Quando prever o futuro parece autorizar governá-lo
Um ensaio sobre a recente entrevista de Elon Musk à The Economist
Nos últimos dias assisti à entrevista de Elon Musk para a The Economist. Como acontece com frequência nas entrevistas dele, boa parte da conversa gira em torno de inteligência artificial, robótica, exploração espacial e das transformações que essas tecnologias poderão produzir nas próximas décadas. São temas que acompanho com bastante interesse há anos e sobre os quais Musk continua sendo uma das vozes mais relevantes, concordemos ou não com suas previsões.
O recorte deste ensaio, entretanto, é outro. Meu olhar aqui é essencialmente político, especialmente quando observo a entrevista pelas lentes da democracia liberal. E talvez seja justamente isso que torne essa conversa particularmente interessante. Não se trata de uma entrevista conduzida por um veículo especializado em tecnologia ou negócios, mas pela The Economist, uma publicação cuja tradição editorial está profundamente ligada ao pensamento liberal. Não por acaso, Zanny Minton Beddoes (editora-chefe) conduz a conversa de forma recorrente para questões como poder, responsabilidade, influência política e as consequências produzidas por quem passa a exercer tamanha capacidade de moldar o debate público.
Quem acompanha alguns dos meus ensaios, seja por um lado mais profissional no Linkedin, seja mais político-democrático na Revista Inteligência Democrática talvez reconheça que esta reflexão não surge do nada. Nos últimos anos escrevi sobre a biografia de Elon Musk, sobre A Revolta de Atlas e sobre algumas transformações culturais que parecem emergir do Vale do Silício. A entrevista não altera substancialmente minha leitura sobre Musk. Ela acrescenta, porém, uma peça que até então eu não havia conseguido formular com clareza.
A primeira metade da conversa permanece concentrada na inteligência artificial. Musk descreve um horizonte em que os próximos cinco ou dez anos deverão alterar profundamente a economia, o trabalho e praticamente todos os setores da vida humana. Independentemente de concordarmos com o horizonte temporal ou com a intensidade dessas transformações, trata-se de uma discussão extremamente relevante. É difícil pensar o futuro das democracias, da economia ou mesmo da condição humana sem considerar o impacto que a inteligência artificial provavelmente terá nas próximas décadas.
Em determinado momento, Zanny pergunta por que sua posição sobre inteligência artificial mudou tanto ao longo dos últimos anos. A pergunta faz sentido. Durante muito tempo, Musk foi uma das vozes mais conhecidas alertando para os riscos da IA. Defendeu desaceleração, assinou manifestos, falou em riscos existenciais e frequentemente criticou a velocidade com que a tecnologia avançava. Hoje lidera uma empresa criada justamente para disputar a fronteira dessa corrida.
A resposta de Musk é relativamente simples. Segundo ele, houve um momento em que percebeu que suas tentativas de desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial acabavam produzindo exatamente o efeito contrário. Quanto mais defendia cautela, mais a corrida parecia acelerar. Diante dessa percepção, concluiu que fazia mais sentido participar desse processo do que permanecer tentando impedi-lo.
Confesso que essa resposta não me causou qualquer estranhamento. Há bastante pragmatismo nela. Quem trabalha com inovação sabe que hipóteses mudam, mercados mudam e estratégias precisam ser revistas quando a realidade demonstra que nossas premissas estavam erradas. A capacidade de abandonar uma hipótese diante de novas evidências talvez seja uma das virtudes mais importantes de um bom empreendedor.
Mas essa resposta acabou me chamando atenção por outro motivo.
Ela revela uma determinada forma de se relacionar com sistemas complexos. Formula-se uma hipótese, intervém-se sobre a realidade, observam-se os resultados e, caso eles contrariem a expectativa inicial, reformula-se a estratégia. É um ciclo permanente de aprendizagem.
Esse modo de operar funciona muito bem na ciência, na engenharia e no empreendedorismo. Em grande medida, foi ele que permitiu o surgimento de boa parte das inovações que hoje transformam o mundo.
A questão que a entrevista parece levantar é se essa mesma lógica continua suficiente quando deixa de orientar apenas decisões empresariais e passa a orientar intervenções sobre sistemas políticos.
É justamente nesse ponto que a conversa muda de direção.
A partir daí entram temas como sua atuação política na Europa, o apoio a partidos de extrema-direita, suas manifestações sobre o Reino Unido, suas críticas à imprensa tradicional, sua atuação no governo americano por meio do DOGE e as consequências produzidas por algumas dessas decisões, inclusive em programas humanitários internacionais. Em determinado momento, a própria jornalista passa a fazer parte da conversa quando Musk amplia suas críticas ao jornalismo profissional e às instituições tradicionais de mediação da informação.
O interessante é que Zanny raramente procura convencê-lo de que suas posições estão erradas. Ela insiste em outro tipo de pergunta. Repetidas vezes procura entender como ele percebe as consequências produzidas pela influência que hoje exerce.
Existe uma diferença importante entre emitir uma opinião política e fazê-lo ocupando uma posição capaz de alterar o próprio ambiente político. Um cidadão comum pode publicar uma mensagem defendendo um partido, questionando uma eleição ou criticando um governo. Elon Musk também pode. Formalmente, ambos exercem o mesmo direito à liberdade de expressão. Mas dificilmente se pode dizer que ambos produzem efeitos semelhantes.
