O que os agentes democráticos podem fazer
Um resumo das providências
Fiz um resumo do artigo Atravessando uma nova idade das trevas que pouca gente leu até agora, talvez devido à extensão do texto. Não é um resumo da análise e sim das providências práticas que podem ser tomadas pelos agentes democráticos.
Introdução
Estamos sob uma grande onda de autocratização (a terceira dos últimos 100 anos). São grandes as chances de o mundo estar entrando em uma idade das trevas para a democracia. Durante esse período tenebroso os agentes democráticos correm o risco de desaparecer ou de ficarem reduzidos a um número tão pequeno que não consigam mais desempenhar as funções que os definem: resistir às tiranias, se opor ao golpismo e ao hegemonismo, recusando praticar a política como continuação da guerra por outros meios (na base do “nós contra eles”) e fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática. Isso pode acontecer mesmo quando a maioria das pessoas de um país democrático ou autocrático declare que prefere a democracia à autocracia. É um grande problema pois, como sabemos, não há democracia sem agentes democráticos. Para atravessar essa idade das trevas, preparando o advento de uma nova onda de democratização, elencamos abaixo oito providências que poderiam ser tomadas a partir de agora pelos agentes democráticos.
O que os agentes democráticos podem fazer
1 – AJUSTAR ANTENAS | Detectar pessoas que manifestam insuportabilidade com o modo de vida autocrático, com a guerra e a hierarquia. Estabelecer conexões com pessoas que têm esse mesmo emocionar (“sense8s”) e conversar com elas regularmente (1).
2 – ORGANIZAR MARKETPLACES DEMOCRÁTICOS | Manter seus próprios (e múltiplos) veículos de comunicação e neles publicar constantemente (com regularidade). Fazer desses veículos marketplaces que deem acesso a outros veículos democráticos semelhantes.
3 – CRIAR AGENTES DEMOCRÁTICOS DE IA | Criar agentes de IA que trabalhem para encontrar e reunir publicações semelhantes em agregadores e para construir linhas de pensadores de referência de uma tradição democrática escolhida (contextopedias democráticas: os novos “mosteiros irlandeses”) (2).
4 – ADOTAR PLATAFORMAS DE NETWEAVING | Adotar ou desenvolver novas plataformas interativas que viabilizem o netweaving nas redes de agentes democráticos.
5 – FUNDAR COMUNIDADES POLÍTICAS DEMOCRÁTICAS | Articular e animar comunidades políticas democráticas e estabelecer continuamente novos atalhos entre diversas comunidades políticas democráticas (conectando essas “ilhas na rede” entre si) (3).
6 – ESTABELECER NOVAS CONEXÕES LOCAIS | Atuar em espaços públicos, em territórios ou setores de atividades (como “poleis paralelas”) estabelecendo novas conexões locais (para que “água nova” entre continuamente) (4).
7 – MONTAR MÓDULOS SOCIAIS DE SOBREVIVÊNCIA | Construir módulos sociais de sobrevivência (módulos de sobrevivência baseada em convivência) nas comunidades democráticas para garantir que os agentes democráticos possam continuar exercendo suas atividades, praticando a solidariedade que começa em casa (e as comunidades democráticas são “casas da democracia”).
8 – INVENTAR INDICADORES SOCIAIS DE DEMOCRACIA | Desenvolver e aplicar novos indicadores de democracia baseados em capital social, capazes de monitorar a evolução da dinâmica do jogo (a democracia como modo-de-vida) e não apenas avaliar se - e em que medida - estão sendo ou não cumpridas as regras do jogo (a democracia como regime político).
Referências
(1) Sense8s. Na série de TV Sense8s (ou sensates), da Netflix, Lana Wachowski e Lilly Wachowski (2015-2018) narram a história (do futuro) de oito estranhos de diferentes partes do mundo (São Francisco, Londres, Berlim, Nairóbi, Mumbai, Seul, Cidade do México e Chicago) que, de repente, descobrem que estão mental e emocionalmente conectados. A metáfora é relevante porque a conversão à democracia não é somente (e talvez nem principalmente) uma escolha racional. Há sempre uma motivação emocional primária que leva a isso, uma insuportabilidade com o modo de vida autocrático, com a guerra e a hierarquia. Encontrar os sense8s é então estabelecer conexões com pessoas que manifestam o mesmo emocionar.
