Os democratas num beco sem saída
Mas podem escavar um caminho para 2030
Se nada de extraordinário acontecer, pela primeira vez na história da Nova República teremos uma eleição presidencial sem nenhum candidato situado em uma posição mais de centro democrático-liberal, fora de uma polarização bipolar: seja esquerda x direita, socialistas x conservadores, povo x elites, neopopulistas x nacional-populistas.
Isso é um indicador gravíssimo de que estamos mais longe e não mais perto de virar uma democracia liberal. É sinal de que avançamos em um processo de autocratização do nosso regime político.
Não é culpa dos democratas se não há um candidato em quem votar para presidente no Brasil de 2026. É culpa da falta de democratas. Já mostramos isso no artigo Qual é o nosso problema? sobre o déficit de agentes democráticos na sociedade brasileira.
Agora os democratas foram colocados num beco sem saída. O discurso populista de esquerda, daqui para frente, será mais ou menos o seguinte:
Se você não vota em Lula então é de direita. Tanto é assim que, a não ser Lula, não existem candidatos que não sejam de direita. Mas a direita no Brasil é a extrema-direita. Logo, é golpista e fascista. Logo, se você não vota é Lula é golpista e fascista.
Entretanto, o fato de não termos um candidato democrata-liberal não pode ser uma desculpa para os que se dizem liberais recomendarem, direta ou indiretamente, o voto em Lula como o menos pior. Ficar batendo só no bolsonarismo e na direita é um modo indireto de fazer a campanha Lula.
Isso significa que, mesmo não tendo alternativa eleitoral no curto prazo, os democratas não podem deixar de criticar um governo que é populista, estatista, antipluralista e, portanto, iliberal. E que, além de tudo, se alinha ao eixo autocrático atualmente em guerra contra as democracias liberais.
Não é por acaso que todos os governos Lula foram simpáticos à ditaduras, desde que fossem (ou sejam) de esquerda (como as de Cuba, Venezuela, Nicarágua, Angola e, inacreditavelmente, até a do Irã). Não é por acaso que o governo brasileiro atual defende a soberania dessas ditaduras, mas não defende a soberania da Ucrânia. Não é por acaso que o governo brasileiro não defende a soberania da democracia liberal de Taiwan ameaçada de invasão e anexação pela ditadura chinesa de Xi Jinping. Não é por acaso que Lula sempre se manifestou contra o imperialismo norte-americano, mas não fez a mesma coisa em relação ao imperialismo da ditadura russa de Vladimir Putin.
Ou seja, haja o que houver, os democratas não podem defender, direta ou indiretamente, a continuidade de um governo que tem esse comportamento e promove tais alinhamentos antidemocráticos. Mesmo que seus adversários sejam a encarnação de Belzebu ou de Asmodai.
Ao contrário do que dizem os bolsonaristas o regime político brasileiro não é uma ditadura e sim uma democracia (apenas) eleitoral, portanto não-liberal (V-Dem), uma democracia não-plena ou defeituosa (The Economist Intelligence Unit). Nosso regime eleitoral é assim imperfeito, em grande parte, porque é parasitado por um governo populista. Mas não adianta trocar esse governo populista (de esquerda) por outro governo populista (de direita).
Governo não é regime político. Um governo pode ser autoritário e o regime político ser (pelo menos durante algum tempo) democrático. Se um governo autoritário ou populista (iliberal) se prorroga durante muito tempo, o regime político tende a se autocratizar.
Um regime político pode ser (pelo menos durante algum tempo) democrático e a cultura política da sua sociedade não ser predominantemente democrática (se os níveis de reciprocidade e cooperação entre as pessoas e de confiança entre elas e nas instituições forem muito baixos, o regime democrático entrará em risco de autocratização). Essa é a nossa situação atual indicada pelo déficit acentuado de agentes democráticos. E que se reflete na ausência de um candidato de centro democrático nas eleições deste ano.
Não há solução eleitoral no curto prazo para esse problema. As eleições de 2026 vão acontecer, as pessoas vão votar em quem quiserem, mas os democratas - em vez de ficarem perdendo tempo em especulações eleitoreiras idiotizantes - devem escavar um caminho para escapar do beco sem saída em que foram colocados pela polarização entre dois populismos. E têm pouco mais de quatro anos para fazer isso. Do contrário continuarão aprisionados - e apartados da cena pública - em 2030 e além.



