobre os mesmos acontecimentos. Estamos diante de pessoas que aprenderam, dentro dos mundos que habitam, a reconhecer fatos diferentes, autoridades diferentes, perigos diferentes, futuros diferentes, e que muitas vezes já não possuem sequer uma linguagem comum para entrar em conflito.
Isso muda bastante a questão.
Porque a democracia não precisa apenas administrar opiniões diferentes. Ela precisa sustentar a convivência entre mundos que organizam a própria realidade de maneiras diferentes, sem obrigá-los a desaparecer, mas também sem permitir que um deles capture todo o campo e transforme os demais em erro, ameaça, pecado, ignorância ou atraso.
A formulação da democracia como uma tecnologia social de convivência entre diferenças profundas é fértil pacas. E eu acrescentaria uma camada que, inclusive, estou começando a desenvolver com mais profundidade num novo livro, expandindo algumas consequências políticas e democráticas que aparecem em Ontogênese.
Para quem quiser conhecer a base dessa investigação sobre mundos sociais, alterpoiese e o real que nasce entre pessoas, meu livro Ontogênese: Como o real nasce entre pessoas está disponível na Amazon.
Talvez a democracia não seja apenas a capacidade de diferentes mundos coexistirem.
Talvez ela seja a condição ontológica pela qual um mundo social permanece aberto à coautoria, à contestação e à transformação por aqueles que vivem suas consequências.
Ou seja, democracia não é apenas um acordo sobre como mundos diferentes devem conviver. É a recusa de permitir que alguém, algum grupo, alguma religião, alguma ideologia, alguma elite econômica, alguma casta intelectual ou algum suposto conjunto de sábios adquira o monopólio da criação do mundo que todos os outros serão obrigados a habitar.
Veja que todo mundo social produz realidade, mas produz também limites, cegueiras, exclusões, linguagens que autorizam algumas pessoas e silenciam outras. Nenhum mundo é inocente. Nem mesmo o mundo democrático. E exatamente por isso ele precisa permanecer capaz de ser revisto por dentro, por aqueles que sustentam sua existência e pagam o preço de suas decisões.
Quando essa abertura desaparece, pode até haver eleições, tribunais, partidos, discursos sobre liberdade e todas as estruturas reconhecíveis de uma democracia, mas algo anterior já começou a morrer: a experiência concreta de coautoria.
A pessoa continua chamada de cidadã, mas já não sente que participa da criação do mundo comum. A pessoa vota, trabalha, paga impostos, obedece às leis, é afetada por decisões, algoritmos, instituições e estruturas econômicas que não compreende e sobre as quais não possui praticamente nenhuma influência. Formalmente, ainda está dentro da democracia. Ontologicamente, começa a ser transformada em habitante passiva de um mundo criado por outros. Quantos de nós não nos sentimos assim?
E talvez seja justamente aí que uma certa sedução autoritária tenha início.
Quando as pessoas deixam de experimentar autoria, algumas se retiram, outras se tornam cínicas, outras procuram alguém que prometa assumir sozinho a tarefa de reorganizar o mundo. A apatia e o desejo por um líder forte parecem opostos, mas talvez nasçam da mesma ferida: a perda da sensação de que o mundo também depende de nós.
Por isso, tenho pensado numa formulação bastante dura, mas que me parece necessária: autocracia é o monopólio da ontogênese.
Ela acontece quando alguém ou algum mundo se declara capaz de definir sozinho o real, estabelecer o que é verdadeiro, decidir o que deve existir, determinar quem pode falar e organizar a vida daqueles que passam a ser tratados não mais como coautores, mas como população, massa, rebanho, usuários ou recursos humanos.
Nesse sentido, a ecologia de mundos que vc cita toca num ponto central. Uma ecologia não existe apenas porque há diversidade. Pode existir diversidade dentro de uma prisão, desde que todas as diferenças estejam submetidas ao mesmo carcereiro. Uma verdadeira ecologia de mundos exige que nenhuma unidade consiga ocupar o lugar do todo, e que as relações permaneçam abertas o suficiente para que cada mundo possa afetar e ser afetado pelos demais.
Isso não significa que todos os mundos sejam equivalentes, nem que a democracia deva tolerar passivamente qualquer coisa. Um mundo que nega aos outros a possibilidade de existir, de sair, de discordar ou de participar da criação do espaço comum rompe a própria condição ecológica que tornou sua existência possível.
A democracia precisa, portanto, defender a diferença, mas também precisa defender o campo contra os mundos que desejam capturá-lo por inteiro. O Augusto fala tanto da democracia como processo de resistência autocrática. Aqui, adiciono esta camada.
E há aqui uma possibilidade ainda mais interessante. Quando mundos diferentes conseguem interagir sem fusão, sem um centro soberano e sem que um deles seja obrigado a desaparecer, pode surgir algo que não existia em nenhum deles isoladamente. Não apenas um compromisso intermediário, mas uma inteligência humana compartilhada, fugaz, imprevisível, produzida no entre.
Ela não é consenso, nem a soma das opiniões, nem o resultado de um comando superior.
É um fenômeno emergente que aparece quando a rede de relações consegue produzir uma resposta que nenhuma pessoa, grupo ou mundo social possuía antes do encontro.
Talvez essa seja uma das razões mais profundas para defendermos a democracia. Não porque as maiorias estejam sempre certas, nem porque todas as opiniões tenham o mesmo valor, mas porque nenhuma inteligência central consegue substituir aquilo que só pode emergir da interação viva entre muitos.
A autocracia promete eficiência porque elimina parte da complexidade. Mas, ao eliminar a complexidade, elimina também as condições de nascimento de uma inteligência maior do que a do próprio autocrata. Ela centraliza o poder e, junto com ele, centraliza a ignorância.
Seu artigo me ajudou a enxergar com ainda mais clareza que a democracia não pode ser pensada apenas como regime político, arranjo institucional ou tolerância entre diferentes concepções de vida. Ela talvez seja uma forma humana de manter aberto o processo pelo qual o mundo continua nascendo entre nós.
E é exatamente por essa abertura que ela é difícil, imperfeita, barulhenta, lenta e constantemente ameaçada. Porque não entrega a ninguém o conforto de possuir a resposta final.
O mundo permanece aberto, Diogo.
E talvez a democracia seja justamente o nome político que damos à coragem de não fechá-lo.