(2) Mosteiros irlandeses. Em Como os irlandeses salvaram a civilização, Thomas Cahill (1995) faz um fascinante e surpreendente relato de um episódio virtualmente ignorado nos anais da civilização ocidental. Entre a queda de Roma (476) e a ascensão de Carlos Magno (768) – período que ficou conhecido como a “Idade das Trevas” – o aprendizado, a erudição e a cultura simplesmente desapareceram do continente europeu. Foram três séculos de escuridão. O grande legado da civilização ocidental teria sido inteiramente perdido não fosse a intervenção crucial dos monges da Irlanda. A narrativa brilhante de Cahill detalha o papel fundamental dos irlandeses na preservação e transmissão da literatura clássica dos gregos e romanos. Enquanto o outrora vasto Império Romano se desintegrava em caos e ruína, durante o século 5, o analfabetismo tornou-se padrão, as grandes bibliotecas continentais desapareceram e o saber erudito deixou de existir. Trabalhando nas margens da Europa, na Irlanda, “ilha dos santos e estudiosos”, longe dos saques ocorridos no continente, os recém letrados escribas irlandeses começaram uma tarefa monumental: copiar cada pedaço da literatura ocidental que pudessem descobrir. Além de preservarem esta valiosa herança cultural, os monges irlandeses no exílio, inspirados por São Patrício, restabeleceram a leitura no continente, criando uma ponte crucial entre a Roma antiga e a Europa medieval. Os irlandeses, portanto, não apenas salvaram a civilização, mas se tornaram formadores da mentalidade medieval, colocando sua marca singular na cultura do Ocidente.
(3) Ilhas na rede. Em Islands in the Net, Bruce Sterling (1988) explora um futuro globalizado e saturado pela “Net”, uma rede mundial de dados que dita a economia e a vida social. O tema principal é a tensão entre os centros de poder tecnológico e as “ilhas” — locais na periferia (física ou digital) que tentam operar fora do controle das grandes corporações ou que buscam criar novos tipos de infraestrutura e governança. A obra antecipa um mundo onde a realidade única se estilhaça em diversos “clusters” ou bolhas sociais. O livro serve como metáfora para o presente: navegamos em um oceano de ilhas (bolhas) que podem ser tanto espaços de inovação democrática quanto ninhos de autocracia e jihadismo. Sterling anteviu o poder das grandes corporações (como as atuais MAGA Techs), mas não dos Estados autocráticos que estão movendo uma netwar (guerra antissocial) contra as democracias liberais.
(4) Polis Paralela. Em O Poder dos Sem-Poder, Vaclav Havel (outubro de 1978) comentou o conceito de Polis Paralela proposto por Vaclav Benda (maio de 1978). As Poleis Paralelas (ou Estruturas Paralelas) surgiram como um conceito fundamental da resistência dissidente na Tchecoslováquia comunista. Em vez de tentar derrubar o regime autoritário (pós-totalitário) por meio de uma revolução violenta ou de reformas políticas internas — que pareciam impossíveis na época —, eles propuseram a criação de estruturas sociais independentes que funcionassem paralelamente às instituições oficiais do Estado. A estratégia não buscava o confronto direto, mas sim o desengajamento. O objetivo era viver “dentro da verdade”, ignorando as mentiras do sistema oficial. Para tanto, Benda e Havel propunham empreender uma Educação Paralela (organização de seminários privados e “universidades de apartamento” para ensinar história, filosofia e literatura que eram proibidas ou distorcidas pelo Estado); Cultura e Arte Paralelas (produção de literatura clandestina (Samizdat), concertos de bandas de rock proibidas e exposições de arte em porões e casas particulares); Economia Paralela (troca de bens e serviços fora do controle estatal, baseada na confiança mútua e na necessidade); Informação e Mídia Paralelas (canais de comunicação independentes para circular notícias reais sobre o que acontecia no país e no mundo, combatendo a propaganda oficial). Não se tratava apenas de resistência civil à ditadura, mas de criar ambientes onde era possível experimentar a liberdade dentro de uma sociedade fechada pelo Estado autoritário. Possivelmente haverá muitos isomorfismos entre a sociedade pós-totalitária tcheca e o que serão as sociedades não-democráticas da terceira onda de autocratização.