Quando Musk afirma, por exemplo, que o Reino Unido caminha para uma guerra civil, apoia determinados partidos europeus ou utiliza sua própria plataforma para amplificar determinadas narrativas, suas manifestações deixam de ser apenas opiniões individuais. Elas reorganizam agendas públicas, influenciam mercados, alteram o comportamento de milhões de pessoas e frequentemente se transformam em notícia por si mesmas.
Foi assistindo a essa parte da entrevista que comecei a perceber que a preocupação de Zanny não era exatamente política no sentido partidário. Ela parecia interessada em uma questão anterior: como alguém que concentra tanto poder compreende os limites da própria capacidade de antecipar as consequências de suas ações.
Essa distinção me parece importante.
Toda democracia liberal parte do reconhecimento de que indivíduos podem — e frequentemente irão — errar em suas interpretações da realidade. Isso não constitui um problema em si. O problema surge quando a capacidade de produzir consequências cresce muito mais rapidamente do que a capacidade de antecipá-las.
É justamente essa assimetria que gostaria de chamar, provisoriamente, de inconsequência.
Não utilizo aqui a palavra em seu sentido moral. Não se trata de irresponsabilidade, negligência ou má-fé. Tampouco significa agir sem considerar os efeitos das próprias decisões.
Utilizo-a em um sentido político.
Chamo de inconsequência a dificuldade estrutural de incorporar todas as consequências produzidas pela própria capacidade de influenciar sistemas sociais complexos.
Essa dificuldade não decorre da falta de inteligência. Pelo contrário. Ela pode coexistir justamente com pessoas excepcionalmente competentes.
Quanto maior a influência de um indivíduo, mais improvável se torna que ele consiga antecipar todos os efeitos indiretos produzidos por suas próprias intervenções. Em sistemas complexos, consequências não dependem apenas das intenções nem da qualidade das previsões. Dependem também das inúmeras interações desencadeadas depois que uma decisão é tomada.
Talvez seja justamente por isso que a tradição liberal nunca tenha depositado sua confiança na virtude, na inteligência ou na capacidade preditiva de indivíduos extraordinários. Seu esforço histórico foi outro: construir instituições capazes de limitar os efeitos inevitáveis da falibilidade humana, inclusive quando essa falibilidade se manifesta em pessoas brilhantes.
Foi nesse momento que uma observação feita por Musk no final da entrevista passou a fazer mais sentido para mim.
Ao comentar sua capacidade de antecipar tendências, ele diz acreditar sofrer da chamada “síndrome de Cassandra”. Não afirma que acerta sempre. Apenas que costuma acertar mais do que a média das pessoas.
A observação, isoladamente, não me parece problemática. É perfeitamente plausível que alguém com sua trajetória possua uma capacidade acima da média para identificar tendências tecnológicas. Sua história empresarial oferece evidências suficientes para que essa hipótese seja considerada seriamente.
O ponto relevante aparece quando essa confiança deixa de orientar apenas decisões empresariais e passa também a fundamentar intervenções políticas.
Na empresa, acreditar que se enxerga melhor o futuro costuma produzir inovação. Empreendedores são continuamente chamados a formular hipóteses sobre cenários que ainda não existem. Algumas estarão corretas; outras não. O ambiente empresarial permite esse processo de experimentação. Hipóteses são revistas, produtos são abandonados, estratégias são corrigidas e o aprendizado faz parte da própria dinâmica da inovação.
Na política, entretanto, essa lógica encontra um limite importante.
Uma decisão política também nasce de hipóteses sobre o futuro. A diferença é que suas consequências deixam de recair predominantemente sobre quem tomou a decisão e passam a atingir toda a sociedade.
Uma eleição já ocorreu.
Uma instituição já foi deslegitimada.
Uma política pública já foi interrompida.
Uma crise diplomática já foi produzida.
Uma vez desencadeados, muitos desses efeitos já não podem ser simplesmente revertidos porque a hipótese inicial foi revista.
É justamente aí que, a meu ver, a entrevista toca um dos temas centrais da democracia liberal.
O liberalismo não desconfia da concentração de poder porque presume que pessoas poderosas sejam necessariamente más ou mal-intencionadas. Ele desconfia porque reconhece que mesmo indivíduos extraordinariamente inteligentes, criativos ou visionários continuam incapazes de antecipar plenamente o comportamento de sistemas sociais complexos.
Não se trata, portanto, de limitar o poder por desconfiança moral.
Trata-se de limitá-lo por prudência epistemológica.
A entrevista não me levou a concluir que Elon Musk esteja certo ou errado sobre inteligência artificial, sobre a Europa ou sobre qualquer uma de suas posições políticas.
Ela me levou a formular outra pergunta.
O que acontece quando alguém passa a acreditar que sua capacidade de antecipar o futuro também lhe confere legitimidade para intervir, cada vez mais, nos rumos das sociedades?
Talvez essa seja uma pergunta inevitável sempre que inovação tecnológica, concentração de poder e influência política passam a coexistir na mesma pessoa.
E talvez seja exatamente essa a pergunta que Zanny Minton Beddoes tentou fazer durante toda a entrevista.
Sem nunca formulá-la explicitamente.




