Por que a esquerda não entendeu Musk
Ou entendeu muito bem
Uma nota sobre a entrevista de Elon Musk a The Economist
As análises da esquerda sobre os Tech-Bros (que comandam as Big Techs) estão erradas, simplesmente erradas, quando classificam esses atores como reacionários de extrema-direita.
Vejamos o caso de Elon Musk. A esquerda entendeu quase nada de Musk; ou entendeu tudo.
Diogo Dutra acabou de publicar um interessante artigo sobre a entrevista concedida por Elon Musk a Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da The Economist. Ele tem razão. Mas, concordando com Diogo, assim interpreto o que Musk disse na entrevista:
Musk não é de extrema-direita, não é MAGA, embora haja interseções entre o seu pensamento e a ideologia dos próceres trumpistas no que tange à política conjuntural cotidiana (por exemplo, no apoio ao nacional-populismo de forças extremistas europeias, como a AfD da Alemanha).
Mas ele não é um reacionário, não quer fazer uma revolução para trás, não quer voltar ao século 11 e sim saltar diretamente para o século 23 (de Star Trek, a série original, que se passa entre 2255 e 2293). Claro que, para ele, não importa os que forem deixados para trás nesse salto.
Ele toma como inspiração um mundo futuro de abudância (e sem dinheiro), como em Star Trek e como leu na série Culture de Ian M. Banks que descreve uma sociedade interestelar pós-escassez. Não importa que a Frota Estelar de Star Trek seja uma sociedade hierárquica e que não haja democracia naquele imaginário mundo futuro (pois Musk, definitivamente, não é um democrata).
É evidente que Musk nada entende de política e por isso não valoriza a democracia. No mundo futuro que vislumbra não haverá política, o que é - como dizia Hannah Arendt (c. 1950), nos seus escritos póstumos sobre O que é política - pavoroso. Tão pavoroso, dizia ela, como a utopia marxista de um mundo sem política (quer dizer, sem democracia):
“O ideal socialista de uma condição final da Humanidade sem Estado — que, em Marx, significa sem política, não é de maneira alguma utópico: só é pavoroso”.
Musk é um acelerador de sua própria utopia (ou distopia), prevendo a ocorrência de uma singularidade no horizonte de 10 anos (em que a IA digital e a IA física - os robôs - substituirão todas as atividades humanas necessárias à sobrevivência). Curiosamente, isso lembra demais aquele reino da abundância vislumbrado por Karl Marx, em que as pessoas trabalharão porque o ato de criar, transformar a natureza e cooperar com outros seres humanos, se torna uma fonte de prazer e autorrealização, não porque precisam sobreviver.
Com efeito n’A Ideologia Alemã, Marx (1845-1846) prescreve:
“Na sociedade comunista, na qual ninguém tem uma esfera exclusiva de atividade, mas cada um pode se realizar em qualquer ramo que desejar, a sociedade regula a produção geral e torna assim possível que eu faça hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite, criticar depois do jantar, conforme me der vontade, sem jamais me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.”
A ideia muskiana de Marx ou marxiana de Musk é que a tecnologia liberará o indivíduo para fazer o que bem entender, só então esse indivíduo estará liberado para realizar atividades produtivas, artísticas, científicas e recreativas, quando e como quiser. Note-se que a liberdade aqui é jogada para o futuro, pois o reino da liberdade só será possível num reino da abundância.
Musk, certamente, não é de extrema-direita, mas pode ser algo ainda mais perigoso. Em vez da alienação do presente pela volta a um passado mítico, aliena o presente pela antecipação de um futuro também mítico. Curioso que ele fala que acerta as previsões mais do que os outros humanos, mas não há previsão: a história não está traçada e por isso a profecia não advinha futuro, cria futuro. É o que Musk tenta fazer: reengenharia temporal. É bom reler Fundação do Asimov para entender todas as consequências disso.
Musk foi transformado em Inimigo Público Universal Número 1 pela esquerda (assim como outros Tech Bros) porque compete no mesmo terreno imaginário em que transita o discurso utópico-moral da esquerda (de raiz marxista): o terreno de fabricar futuro. Ou seja, de trancar o futuro, escolhendo uma linha temporal de desdobramento dos eventos e excluindo as demais. Nesse sentido é um adversário da sociedade aberta (que só pode ser aquela que tem um futuro aberto).



